Com o sobre o racismo reaceso pela morte de George Floyd nos Estados Unidos, diversas figuras do futebol têm se posicionado sobre o assunto, com uma amplitude sem precedentes no esporte. Gareth Southgate, treinador da seleção inglesa, passou por situações emblemáticas no ano passado, quando viu seus jogadores serem alvos de insultos racistas por parte de torcedores adversários em Montenegro e na Bulgária, em partidas das eliminatórias para a Euro 2020. Tendo experimentado o protocolo de três passos estabelecido pela Uefa para casos de racismo, considera o processo “inaceitável”.

Recapitulando, o protocolo de três passos da Uefa consiste em duas advertências e paralisações do jogo para tentar deter insultos raciais que aconteçam durante uma partida. No primeiro deles, o árbitro para o jogo e o sistema de som do estádio pede aos torcedores que parem os ataques. No segundo deles, o jogo é suspenso por um curto período, e mais um aviso é feito. Por fim, o terceiro passo, ainda não utilizado, prevê que o árbitro decrete o fim da partida. No jogo da Inglaterra com a Bulgária, em outubro de 2019, o jogo foi paralisado duas vezes, mas não suspenso.

Para Southgate, este processo todo é muito leniente, permitindo aos infratores dois “passes livres” para insultar racialmente os jogadores. “Não hesitaríamos em dar o próximo passo (deixar o campo) se estivéssemos naquela situação de novo. E, sim, não acho que o protocolo de basicamente dar dois passes livres para as pessoas seja realmente aceitável”, disse o técnico, em entrevista à Sky Sports.

Para Southgate, no entanto, o problema precisa ser tratado na raiz, do portão dos estádios para fora: “Concordo que sempre temos que avançar (na luta contra o racismo), e, sinceramente, quando estamos em um ponto em que temos que agir dentro de campo, já foi longe demais. A situação precisa ser resolvida antes mesmo de chegarmos aos estádios, na ”.

Tomando como comparação momentos passados que testemunhou, Southgate nota algo de diferente agora e tem a esperança de que estejamos passando por uma mudança substancial na questão racial.

“(A morte de George Floyd) Desencadeou uma reação ao redor do mundo. Já estive em um momento como esse antes, já falamos sobre momentos que podem mudar a sociedade. Temos esperança de que esse possa mudar, certamente parece diferente quando olhamos para a reação mais ampla (da sociedade)”, avaliou.

As discussões atuais têm também reativado o questionamento sobre o baixíssimo número de dirigentes e treinadores negros no futebol inglês, especialmente se levamos em conta a grande proporção dos negros entre os jogadores profissionais. Southgate concorda que esses espaços precisam ter uma ocupação mais diversa, até para dar aos jovens algo por que aspirar.

“Acho que todas essas áreas são onde temos que focar nossa atenção, sobre a questão das oportunidades, essa sensação de que o Troy (Townsend, chefe de desenvolvimento da organização Kick It Out, que combate o racismo no futebol) falou, que as pessoas sentem que não existem oportunidades, e então os jovens negros se abstêm de buscar as qualificações ou de se preparar, porque sentem que existe um teto para o que é possível. E precisamos de suas vozes nessas áreas de tomadas de decisão. Precisamos mostrar às pessoas que as oportunidades existem. Isso precisa existir em cada nível do esporte.”

Nesta segunda-feira (8), Raheem Sterling bateu na mesma tecla, afirmando que “não há muitos rostos com que podemos nos identificar e ter conversas”. “Este é o momento de falar sobre esses assuntos, falar da injustiça, sobretudo no meu campo. Temos algo como 500 jogadores na Premier, um terço deles é negro, e não temos representação na hierarquia do futebol, não temos representação nas comissões técnicas”, argumentou.

“Trata-se de se juntar e encontrar uma solução para poder desencadear mudanças, colocando pessoas negras nessas posições em que sinto que elas deveriam estar. Vou dar um exemplo perfeito. Você tem o Steven Gerrard e o Frank Lampard, e aí tem também o Sol Campbell e o Ashley Cole. Todos eles tiveram excelentes carreiras, todos jogaram pela Inglaterra. Ao mesmo tempo, todos eles fizeram sua qualificação para treinar no mais alto nível, e os dois que não ganharam as oportunidades certas são os dois ex-jogadores negros”, apontou Sterling.

Em 2018, números levantados pela própria FA mostraram que apenas 5% dos cargos de liderança no futebol inglês eram ocupados por pessoas negras, asiáticas e de minorias étnicas, enquanto apenas 13% dos treinadores se encaixavam nesse perfil. Um plano de ação foi estabelecido, com o objetivo de aumentar essas taxas para 11% e 20%, respectivamente, até 2021.