O debate sobre a leniência das empresas de com abusadores online se intensificou na última semana no futebol inglês. Entidades que administram o esporte no país vêm cobrando companhias como Twitter e Facebook por ações mais enérgicas para combater, entre outros, os ataques racistas de que jogadores negros têm sido alvos, e Marcus Rashford reforçou o coro na sexta-feira (12), responsabilizando as plataformas e lamentando a forma como algumas pessoas escolhem utilizar redes feitas para conectar gente de todo o mundo.

“Os abusos online deveriam ser fáceis de parar. É só desativar as contas. É muito fácil criar quatro ou cinco contas, mas se tiver que bloquear todas elas, você as bloqueia”, afirmou à BBC. Rashford foi ele próprio vítima de ofensas racistas nas redes sociais nas últimas semanas, e o número de atletas negros atacados após atuações ruins em campo tem se multiplicado nesta temporada. No próprio , Axel Tuanzebe, Anthony Martial e Lauren James, jogadora da equipe feminina dos Red Devils, foram vítimas de abuso racial pelas redes sociais.

“Sinto que é responsabilidade das próprias redes sociais, Instagram, Twitter etc. Se eles veem alguém sendo abusado racialmente ou de qualquer outra maneira, suas contas deveriam ser excluídas imediatamente. Esse é um jeito de se livrar da maior parte desses abusos, se não todos”, cobrou Rashford.

O atacante do Manchester United afirmou não passar muito tempo nas redes sociais, utilizando-as apenas para situações específicas como parabenizar algum colega ou publicar alguma mensagem. Por isso, diz não ser tão afetado por elas, mas reconhece o peso que elas podem ter sobre alguns de seus colegas de profissão e lamenta o estado das coisas nesses ambientes online.

“Elas não têm tanto efeito sobre mim quanto sobre outras pessoas, mas elas deveriam ser um lugar em que as pessoas deveriam ser felizes e apenas curtir. Elas não existiam dez, 15 anos atrás, e somos privilegiados de tê-las, de poder nos conectarmos com pessoas de todo o mundo, com diferentes culturas e religiões. Ver as pessoas usando as redes sociais de maneira negativa é estúpido. Espero que eles possam resolver este problema e que elas sejam um lugar bom e de felicidade.”

Durante a última semana, entidades do futebol inglês, entre elas Premier League, English Football League, PFA (sindicato dos jogadores), LMA (sindicato dos treinadores) e PGMOL (órgão que representa os árbitros profissionais do país), assinaram uma carta conjunta a Jack Dorsey, CEO do Twitter, e a Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, proprietário do Instagram, pedindo providências para lidar com o problema.

“O fluxo incessante de mensagens racistas e discriminatórias alimenta a si mesmo: quanto mais é tolerado por Twitter, Facebook e Instagram, plataformas com bilhões de usuários, mais se torna um comportamento normal e aceito”, dizia um trecho da carta.

A FA (Federação Inglesa) ainda cobrou uma ação do governo britânico, que, segundo a BBC, ameaçou as empresas de redes sociais de multas de bilhões de libras se não conseguirem combater abuso em suas plataformas.

Oliver Dowden, secretário de Estado de Digital, Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido, publicou em sua conta no Twitter: “Iremos mudar a lei para fazer com que as empresas de redes sociais sejam mais responsabilizadas por aquilo que acontece em suas plataformas, e elas podem começar a mostrar seu dever de cuidado com os jogadores hoje, eliminando agora os abusos racistas. Os jogadores não deveriam ser abusados por fazerem seu trabalho, basta”.

Por mais positiva que seja esta intenção crescente de lidar com o problema e responsabilizar as redes sociais, discursos do tipo existem já há algum tempo e, por ora, não levaram a ações contundentes de forma mais generalizada. Resta esperar que o engajamento de personalidades públicas e entidades do esporte ajudem a, desta vez, acelerar o processo.