Pressão contra os preços altos nos ingressos da Premier League aumenta
Assistir a futebol in loco na Inglaterra está cada vez mais caro, e a briga, que antes era quase exclusivamente dos torcedores, parece ter sido comprada pela opinião pública. Como faz há alguns anos, a BBC publicou um estudo sobre o preço do esporte na Inglaterra, com levantamentos sobre o custo de objetos relacionados aos clubes e principalmente dos ingressos. Dessa vez, porém, a linha editorial parece claramente estar do lado da torcida, com a publicação de uma série de matérias que retratam esse aumento do preço dos ingressos como algo que deve ser combatido. Com isso, a expectativa é de muita discussão em torno do assunto durante essa temporada.
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Realizado pela BBC desde 2011, o BBC Sports’ Price of Football analisou o preço cobrado por 207 clubes, de 11 divisões da Inglaterra e de ligas de outros países no Reino Unido. Da Premier League à quarta divisão inglesa, foi constatado que a média do ingresso mais barato é de £ 21,49, valor 13% superior ao do primeiro ano em que a pesquisa foi realizada. Por ano, o crescimento foi de 4,4%, mais que o triplo da taxa de inflação no mesmo período, que foi de 1,2% ao ano.
Antes mesmo do relatório ser divulgado, os torcedores já demonstravam sua insatisfação. Em agosto, por exemplo, alguns deles fizeram um protesto nas ruas de Londres contra o gradativo aumento de preço de ingressos. Os argumentos de então voltam a ser citados por aqueles que se indignaram com o que os dados da BBC mostraram. Para eles, o crescimento da renda com direitos televisivos, que apenas entre clubes da primeira divisão chega à £ 3,1 bilhões, deveria possibilitar, ao contrário do que vem acontecendo, a diminuição do preço das entradas.
O argumento dos clubes é de que há uma constante cobrança da torcida por contratações bombásticas, jogadores de primeira linha, midiáticos. Dizem que, para bancar esses caprichos dos torcedores, precisam seguir aumentando o preço dos ingressos e que a constante lotação dos estádios prova que os preços atuais são justos. Argumentos válidos, mas que encontrarão muita resistência, de todas as partes.
Frank Lampard foi um dos que se posicionaram a favor da diminuição do preço dos ingressos. “Se não há torcedores nos estádios, criando aquela atmosfera, que na Inglaterra é a melhor do mundo, então você não conseguirá a mesma geração de dinheiro de TV também. Adoro quando reduzem o preço para jogos fora de casa, para alguns jogos de copa (FA Cup e Copa da Liga). Precisam fazer mais isso. Se puderem fazer isso, ótimo. Porque sem os torcedores, o futebol não acontece”, afirmou o meia do Manchester City, em declaração publicada no Daily Express.
A discussão chegou tanto à superfície que até mesmo a ministra dos Esportes da Grã-Bretanha, Helen Grant, se posicionou firmemente contra o preço abusivo dos ingressos. “Eu entendo por que os torcedores estão bravos. Eu estou brava. Os torcedores são o mais importante do esporte. Sem eles, não teríamos o futebol da maneira como o conhecemos. Para levar uma família a um jogo na Premier League, estamos falando de £ 130, isso sem contar o dinheiro do combustível, o estacionamento, cachorros-quentes, hambúrgueres e bebida. Isso não é acessível para maior parte das famílias, então os clubes precisam observar isso”, observou, em entrevista à BBC.
Grant até mesmo revelou um plano do governo para dar apoio a torcedores: “Montamos um grupo de experts. Vocês ouvirão mais sobre isso em breve, estamos prestes a lançá-lo. Esse grupo vai tomar conta de problemas muito importantes, como preços, propriedades de clubes e suas dívidas. Dará aos torcedores o perfil e uma plataforma para exporem suas visões”.
Gary Lineker, ex-jogador da seleção inglesa e hoje um dos mais importantes comentaristas esportivos da Inglaterra, foi outro que demonstrou grande insatisfação com o panorama que os números da BBC expuseram.”Os preços dos ingressos para vermos nossos times seguem crescendo. O futebol precisa agir rápido! Dada a enorme renda com os direitos de TV, a avareza no esporte é indesculpável. O futebol precisa de estádios cheios para manter sua popularidade. Sim, os clubes pagam muito aos jogadores. Sim, os torcedores pressionam os clubes para comprar jogadores. Sim, essa demanda empurra os salários lá para cima. É um círculo vicioso”, comentou, resignado, Lineker, mas sem perder o caráter de crítica à forma como as coisas têm sido conduzidas.
Não há solução fácil oferecida, e os clubes vão bater o pé com os preços, já que, de fato, o sucesso tem sido grande, com estádios repletos. No entanto, há de se pensar também nos torcedores que, pouco a pouco, foram sendo expulsos dos estádios por essa política. Seja lá qual for o caminho que essa história tome, será um debate interessante de se acompanhar nos próximos meses. Nesta quarta, o auge do debate foi atingido, mas tem muito mais a vir por aí.



