Premier League

Unai Emery até deixou uma boa impressão inicial no Arsenal, mas a desconfiança paira sobre sua escolha

Arsène Wenger representa uma era ao Arsenal. Foram 22 anos entre Highbury e Emirates, vividos de maneira distinta entre três atos, mas que se tornaram essenciais para entender o clube. Não se traduz a história dos Gunners sem mencionar o francês de óculos redondos que chegou com ares professorais, e acabou se tornando um mestre a muitos dos sucessos compartilhados no norte de Londres, assim como também foi taxado como culpado pelos fracassos. Findada a temporada, Wenger é uma página virada ao Arsenal. Porém, o que escrever neste novo capítulo em branco? Começar tudo outra vez é uma tarefa difícil, e o próprio Manchester United serve como exemplo. Para substituir a sua lenda, a diretoria apostou em um nome longe de ser unânime. Unai Emery saiu chamuscado do Paris Saint-Germain, mas ganha uma nova oportunidade de se manter diante dos holofotes.

A princípio, a relação parece mais vantajosa a Unai Emery. O treinador pode ter conquistado títulos, mas seu trabalho no Paris Saint-Germain foi abaixo das expectativas. Não manteve a hegemonia na Ligue 1, superado por um Monaco histórico na temporada passada. Caiu duas vezes na Liga dos Campeões, em derrocadas que ratificaram a inferioridade dos parisienses, entre a virada inacreditável do Barcelona e a falta de competitividade contra o Real Madrid. E, pior, não teve pulso para lidar com as estrelas do elenco. Prevaleceu a fama de “banana”, por todos os imbróglios que não contornou. Inclusive, pareceu à mercê dos protagonistas na hora de escalar a equipe. Não se viu um coletivo, e sim um catado de medalhões que nem sempre funcionaram juntos. Isso explica bastante as críticas recebidas e a compreensível saída ao final desta temporada.

Emery chega ao Arsenal por certa grife, um treinador que não será um mero desconhecido para suportar o peso de suceder o Wenger. Em um mercado um tanto quanto escasso, as opções com experiência em clubes de “primeiro escalão na ambição” não eram tão numerosas. No entanto, a escolha se dá também por uma filosofia de trabalho, ante aquilo que apresentava à frente do Sevilla, do Valencia ou do Almería. E também pelo trato que teve com os dirigentes, contagiando a nova chefia com sua energia e o seu conhecimento. Segundo informações da imprensa inglesa, oito candidatos ao cargo foram entrevistados desde o final de abril. Emery teria sido realmente a primeira opção, por mais que o nome de Mikel Arteta circulasse com força entre os jornalistas locais.

Pela forma como se desenrolou a primeira coletiva de Emery, aliás, a impressão positiva fica mais evidente. Apesar de demonstrar claras dificuldades com a língua inglesa, em falas pausadas e travadas, o comandante expressou sua paixão no idioma local – algo importante para atingir diretamente o público. Indicou que trabalhará no Emirates não apenas para melhorar os resultados, mas também para exibir um futebol agradável – uma das marcas de Wenger, acima de tudo. Seus sucessos em Sevilla ou Valencia não ficaram marcados necessariamente pela estética, mas tiveram certo apreço pela verticalidade, mesmo com mudanças constantes de peças. Ainda que faça adaptações ao que pensava Wenger, o privilégio à ofensividade parece uma das premissas iniciais.

“É um grande clube, com grandes jogadores e achamos que precisamos mudar poucas coisas – só alguns jogadores. O objetivo é ser candidato ao título e lutar por ele. Isso é muito importante ao clube, depois de dois anos fora da Liga dos Campeões – ser o melhor time da Premier League e também do mundo. O que seria atingir o sucesso nesta temporada? Desenvolver, mas como você desenvolve? Eu acho que é brigar por todos os títulos. É algo que está na história do Arsenal e também na minha, desejo continuar. Também quero que o time deixe os torcedores orgulhosos”, declarou Emery, na conferência.

“Minha ideia é sermos protagonistas – jogarmos contra todos os times com personalidade. A história aqui é a de um time que ama jogar com a posse de bola. Eu gosto dessa personalidade. Quando você não tem a posse, eu quero que a equipe pressione de maneira bastante intensa. As duas coisas são importantes para o protagonismo – posse e pressão. Não prometo que vamos vencer, mas posso prometer que trabalharemos duro e em conjunto. Irei transmitir nossa emoção e iremos lutar pelos nossos objetivos. Conheço todos os jogadores. Acho que todos os jogadores serão bastante importantes. Eu quero falar com todos eles face a face”, complementou o comandante.

A intensidade pregada por Unai Emery é uma parte importante de seu discurso. Exceção feita parcialmente ao PSG, o técnico teve esta como a base de seus trabalhos – até por, segundo seus ex-comandados, possuir uma obsessão doentia por pensar o jogo 24 horas por dia. A disciplina tática precisa se reproduzir no dia a dia, em treinamentos fortes, no qual o espanhol gosta de prever diferentes aspectos das partidas. Há um detalhismo exacerbado, que tende a resultar numa reestruturação interna nas atividades dos Gunners. Nem todos os jogadores gostam deste nível de cobrança, mas é assim que o novo comandante desenvolve seus preceitos. Além do mais, outro ponto essencial é o estudo aos adversários, adaptando a postura da equipe.

Já dentro de campo, a tônica está entre acelerar o jogo e pressionar sem a bola. O Arsenal não exibe necessariamente as mesmas características praticadas pelo treinador – assim como não foi em Paris. Wenger concedia mais liberdades de movimento, contrárias às minúcias que muitas vezes Emery pede no trato individual, dentro de seu sistema. Mas, ao que tudo indica, há uma carta branca no Emirates para que o espanhol se imponha sobre as estrelas, fazendo valer a sua linha de trabalho.

Neste ponto, entra o contato de Unai Emery com os jogadores, algo decisivo ao seu fim no PSG. O Arsenal garante que não fará grandes investimentos no mercado de transferências, com £50 milhões na carteira para reforços. Assim, o papel do novo comandante será estreitar os laços do elenco e formar uma espinha dorsal que possa render além da mera vaga na Liga Europa. Há jogadores de renome para isso, embora alguns medalhões tenham rendido menos do que poderia se exigir. O entrave será mesmo na convivência com as estrelas. Se não tem um Neymar, o espanhol lidará com egos – Pierre Emerick-Aubameyang, pela maneira como deixou o Borussia Dortmund, acaba se tornando o maior exemplo disso. Além disso, a postura acomodada em vários jogos das últimas temporadas será um desafio.

Chefe executivo do Arsenal, Ivan Gazidis esteve na conferência de imprensa para respaldar a escolha de Unai Emery. Fez questão de ressaltar, inclusive, que todos os oito candidatos entrevistados se mantiveram abertos ao cargo, e a opção pelo espanhol foi mesmo um consenso interno: “A recomendação formal para o conselho foi apoiada por um dossiê de 100 páginas, como referências, análises, vídeos e um grande grau de informações para servir de base. Todos os membros da diretoria estavam empolgados com a recomendação de Unai, apoiando com entusiasmo. Emery mostrou uma boa análise de nossos jogadores, de suas qualidades e de como ele sente que pode ajudá-los a se desenvolver, tanto no coletivo quanto no individual. O diferencial foi a química entre nós e o sentimento mútuo pelo futebol. Unai tem uma energia. Todos os nossos jogadores irão responder a isso”.

Emery certamente não era o primeiro nome na cabeça dos torcedores quando se pensava no substituto de Wenger. E, convenhamos, parecia difícil encontrar alguém que suportasse este legado. Ainda assim, o espanhol deixa as suas reticências. Para que consiga se firmar no Estádio Emirates, ele precisará se provar. Sobretudo, provar que os entraves que minaram o seu caminho em Paris foram ocasionais, não uma regra. Pensando no que pode ser ideal, o novo contratado possui sua capacidade tática. Mas será isso suficiente para arrancar o máximo dos jogadores do Arsenal, até pela postura desinteressada? Para que suas palavras iniciais façam efeito, necessitará conquistar a confiança e o comprometimento – mais com as construções do dia a dia, do que propriamente com sua reputação.

Seria melhor ao Arsenal “começar do zero” também com um novo treinador? Mikel Arteta tem uma identificação com o clube e vem de um trabalho interessante como auxiliar de Pep Guardiola, mas acabaria uma grande aposta, que a direção preferiu não bancar. Seria melhor buscar alguém com “espírito vencedor”, que pudesse injetar uma noção diferente ao clube em relação aos últimos anos? O nome de Massimiliano Allegri até pipocou na imprensa, mas, se ficou entre os oito, não impressionou tanto assim a diretoria. Unai Emery, no fim das contas, acaba oferecendo um equilíbrio entre diferentes pontos, se passarmos por cima da decepção no Paris Saint-Germain – o que não é fácil. Mais importante, pode ser alguém a construir uma nova estrutura, diferente do que aplicava Wenger. É nisso que os Gunners acreditam, embora as certezas só virão em campo. E há uma natural desconfiança.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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