TV marca horário do jogo e gera reclamações. Soa familiar?
Apita o árbitro: fim de jogo, seu time é campeão. Mas não há tempo para comemorar. Muito menos para ver o capitão levantar a taça. É preciso correr para tentar pegar o último trem na volta a casa. Por mais que a festa vire a noite, o transporte público não ajudará os torcedores que quiserem estender um pouco mais a celebração.
A situação descrita acima se adaptaria muito bem à realidade brasileira. Porém, o entrave vem causando muitas reclamações na Inglaterra. E lá, assim como aqui, a vilã é a mesma: a televisão. A Football Association confirmou a decisão da Copa da Inglaterra, em 11 de maio, para as 17h15. Justamente em um dia no qual os serviços de trem de Londres rumo ao norte do país serão encerrados mais cedo para obras de manutenção, prejudicando a volta dos torcedores de Manchester City e Wigan.
O problema já tinha acontecido na temporada passada, quando a torcida do Liverpool não conseguiu pegar o trem para Merseyside, depois da derrota para o Chelsea na decisão. Até mesmo Kenny Dalglish, então técnico dos Reds, deu voz às queixas e afirmou que a FA não tinha respeito suficiente pelos torcedores.
Posicionando-se ao lado dos dois clubes, a federação de torcedores condenou a decisão: “Torcedores de Wigan e Man City terão que pagar um pernoite em Londres para satisfazer os caprichos de uma empresa de TV. O horário do início de jogo não tem sido aprovado pelos torcedores, especialmente para aqueles que precisam viajar longas distâncias. Parte do que torna a Copa grandiosa é sua tradição, mas ela tem sido corroída nos últimos tempos”.
A situação é realmente delicada para os torcedores que dependem dos trens. Considerando o encerramento das atividades das linhas férreas, os fãs do Manchester City podem ficar sem transporte caso o jogo vá para a prorrogação, enquanto os do Wigan correm o risco de perder a viagem mesmo se a decisão se encerrar em 90 minutos. Para piorar, o trajeto dura de quatro a seis horas, significando a chegada em casa apenas no início da madrugada.
Independente da dor de cabeça dos torcedores, o secretário geral da FA, Alex Horne, não indica mudanças: “Nós agora consumimos o futebol neste intervalo de tempo. Isso realmente funciona. O início de jogo mais cedo não tem o mesmo apelo. Conseguimos milhões de telespectadores nesse novo horário. É um compromisso sensato”.
Para piorar, a entidade chegou a sugerir outras opções de transporte e aproveitou para promover uma empresa de ônibus fretado, que é sua parceira. Um oportunismo desnecessário diante da insatisfação do público.
É óbvio que os interesses da televisão serão bem mais preponderantes que os interesses dos torcedores, ainda mais em um evento de dimensões globais. Mas será que antecipar a final em duas horas seria tão prejudicial ao evento? Talvez uma porção menor do público americano assistisse ao jogo. Tirando isso, não há nenhuma outra perturbação aparente, já que não haverá outros compromissos dos times da primeira divisão inglesa no dia.
Do ponto de vista comercial, é sempre mais interessante atingir uma fatia maior do mercado. Entretanto, não dá para ignorar totalmente as demandas de quem vai ao estádio, principalmente em uma questão vital como a do transporte público. Audiência é vital, mas arquibancadas lotadas podem ser ainda mais atrativas a quem vê o jogo de longe – e também bastante lucrativas. Algo que os dirigentes ingleses parecem não levar em conta. E muito menos os brasileiros, bem mais distantes de um diálogo sobre o assunto.



