Sequestro acabou, mas deixa marcas: o inferno que pai de Luis Díaz viveu sequestrado
Libertado no último dia 9, Luis Manuel Díaz, pai de Luis Díaz, ficou 12 dias sob a mira dos sequestradores
No dia 29 de outubro deste ano, um domingo, Josher Jesus Brito Díaz concentrava-se na eleição para um cargo municipal de Barrancas, cidade dominada pela mina de carvão de Cerrejón, onde ele e o primo, Luis Díaz, atacante do Liverpool, nasceram. Tudo parecia tranquilo, até que seu telefone começou a tocar insistentemente. Em um primeiro momento, Josher ignorou, mas as chamadas persistiram por cerca de 30 minutos. Então ele decidiu atender. Foi quando lhe disseram: ‘Seu tio Luis foi sequestrado’.
Seu tio Luis é Luis Manuel Díaz, pai de Luis Díaz, jogador do Liverpool e da Seleção Colombiana. A partir daquele momento até os 12 dias seguintes, Josher assumiu a responsabilidade de se tornar o intermediário entre a polícia e a família Diaz em um caso que chocou o futebol mundial. Episódios de sequestro nem sempre terminam bem, mas felizmente Luis Manuel pôde reencontrar seus entes queridos.
No último dia 9 de novembro, Mane Diaz (apelido de Luis Manuel Díaz) foi libertado pelo Exército de Libertação Nacional (ELN), uma organização guerrilheira colombiana, de inspiração comunista e caráter político-militar, que o manteve como refém durante quase duas semanas. Passado o pesadelo, Josher, que preside à fundação de solidariedade social com o nome de Luis Díaz, contou ao “The Athletic” detalhes do sofrimento da família durante os dias de angústia.
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La familia de @LuisFDiaz19 se acercó a la concentración para llenarnos de fuerza, amor y sentimiento ???❤️
¡Somos familia! #TodosSomosColombia?? pic.twitter.com/YLqryUPlep
— Selección Colombia (@FCFSeleccionCol) November 14, 2023
O ato do sequestro e a captura dos pais de Luis Díaz
Luis Manuel e Cilenis (mãe de Luis Díaz) foram sequestrados perto de um posto de gasolina, onde um pequeno grupo de homens o forçaram a entrar num carro. Então, o casal foi conduzido em direção à fronteira próxima com a Venezuela. Após receber o telefonema, Josher chegou ao local do crime e deu início à perseguição.
– Fui de carro até ao local onde aconteceu (o sequestro de Luis e da esposa, Cilenis, que foi libertada horas depois). A filha do meu tio estava lá, ela me explicou o que aconteceu e começamos logo a procura-los. Uns foram para um lado, outros para outro (…) Fomos à procura, a polícia também já estava em contato conosco. Mas liguei para alguns conhecidos e amigos, que contactaram o capitão em Barranquilla e que depois chamou a Guajira Seccional (unidade armada). Eles começaram logo a perseguir os sequestradores.
Cerca de uma hora e meia depois, a polícia localizou o carro dos bandidos. O veículo estava abandonado, com Cilenis dentro. Luis Manuel, entretanto, ainda estava desaparecido. De acordo com Josher, o grupo que inicialmente levou os pais de Díaz não era do ELN, mas de “criminosos comuns”.
– Minha tia (Cilenis) disse que os sequestradores não eram colombianos, mas sim estrangeiros, venezuelanos, e falavam uma espécie de dialeto venezuelano. Eles os ameaçaram e disseram-lhes para manterem a cabeça baixa para que não vissem onde estavam indo com o carro -, contou Josher.
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Luis Manuel foi levado para as montanhas
Após estacionarem o carro em uma área isolada e com pouco movimento, os marginais roubaram a moto de um morador que passava pelo local e levaram Luis Manuel para as montanhas. Ciente da situação, Josher viajou em comboio com a polícia e encontrou a moto, também abandonada, nas florestas da serra de Perija. A partir deste trecho, a viagem teria de realizada a pé e somente os militares poderiam continuar na busca. Dito isso, a família foi afastada da operação e a angústia passou a aumentar.
– Começaram os dias de espera, de ansiedade, de angústia. Os primeiros dois dias foram horríveis porque não sabíamos de nada. Nem quem, nem para onde o levavam. A polícia ainda o procurava e a família estava em agonia.
Com os olhos vendados, Luis Manuel caminhou por quilômetros, subindo e descendo grandes elevações. Exausto, ele conseguiu se alimentar no percurso, entretanto apresentou desidratação.
Longe da família, Luis Díaz recebia atualizações e, da Inglaterra, orava por boas notícias. Coube a Josher mantê-lo informado, já que o atacante do Liverpool foi aconselhado a não ir para Colômbia.
– Por estar longe, ele não conseguiu fazer muito, mas ajudou na comunicação com os altos funcionários do governo para que ativassem um plano forte para poderem recuperar o seu pai. O Luis teve toda a ajuda que precisava. Os torcedores (do Liverpool) também o apoiaram muito. Era o que ele necessitava naquele momento. Percebeu que nunca esteve sozinho -, disse Josher.
A transferência de Luis Manuel para as ‘mãos’ do Exército de Libertação Nacional
Três dias depois do sequestro, Luis Manuel, antes refém de criminosos comuns, foi transferido para as mãos do Exército de Libertação Nacional. As autoridades ainda apuram se o ELN interceptou o comboio ou se os próprios sequestradores originais o levaram até a organização guerrilheira na esperança de receber alguma recompensa.
Nesse momento a situação melhorou para Luis Manuel. O ELN percebeu que foi um erro sequestra-lo – por se tratar de uma figura importante na Colômbia – e queriam iniciar o processo de libertação, embora admitissem que demoraria.
– Os sequestradores originais queriam pedir dinheiro por ele, mas depois que o ELN ficou com ele, graças a Deus não foi preciso dar dinheiro. (…) Quando saiu a comunicação a anunciar que o queriam libertar, tivemos mais paciência. Claro que ainda estávamos ansiosos porque não o tínhamos, mas tivemos mais paciência -, relatou Josher, antes de concluir:
– Foram vários dias de caminhada para chegar ao local onde o helicóptero o pegou. Quando ele foi libertado, estávamos no escritório da ONU (Organização das Nações Unidas), em Valledupar (cidade próxima à fronteira com a Venezuela), e ele estava em uma videoconferência para que, quando chegasse lá, pudéssemos vê-lo ali imediatamente. O momento foi de felicidade e alegria, palavras curtas foram ditas: ‘eu te amo’, ‘obrigado, filho’, ‘Aqui estamos’.



