Premier League

Shaqiri fez justiça à saraivada do Liverpool, contra um United atordoado por quase 90 minutos

Xherdan Shaqiri foi levado pelo Liverpool como uma ótima adição ao elenco. Não chegava para ser titular absoluto, mas para dar opções a Jürgen Klopp em meio às diferentes ambições dos Reds. De fato, o suíço vem cumprindo o papel e até superando as expectativas, pela quantidade de partidas que acaba decidindo. Mais uma neste domingo, a maior delas, para cair de vez nas graças da torcida. O empate que persistiu até o início do segundo tempo, por conta de um erro de Alisson, não era condizente à saraivada ofensiva que o Liverpool impunha sobre o Manchester United no clássico de Anfield. Shaqiri, então, saiu do banco para fazer justiça. Com uma pitada de sorte, anotou dois gols e definiu a vitória dos anfitriões por 3 a 1. Um resultado que aponta a diferença entre os rivais neste momento, de um time que joga o fino e de outro que se afoga nas próprias teimosias.

Jürgen Klopp entrou com algumas novidades na partida. O Liverpool vinha escalado no 4-4-2, com Nathaniel Clyne aparecendo na lateral direita após longo período lidando com lesões. No meio, Georginio Wijnaldum e Fabinho formavam uma dinâmica dupla na faixa central, com Naby Keita e Sadio Mané pelos lados. Já no ataque, a parceria formada por Mohamed Salah e Roberto Firmino, livres para se movimentar. Do outro lado, José Mourinho se resguardava num amontoado, não muito compreensível entre o 4-4-2 e o 3-5-2. Diogo Dalot e Matteo Darmian fechavam a direita, enquanto Jesse Lingard era o responsável pela ligação com o isolado Romelu Lukaku.

As escolhas de Klopp, logo de cara, se mostraram bem mais acertadas. Exceção feita a uma falta lateral, o Manchester United foi praticamente nulo na primeira meia hora do jogo. Neste lance, aos três minutos, os Red Devils até chegaram a balançar as redes. Ashley Young cobrou fechado, Lukaku se esticou tentando desviar e Alisson errou ao deixar passar, mas o belga foi flagrado corretamente em impedimento. Todavia, seria um lance isolado. O Liverpool colocava os rivais contra as cordas e davam uma surra. Eram vários e vários lances de perigo, com liberdade às finalizações. Fechados, os mancunianos se debatiam como podiam. David de Gea fez milagre em chute rasteiro de Firmino, pouco antes de Young travar a sobra. Depois, Fabinho arremataria com muito perigo, ao lado da trave. A bola sobrava e os Reds não economizavam nas finalizações.

Fabinho, em particular, jogava muito bem. Se o brasileiro demora a engrenar em Anfield, muitas vezes perdido quando entra centralizado à frente da zaga, desta vez se combinou muito bem ao lado de Wijnaldum. Tinha liberdade para se aproximar da área e organizava o time com seus passes. Além disso, Sadio Mané era outro voando baixo, ao se movimentar bastante e avançar em diagonal. Justamente o que funcionou no primeiro gol da noite, aos 24 minutos. O camisa 3 percebeu a passagem do senegalês e deu um lançamento sublime, por elevação. Mané matou no peito e não teve problemas para estufar as redes, chutando por entre as pernas de De Gea. Quase o segundo veio na sequência, em bola que ficou com Dejan Lovren e o zagueiro mandou por cima do travessão. Um massacre acontecia na Premier League.

Do outro lado, o Manchester United mal chegava ao ataque. Lukaku não conseguia fazer muito sozinho. Por isso mesmo, contou com a falha de Alisson para dar o imerecido empate aos Red Devils, aos 33. Caindo pela esquerda, o centroavante cruzou da linha de fundo. O goleiro deveria fazer uma defesa protocolar, encaixando o passe, mas a bola espirrou em suas mãos, bateu em seu joelho e sobrou no meio da área. Lingard puniu o erro e deu a igualdade. A falha aumentava a cobrança sobre o Liverpool, que seguia dominando as ações e tentou retomar a vantagem antes do intervalo. No melhor lance, Fabinho deixou Mané novamente de frente para o crime, mas o impedimento foi assinalado.

A tônica do jogo não mudou no segundo tempo. O Liverpool era o único que jogava como time grande em Anfield. A entrada de Marouane Fellaini, no lugar de Dalot, deixava o Manchester United ainda mais acuado, mesmo que Lingard e Rashford ficassem abertos pelas pontas. Os Reds não deixavam de esmurrar a defesa adversária, que se desdobrava para travar os chutes. Firmino, outro inspiradíssimo no clássico, poderia ter feito um golaço aos seis minutos. É até difícil explicar a maneira como o atacante conseguiu manter a bola, cercado por quatro marcadores. Girou, protegeu, deu fintas curtas. No fim, achou espaço para bater no cantinho e viu De Gea se esticar todo para espalmar. Evitou a pintura.

Na meia hora inicial do segundo tempo, o Liverpool finalizou 15 vezes. Um chute a cada dois minutos, embora nove tenham sido bloqueados pela zaga do United. Os Reds também tiveram 71% de posse de bola, contra um adversário que mal passou do meio-campo – e, obviamente, não arrematou uma vez sequer neste intervalo. Entretanto, a vitória só tomou forma quando Xherdan Shaqiri adicionou sua estrela ao clássico. O suíço saiu do banco aos 25, no lugar de Naby Keita. Três minutos depois, assinalou o gol. Mané fez uma jogadaça pela esquerda e cruzou, mas a bola ricocheteou no meio do caminho, antes de De Gea afastar com os pés. O rebote ficou com Shaqiri na área e o reforçou bateu forte de primeira. A finalização desviou no meio do caminho e bateu no travessão, antes de finalmente entrar.

O United até esboçou sair um pouco mais ao ataque depois do gol, com seu primeiro chute no segundo tempo, em bola que Lukaku isolou. Logo depois Mourinho promoveu a entrada de Anthony Martial na vaga de Herrera. Tarde demais, até porque o Liverpool estava ligado na partida e Shaqiri se mostrou realmente disposto a incendiar. O terceiro gol dos Reds, o segundo do substituto, aconteceu aos 34. A defesa afastou apenas parcialmente o passe de Firmino para Salah e, em outra sobra, Shaqiri bateu de primeira. Contou com o desvio em Eric Bailly para superar De Gea. Bastava aos Reds segurarem o placar. E entre os espasmos dos Red Devils, até ficaram mais próximos do quarto, em goleada que seria mais condizente à ampla superioridade. Foram 36 finalizações dos anfitriões, contra seis dos rivais. Voracidade clara, que não poderia ser punida por um erro isolado.

Que Alisson tenha destoado, os demais brasileiros do Liverpool jogaram muita bola. Firmino impressionou pela energia e Fabinho facilmente fez seu melhor jogo desde que desembarcou em Anfield. Mané, Robertson e Wijnaldum foram outros que se saíram muito bem. E, mesmo com pouco tempo em campo, Shaqiri sai como herói por fazer o que os companheiros não vinham conseguindo. Baile no qual a entrega defensiva do United não valeu em nada, diante da desorganização. Pouquíssimo, a um clube que buscava se reafirmar contra os maiores rivais.

A vitória dá ainda mais autoridade à liderança do Liverpool na Premier League. O time fecha a rodada com 45 pontos, um a mais que o Manchester City. Únicos invictos da competição, os Reds têm 14 vitórias, seis delas consecutivas. Caminhada irretocável e histórica. Já o Manchester United se afunda em sua melancolia. Em sexto, têm 26 pontos, já a 11 do G-4. Além disso, venceu apenas um de seus últimos seis compromissos pelo campeonato nacional. Se as críticas sobre Mourinho já eram suficientes para criar instabilidade em Old Trafford, o vareio tomado em Anfield abala qualquer estrutura.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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