Soberba quase atrapalha

Em “Encontros e Desencontros” (tradução tenebrosa de “Lost in Translation”), o ator Bob Harris (Bill Murray) vai a Tóquio gravar o comercial da bebida Suntory. Fora os compromissos profissionais, ele fica enfurnado em seu hotel, sentindo-se claramente deslocado na massa urbana da capital japonesa e no fuso horário. Foi mais ou menos o que passou o Manchester United nesta semana, com a diferença que os jogadores, até onde se sabe, não conheceram a Scarlett Johansson nesse meio-tempo.
Os Red Devils não fizeram muita questão de esconder que viram a participação no Mundial de Clubes apenas como compromisso profissional e institucional. Antes da competição, houve reclamações a respeito da longa viagem no meio da temporada. Depois, o alvo era o fuso horário e a dificuldade de dormir (a delegação manteve-se no horário britânico para não bagunçar o sono).
Isso ficou evidente pelo modo contido como os jogadores comemoraram o título. Como escreveu o jornalista inglês Barry Glandenning no seu relato da final contra a LDU Quito, parecia que o time conquistara a Community Shield. Claro, é maldade dizer que o Mundial de Clubes vale tão pouco para o Manchester United quanto a Supercopa da Inglaterra. Até porque, na falta de êxtase na comemoração, misturou-se também um certo enfado por ganhar uma competição em que não havia um desafio técnico notável.
O abismo técnico entre os Red Devils e a LDU era marcante. Mesmo sem imprimir um grande volume de jogo, os mancunianos dominaram os equatorianos todo o tempo, dosando suas forças para “evitar a fadiga” (como diria o carteiro Jaiminho). No primeiro tempo, foram quatro chances claras de gol, três defendidas por um sempre estabanado – mas dessa vez inspirado – Cevallos (Park, Tevez e Rooney) e uma que foi pelo alto (Rooney).
A Liga não conseguiu esconder o temor que sentia do adversário. Errou passes tolos por nervosismo e os jogadores em geral pareciam mais preparados para as funções defensivas (na qual o time fez o possível) do que para criar algo. Manso foi o único a chamar o jogo para si. Bolaños esteve mais recuado que o normal e Bieler não incomodou a marcação inglesa como precisa fazer o centroavante isolado de um time que joga em contra-ataque.
A pequena possibilidade que os Blancos tiveram moraram na soma de dois fatores: a demora para o United definir o jogo – que ficou à mercê de um lance isolado – e a expulsão de Vidic. Nesse momento, concentrado no segundo tempo, os sul-americanos tiveram alguma esperança realista de vencer. Se um chute de fora da área ou um passe não dado de Manso tivessem resultado em gol, o rumo da partida poderia ser muito diferente.
Não foi assim. Van der Sar fez uma grande defesa em um lance e, no outro, o meia argentino não passou a bola para Bieler e acabou desarmado. Minutos depois, Cristiano Ronaldo pegou a bola na entrada da área, gingou e atraiu a marcação de dois zagueiros, o que deixou Rooney livre. O português rolou para o atacante inglês, que chutou no canto de Cevallos e levou ao marcador a superioridade técnica vista em campo.
No fim, o minguado 1 a 0 fez que a LDU visse de perto o título mundial. Mas isso só foi possível porque os Red Devils estiveram assoberbados e fizeram questão de tratar o torneio como um intruso no calendário. Se tivessem entrado no clima da competição, talvez o placar final fosse diferente.
PS.: É tentador dizer que os clubes europeus tratam o Mundial de Clubes com real interesse. Dizer o contrário pode passar a sensação de que os brasileiros que conquistaram esse título só o fizeram por falta de interesse do adversário. Bobagem. Os times brasileiros que conquistaram o mundo têm seus méritos, até porque a dedicação de um time muda de acordo com o nível de desafio que o adversário proporciona. Enfrentar um clube brasileiro ou argentino é mais motivante que um equatoriano (independentemente do fato de a LDU ser campeã continental). Por fim, falar “europeus não se interessam” é uma generalização tosca. Cada clube tem suas prioridades. Falei das do Manchester United em 2008.
O favorito está lá atrás
Liverpool e Chelsea se revezam na liderança desde a primeira rodada. No entanto, ambos vão acumulando atuações pouco convincentes e tropeços inexplicáveis. Por exemplo, há duas semanas, os dois líderes empataram em casa com o West Ham. No último fim-de-semana, foi a vez de o Liverpool esbarrar no Hull City.
A falta de solidez de Reds e Blues alimentam cada vez mais a sensação de que o candidato mais forte ao título é o Manchester United. Os Red Devils estão em quarto lugar na classificação, mas com dois jogos a menos. Se vencer as duas partidas (algo factível, pois são contra Fulham e Wigan), o time mancuniano fica a um ponto do Liverpool.
Até o momento, o United tem jogado um futebol irregular no Campeonato Inglês. Fez algumas boas partidas e teve um desempenho um pouco opaco em outras. Mas a equipe está claramente abaixo de seu potencial. Enquanto isso, Liverpool e Chelsea parecem esbarrar nas próprias dificuldades em jogar com consistência em algumas circunstâncias.
O principal obstáculo para os comandados por Alex Ferguson no momento é o calendário. A equipe tem de recuperar-se do atraso de duas partidas em relação ao resto do campeonato justamente no momento em que o calendário inglês é mais congestionado: nas festas de fim-de-ano.
O Manchester United terá de ser cuidadoso ao revezar seus jogadores. Nesse processo, pode perder pontos importantes no período, o que permitiria que Chelsea e Liverpool ampliassem a vantagem na classificação. Ainda assim, a Premier League 2008/9 está com cheiro de tricampeonato.



