Premier League

Richarlison: “Já apontaram uma arma para minha cara, jogar contra o Chelsea é bem mais fácil”

Richarlison se transformou em uma das sensações da Premier League neste início de temporada. Se poucos esperavam um bom início do Watford no campeonato, menos ainda apostavam em uma chegada tão impactante do capixaba em Vicarage Road. Pois os Hornets aparecem na zona de classificação à Liga dos Campeões, e contam com atuações fundamentais do ex-jogador do Fluminense. O jovem de 20 anos acumula três gols na campanha, além de ter sofrido o pênalti que possibilitou a virada contra o Arsenal no último final de semana. Moral alto, que se complementa com o lugar de destaque em algumas das estatísticas ofensivas mais importantes da liga.

Neste sábado, Richarlison terá outro desafio. O Watford visita o Chelsea em Stamford Bridge, em partida que será fundamental para se manter no Top Four da Premier League – já que os Hornets aparecem logo acima dos Blues na tabela, com dois pontos a mais. Às vésperas do jogo, o atacante concedeu uma ótima entrevista exclusiva ao jornalista Caio Carrieri, para o jornal The Telegraph. O rapaz fala não apenas de seu bom momento, mas também sobre as dificuldades que enfrentou ao longo de sua vida. Abaixo, destacamos alguns trechos:

A juventude em Nova Venécia

“Quando eu era adolescente no Brasil, um cara apontou uma arma para a minha cara, porque achava que eu era um traficante tentando roubar o seu ponto de distribuição de drogas. Essa era a minha vida. Depois disso, jogar contra o Chelsea parece muito mais fácil [risos]. Esse tipo de coisa era normal na minha vida, então eu não tinha medo de nada. Era uma área bastante problemática: eu via drogas na minha frente todos os dias, assim como armas. Nós morávamos em uma casa pequena, mas havia um quintal onde as pessoas costumavam esconder as drogas antes de vender. Eram meus amigos, então eu não faria nada contra eles. Eles majoritariamente vendiam maconha e outras coisas, mas eu nunca toquei nisso. Alguns dos meus amigos daquela época estão na cadeia agora. Existiam todos os elementos para eu acabar me tornando um traficante, mas meus técnicos eram policiais. Sabendo de onde eu era, eles sempre me aconselhavam para não seguir ao mau caminho”.

A relação com os pais

“Eu chorei muito quando meus pais se separaram. Tinha sete anos. Estava indo embora em um caminhão com a minha mãe, todos os móveis, as camas e os armários. No último minuto, eu desci do caminhão. Todos os meus irmãos foram com a minha mãe, mas eu fiquei com meu pai. A razão? Ele era a pessoa com quem eu jogava e assistia a futebol. Eu sabia que a minha mãe não me levaria aos jogos. Eu era pequeno, mas não era bobo. Voltei a morar com minha mãe depois que meu pai deixou a cidade, quando conseguiu um novo emprego em outro lugar. Minha mãe, obviamente, não ganhava muito dinheiro para alimentar a mim e aos meus irmãos. Ela trabalhava duro para nos criar, mas sempre faltava algo”.

A persistência no futebol

“Eu pensei em desistir do futebol quando tinha 16 anos, depois de ser recusado por Figueirense e Avaí. Mas as pessoas da minha cidade falaram para seguir em frente, porque viam um garoto talentoso. Então, veio o teste no América Mineiro. Um amigo me pagou a viagem de 12 horas até Belo Horizonte, mas eu estava faminto e gastei o dinheiro que deveria usar para voltar a Nova Venécia. Eu fiquei nada. Não podia ser rejeitado novamente”.

A transferência ao Watford

“Tudo aconteceu muito rápido. Eu disse que estava indo para o Ajax, mas o Marco Silva me ligou dizendo que conhecia meu potencial. Além disso, a Premier League era o meu sonho. Eu assistia aos jogos com meu tio e Cristiano Ronaldo sempre foi meu herói. Então eu não pensei duas vezes quando recebi a oferta. Eu quase chorei depois de marcar meu primeiro gol, contra o Bournemouth. Foi bastante emocionante. Depois do segundo, que veio no último minuto, eu tirei minha camisa na comemoração. Deeney me falou no vestiário que eu seria multado por isso. Tudo bem, valeu a pena [risos]”.

A música criada pelos torcedores do Watford

“Quando eu ouvi pela primeira vez, eu até comecei a assistir aos torcedores de dentro do campo, tentando entender o que eles estavam cantando. Eu me lembro de sorrir quando percebi que era para mim. Foi a primeira vez que ouvi uma música dedicada a mim. Isso não tem preço”.

A amizade com os outros jogadores brasileiros em Londres

“Eu vou muitas vezes na casa do David Luiz, e o Willian geralmente se junta a nós, como eles são amigos. Nós fazemos churrasco, jogamos videogame e não podemos viver sem samba. David me disse que eu posso marcar contra todos os times, menos o Chelsea. Eu disse a ele que eu tenho que vencer todos eles [risos]”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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