Tim Vickery: Romero, Tottenham, Belgrano e como tratamos jogadores como mercadoria
Domingo teve fortes emoções no futebol argentino e inglês, com título inédito e salvação dos Spurs
Em mais uma mostra da descentralização do futebol argentino, o Belgrano, de Córdoba, ganhou o título pela primeira vez, e de uma maneira muito emocionante. “O Pirata” venceu o gigante River Plate de virada, marcando dois gols nos últimos minutos para levar o jogo por 3 a 2.
Deveria ter sido uma festa incrível por lá domingo à noite — que o Cristian Romero perdeu, parcialmente por minha culpa.
Recuperando de uma lesão de joelho, e se esforçando para ficar pronto até a Copa do Mundo, Romero se encontrou — de uma forma totalmente legítima — na Argentina. Nascido em Córdoba, cria de Belgrano, era óbvio e natural a sua empolgação com a possibilidade de um título inédito, o momento mais importante em mais de 120 anos do clube. Vi uma matéria na imprensa local, com ele falando que estaria no estádio para o jogo.
Romero com coração dividido entre Belgrano e Tottenham
O problema é que, no mesmo dia, o seu clube estava jogando a vida na última rodada da Premier League. O Tottenham estava lutando contra um rebaixamento que seria desastroso e muito humilhante. E Romero é o capitão.
Semana passada eu chamei atenção a essa situação na rádio da Inglaterra. Eu sou torcedor do Tottenham — mas nunca fui um torcedor “doente”, e décadas nas tribunas da imprensa podem te levar um pouco longe da paixão do fanático. Para mim, nada demais. Só achei interessante a coincidência de dois grandes jogos no mesmo dia nos dois lados do Atlântico. Mas já que não estava em condições de atuar, para mim a ausência de Romero do jogo do Tottenham não era grande coisa.
Logo vi que faço parte de uma minoria — bem pequena.
O apresentador — outro torcedor do Tottenham — levou muito mal. Ficou revoltado — até vestiu uma camisa do River Plate no dia seguinte. Virou grande assunto. Uma explosão de raiva. Lendas do Tottenham apareceram para falar que o comportamento do capitão era uma vergonha, o técnico De Zerbi foi obrigado a lidar com o assunto nas coletivas.
Falou que entendeu a raiva da torcida, mas a ausência do Romero estava combinada. Mas a coisa pegou tão mal que, no último minuto, Romero teve que voltar às pressas para Londres para marcar presença. Estava lá quando a vitória de 1 a 0 em cima do Everton garantiu a sobrevivência na Premier League. Mas depois, pelo menos um pouco, deveria ter ficado triste por ter perdido a festa histórica do Belgrano.
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Ossos do ofício?
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A pergunta básica aqui é a seguinte: qual é o ‘seu’ clube?
Na Inglaterra isso era bem óbvio — aquele que paga o seu salário. Mas trata-se de uma simplificação do consumidor. Cristian Romero não pintou em Londres pronto para defender o Tottenham sem uma história por trás — uma paixão por futebol na infância, um clube que nutrou essa paixão e ajudou a transformá-lo em profissão. E no caso dele isso aconteceu na cidade de Córdoba com o Belgrano. É uma ligação eterna.
Como esperar que ele esqueça isso por uma relação com o seu clube atual que por enquanto tem laços fortes mas na essência é temporária?
Estamos assim esquecendo o ser humano para focar somente com o jogador como mercadoria. Claro, ele tem obrigações para defender o seu clube atual — coisa que, vamos ser sinceros, ele não tem feito muito bem nesta temporada. Mas se ele fez parte de momentos bons com o Tottenham — como a conquista da Liga Europa um ano atrás — isso tem a ver com a formação dele no país de origem.