Tottenham supera o Chelsea com folgas e amplia crise no rival
Dérbi londrino escancarou a bagunça nos Blues e premiou a consistência dos Spurs
Bastava um time minimamente organizado em campo para vencer o Chelsea. Neste domingo (26), o Tottenham venceu o rival pela primeira vez em seu novo estádio, pelo placar de 2 a 0. O resultado não surpreende de forma alguma quem acompanha a Premier League e, pior para os perdedores, escancara a realidade difícil de Graham Potter no banco dos Blues.
Em Londres, quem mais tem títulos europeus de primeira prateleira também é quem mais acumula problemas. O Chelsea, desde a chegada de seu novo dono, Todd Boehly, tem sido superlativo em vários aspectos, quase todos negativos. A gastança desenfreada em reforços muitas vezes sem sentido, os jogos sem vencer (apenas um triunfo nas dez últimas partidas) e as caras de descontentamento, tanto da torcida quanto da gestão, não ajudam a melhorar a vida de um clube que, há um ano, conquistava o título do Mundial de Clubes da Fifa.
A campanha começou mal com Thomas Tuchel e, em vez de procurar alguma estabilidade, os Blues foram para o caminho oposto, trazendo o caos para dentro do vestiário. Nesse contexto, um treinador jovem como Graham Potter tem imensa dificuldade em lidar com a pressão, a exigência de resultados por parte de seu elenco e, como se soube nos últimos dias, a desumana cobrança da torcida, em forma de ameaças de morte. Não devemos ver Potter por muito mais jogos à frente do Chelsea e isso talvez seja a melhor notícia possível para ele.
Todo time bem sucedido no esporte começa pela formação de… um time. Ao passo que se questiona se realmente as coisas estavam tão horríveis com Tuchel, é visível que os reforços que chegaram na janela de inverno também não ajudam na formação de um grupo coeso. É muita gente falando muitas línguas diferentes e nenhuma delas parece querer dizer a mesma coisa.
O Chelsea fez o que qualquer jogador preguiçoso faria no videogame: contratar aos montes e esperar que os craques magicamente se entendam em campo. Mykhaylo Mudryk, João Félix, Pierre Aubameyang, Mason Mount, Kai Havertz, Mateo Kovacic, Kalidou Koulibaly e Thiago Silva poderiam ser peças cruciais em qualquer outro lugar, mas em Stamford Bridge são apenas figurinhas brilhantes, no momento. E isso não mudaria nem se Boehly resolvesse tirar mais um saco de dinheiro do seu porta-malas para trazer Lionel Messi, Neymar, ou mesmo uma versão regenerada e jovem de Franz Beckenbauer para comandar a defesa. Não é assim que funcionam as coisas no futebol moderno.
O futebol jogado, não falado
O jogo, sim, o jogo. O Tottenham era favorito com sobras, e ainda assim era, de alguma forma, coadjuvante do clássico, jogando diante de sua torcida. E é como dizia Johan Cruyff: nunca vimos um saco de dinheiro fazer gols. Quando a bola rolou na primeira etapa, os ânimos acirrados tiraram um pouco do apelo técnico esperado para um confronto desse nível. Verdade seja dita, houve mais confusão do que necessariamente boas jogadas. Não que os Spurs de Antonio Conte tivessem algo a ver com isso. Eles fizeram exatamente o que cabia no momento: atuaram de maneira minimamente consistente e competitiva, esperando aquele instante em que o rival iria desmoronar sozinho.
Antes do intervalo, Hakim Ziyech flertou com a expulsão e uma suspensão severa ao acertar um leve soco no rosto de Emerson Royal. O árbitro Stuart Attwell chegou a expulsar o marroquino, mas conferiu no VAR e mudou sua decisão, dando apenas cartão amarelo. O lateral brasileiro, que vinha muito bem e fez uma partida exuberante, desestabilizou o lado esquerdo do Chelsea com muita velocidade e boas decisões na troca de passe. Potter já estava preocupado bem antes: Thiago Silva se lesionou e foi substituído por Wesley Fofana ainda na faixa dos 20 minutos.
Foi só na segunda etapa que a coisa realmente esquentou em termos de bola rolando, à parte das brigas e entradas mais vigorosas. No primeiro lance, o Tottenham achou um ataque rápido, forçou o chutão do Chelsea após a recuperação e viu o garoto da base Oliver Skipp mandar uma bomba no ângulo da meta de Kepa Arrizabalaga. Um golaço, o primeiro dos Spurs contra os Blues no Tottenham Stadium, e um para se lembrar por muito tempo.
Moído emocionalmente e mais uma vez em desvantagem (encaminhando a sétima derrota em 18 rodadas da Premier League), o Chelsea não conseguia trocar passes com consistência e frequentemente cedia a posse ao Tottenham no meio-campo. Nas raras vezes em que os visitantes ousaram invadir a área dos locais com perigo, o goleiro Fraser Forster fez boas intervenções. Outro que se destacou defensivamente foi o ótimo (e por vezes viril demais) Cristian Romero. Foram dez finalizações do Chelsea, sendo apenas duas no alvo. Mais um indicativo do ataque estéril da equipe de Potter.
Empurrado pela torcida e confortável com o futebol que praticava, o Tottenham apenas cozinhou a situação para encontrar o segundo gol. E ele veio nos 10 minutos finais, com Harry Kane, sempre oportunista, sempre muito bem colocado para aproveitar uma sobra de escanteio. De cara para o gol, o artilheiro não perdoou e sentenciou o Chelsea a mais um amargo domingo de reflexão e dores de cabeça.
Os Spurs se consolidam na quarta colocação e fazem valer os dois jogos a mais que o Newcastle na tabela. Enquanto isso, mergulhado em mais uma crise e sem qualquer rumo claramente definido, o Chelsea ocupa o 10º posto, praticamente se despedindo da Europa na próxima temporada e com um incômodo número em seu saldo de gols: até aqui, o time de Stamford Bridge sofreu mais gols (25) do que marcou (23). Não há dinheiro no mundo que compre a paz.



