Premier League

Mourinho no Tottenham é uma aposta que pode dar terrivelmente errado ou brilhantemente certo

O Tottenham passou uma noite de sono sem ter oficialmente um técnico. Na manhã desta quarta-feira (20), o substituto de Mauricio Pochettino, demitido na terça-feira, foi anunciado: José Mourinho. O treinador português chega aos Spurs com um contrato de pouco mais de três anos e meio, até o fim da temporada 2022/23. Se em outros tempos a transferência poderia ser vista sob o viés único de uma declaração de intenção, a esta altura da carreira do português – e do momento do clube – é uma grande aposta, com consequências possivelmente extremas, para o bem ou para o mal.

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“Com José nós temos um dos técnicos mais bem sucedidos no futebol. Ele tem uma vasta experiência, pode inspirar times e é um grande estrategista. Ele ganhou títulos em todos os clubes que trabalhou. Nós acreditamos que ele irá trazer energia e confiança para o vestiário”, afirmou Daniel Levy em comunicado do Tottenham.

“Estou empolgado por ingressar em um clube com uma história tão grande e torcedores apaixonados. A qualidade da equipe e das categorias de base me empolga. Trabalhar com esses jogadores foi o que me atraiu”, disse Mourinho em suas primeiras palavras como treinador dos Spurs.

Técnicos de futebol têm uma janela de oportunidade para conquistar títulos. A de Pochettino no Tottenham deveria ser maior, poderiam argumentar alguns, mas para Daniel Levy ela havia mesmo passado após cinco anos e meio. Independentemente do trabalho brilhante do argentino ao catapultar o time londrino a um outro patamar, ele só bateu na trave na briga por títulos – ainda que se deva apontar que um vice-campeonato na Champions League e outro na Premier League foram resultados acima do que o clube deveria esperar com seu nível de investimento.

Uma mera Copa da Inglaterra neste tempo em que esteve no norte de Londres possivelmente seria suficiente para dar mais respaldo a uma continuidade após a inegável queda de rendimento. Isso não aconteceu, e agora o Tottenham mira um técnico que cheira a títulos – mas que carrega nos últimos anos um odor azedo por seu fim de trabalho no Chelsea e pela empreitada seguinte no Manchester United.

Para Mourinho, o novo trabalho é uma chance de ouro de resgatar sua reputação. O português assume um elenco forte, já com uma filosofia de jogo formada. A ele, basta assumir seu lugar e tirar proveito da natural mudança de ânimo causada pela chegada de um novo comandante para manejar o leme para longe do impacto com um iceberg. Mas tal qual o bloco de gelo, a superfície traz apenas uma pequena porção do problema, e é da água de superfície para baixo que moram os principais potenciais problemas desta junção Mourinho-Tottenham.

Em primeiro lugar, por melhor que seja o elenco dos Spurs, ele precisa de ajustes. A janela de transferências passada, com a chegada de Ndombélé, Lo Celso e Sessegnon – ainda que tenha sido um salto enorme em relação ao verão anterior de zero contratações –, não foi suficiente para fazer todas as mudanças de que o plantel precisava. Faltou a chegada de uma reposição a Kieran Trippier, que partiu para o Atlético de Madrid, além de um nome para assumir a lateral esquerda e outro para o ataque para tirar o peso das costas de Harry Kane. E a necessidade de novos jogadores tende apenas a aumentar em breve.

É sabido há algum tempo que muitos atletas do atual elenco dos Spurs queriam deixar o clube na janela passada. Christian Eriksen, Danny Rose, Serge Aurier e Victor Wanyama são alguns dos que tentaram forçar uma saída no verão, enquanto Toby Alderweireld e Jan Vertonghen têm contrato apenas até o fim da atual temporada e seguem sem renovar com o clube.

Nem mesmo um mês atrás, José Mourinho, o comentarista, dizia em transmissão da Sky Sports na Inglaterra que não gosta de “manter jogadores que não querem permanecer no clube. E não estou nem pensando na perspectiva econômica, mas, sim, na emoção do jogador”, embora tenha acrescentado que sempre sentiu que “o maior investimento que o Tottenham poderia fazer é o que fez nas temporadas anteriores: manter seus melhores jogadores”.

Portanto, o português chega com este primeiro desafio, que deverá ser bastante difícil. Só o caminhar da temporada trará um desenredo a isso. Porém, independentemente do resultado, contratações, não poucas, serão necessárias, e aí vem talvez a maior incógnita de qual será a dinâmica desta relação que se inicia.

Se Mourinho se irritou com a falta de apoio financeiro do gastão Manchester United ao pedir reforços para a zaga em sua temporada derradeira em Old Trafford e não consegui-los, no Tottenham encontrará um presidente conhecido por ser mão fechada. Essa relação entre técnico e mandatário – e como ela se desenrolará – será essencial para o sucesso do português no norte de Londres.

A essas interrogações soma-se a péssima relação que Mourinho teve com o elenco do Manchester United em seu último trabalho para pesar contra a escolha do Tottenham pelo português. Por outro lado, o técnico é uma figura tão divisiva que não dá para descartar um cenário em que conquiste as lideranças do elenco a ponto de equilibrar a balança – como já o fez em outros clubes, notavelmente o Chelsea da primeira passagem, ou com Zlatan Ibrahimovic, que “morreria por ele” na Inter – e repetiu no United.

Relação com os jogadores não foi o forte de Mourinho no United (Foto: Getty Images)

A seu favor, Mourinho tem a reputação, que parece ter sobrevivido aos fracassos recentes. A reação da torcida do Tottenham tem sido, em sua maioria, otimista. Em fóruns, redes sociais e canais especializados de fãs no YouTube, todos apontam para o rol vencedor de 25 troféus do português para celebrar a sua chegada. Sob esta óptica, Mourinho era o nome necessário para levar os Spurs justamente à única coisa que faltou a Poch: títulos.

A nova relação, a priori, não parece sugerir meios-termos: é mais fácil apostar em um grande sucesso ou em um retumbante fracasso. Mourinho tem tudo para dar certo no Tottenham: novo estádio, filosofia de jogo estabelecida, um clube que fatura mais a cada ano. E tem tudo para também dar errado. Afinal, não é incomum se perguntar como ele conseguiu um emprego tão grande depois de um trabalho tão tenebroso quanto o que fez no Manchester United.

De um jeito ou de outro, a garantia é de que teremos bom entretenimento no decorrer desta jornada.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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