Premier League

Rafael exalta a importância de Ferguson no United: “Desde que ele saiu, eu nunca mais fui o mesmo”

A aposentadoria de Alex Ferguson, mais do que repercussões na instituição Manchester United como um todo, teve também impacto pessoal em alguns atletas. Em extensa entrevista ao site The Athletic, o brasileiro Rafael, hoje no Istanbul Basaksehir, falou de sua experiência pessoal ao lidar com a despedida do ex-técnico, abordando os motivos por trás do sucesso do escocês em seu período à frente dos Red Devils e refletindo também sobre o que deu errado para seus sucessores, mais especificamente David Moyes e Louis van Gaal.

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Segundo Rafael, a aposentadoria de Ferguson teve nele efeitos duradouros. Pessoalmente, interrompeu um período importante de estabelecimento do jogador como o herdeiro da lateral direita no United, após Gary Neville.

“Desde que o Ferguson saiu, eu nunca mais fui o mesmo. A verdade é essa, e é muito triste. Fiquei muito, muito triste quando ele saiu. Eu não tinha ideia de que isso aconteceria. Foi bem no momento em que eu mais estava crescendo, e eu sentia que poderia me tornar um jogador para o Manchester United como o Gary Neville foi, permanecendo bastante tempo e vencendo troféus”, relembrou.

“Conquistamos o título com alguma distância em 2013, e, sinceramente, eu achei que ganharia mais sete títulos no United. Quando você vence daquela maneira, você pensa que irá vencer o tempo todo. Você não pensa que aquilo irá parar. Não consegui isso depois, porque muitas coisas aconteceram. Não foi só porque o David Moyes chegou.”

Alex Ferguson, ex-treinador do Manchester United (Foto: AP)

Um dos traços mais característicos de Alex Ferguson, reforçado por depoimentos de vários de seus ex-comandados, era a sua capacidade de saber se relacionar com cada indivíduo em um elenco com abordagens diferentes, ciente de que o que funcionava para um poderia não servir para outro. Essa habilidade vinha de seu próprio traço humano, algo que o escocês deixou claro a Rafael mesmo antes de começarem a trabalhar juntos.

“A maneira como o Ferguson nos tratou foi muito legal. Eu pude sentir que ele queria nos ajudar. Minha mãe veio visitar, e ele enviou flores a ela e a meu pai. Ele realmente se importava com a gente, e queríamos retribuir isso. Se alguém faz algo por mim, por minha família, vou retribuir. A família é tudo para um jogador, e se você os trata mal, ele não assinará ou permanecerá com você. O Ferguson era muito inteligente neste sentido. O Arsenal queria muito que fôssemos para lá (ele e seu irmão, Fabio), mas minha mãe e meu pai é quem lembraram do Ferguson e disseram que já tínhamos conversado com o United. Meus pais também queriam que o nosso clube no Brasil, o Fluminense, recebesse algo e insistiram que deveríamos ir para o Manchester United do jeito certo.”

Ferguson sabia também equilibrar os momentos de consolação e de reprimendas. Em 2010, após perder o jogo de ida das quartas de final para o Bayern de Munique por 2 a 1 na Alemanha, o United vencia por 3 a 0 em casa, mas Rafael acabou expulso, os bávaros diminuíram para 3 a 2 e avançaram para as semifinais. Devastado, Rafael foi consolado pelo chefe.

Rafael sendo expulso contra o Bayern de Munique, em abril de 2010 (Alex Livesey/Getty Images/OneFootball)

“Eu fiz o time perder. Foi meu pior momento. A culpa foi minha. Depois daquele cartão vermelho contra o Bayern, tive um momento, e talvez o Ferguson também, em que me perguntei se eu iria longe (como jogador). Depois do jogo com o Bayern, estava chorando no vestiário, mas ele conversou bastante comigo. Eu reagi. É preciso ser paciente com os jogadores que querem vencer e em quem você vê um bom potencial”, conta o brasileiro ao Athletic, antes de lembrar um momento oposto.

“O técnico (Ferguson) às vezes podia ficar nervoso, e você tinha que respeitar isso. Lembro que jogamos com o Real Madrid e empatamos em 1 a 1, fora de casa, em sua última temporada. Ele ficou muito bravo comigo no intervalo. Estava gritando: ‘Que porra é essa? Você não pode seguir cometendo os mesmos erros o tempo todo. Você precisa crescer’. Eu terminei bem o jogo, mas ele sabia que eu responderia bem se ele gritasse comigo. Se ele gritava com você, ele normalmente estava certo”, refletiu.

“Em outros momentos, ele era muito inspirador. Quando perdemos o título para o City contra o Sunderland, em 2012, eu estava 100% convencido que venceríamos de novo na temporada seguinte, depois de tudo o que ele disse no vestiário. Foi simplesmente um discurso incrível. ‘Vejam isso, vejam o que aconteceu aqui hoje, lembrem-se deste sentimento. Lembrem-se disso a cada momento de cada jogo na próxima temporada.’ E funcionou. Antes de cada jogo, eu lembrava o que havia acontecido e dava 200% em cada jogo. Viramos o placar bastante naquela temporada (oito vitórias desta forma nos primeiros 15 jogos da Premier League), e tudo veio daquele discurso dele no vestiário em Sunderland. Aquela foi a diferença entre vencer e perder. Às vezes, as pessoas perdem, ficam tristes, devastadas e dizem: ‘Puta que pariu’. Outros, como o Sir Alex, pensam no próximo jogo e dizem: ‘Quero vencer’. Ele ficava devastado, mas tinha a força e o poder de nos inspirar.”

Com apenas 23 anos, Rafael viveu o duro período de transição do Manchester United após a saída do lendário técnico. Para o lugar do escocês, o clube foi buscar outro escocês, escolhido a dedo pelo próprio Ferguson: David Moyes. A decisão, como sabemos bem agora, olhando em retrospecto, deu muito errado, e Rafael olha para trás e entende que seria difícil para qualquer um substituir um nome tão importante.

Para o brasileiro, a pressão era muito grande para que Moyes fosse um novo Alex Ferguson. Em meio a isso e à cobrança por resultados, o sucessor sucumbiu sem ao menos conseguir implantar a sua visão, perdido em um dilema sobre quem ser. Assim vê Rafael, pelo menos.

Moyes e Mourinho, em jogo em Old Trafford (AP Photo/Jon Super)

“O problema foi que todo mundo pensou que o Moyes seria quase o mesmo técnico que o Ferguson, mas eram pessoas diferentes, fora do campo e dentro dele. Mas, para ser sincero, não é fácil chegar depois do Ferguson. Ele (Moyes) tinha muita pressão em torno de si. Talvez as pessoas quisessem que ele fosse o Ferguson – mas ele não era. A verdade é essa. Você não pode substituir um cara como o Alex Ferguson e dizer ao outro treinador: ‘Quero que você seja como ele’. Sem chances, cara. Foi muito difícil para ele”, observou.

“O David era um cara muito sincero. Como treinador, acho que ele nunca chegou a fazer o que talvez ele queria fazer no United. Os jogadores que ele tinha no United talvez não fossem do seu estilo de futebol. Foi difícil para ele controlar e fazer as coisas. Como técnico, você precisa, sim, escutar muito as pessoas, mas quando as pessoas simplesmente dizem o contrário do que você pensa, você começa a pensar demais, e isso pode te impedir de ser você mesmo. Foi assim para ele – ‘eu não sou eu mesmo’. É difícil quando isso começa a acontecer”, relembrou Rafael.

O brasileiro acredita que os jogadores do United foram resistentes demais às ideias de Moyes e têm responsabilidade pelo fracasso da parceria: “Os jogadores estavam acostumados com o Ferguson, e quando o Moyes chega, qualquer coisa que ele faça que não seja ganhar as pessoas iriam culpar alguém e seria ele. Nunca seria a culpa dos jogadores, já que eles estavam a acostumados a vencer tudo antes. Os jogadores, na cabeça deles, estavam pensando: ‘Não é minha culpa, é do técnico’. Claro que ele teve sua parcela, mas todo mundo estava pensando um pouco que era a culpa do treinador, e você não consegue jogar quando as coisas estão assim”.

Depois do fracasso de Moyes e de um curtíssimo período com Ryan Giggs como treinador-jogador, um peso-pesado do futebol assumiu o Manchester United: em 2014, Louis van Gaal, que acabara de ser terceiro colocado na Copa do Mundo com os Países Baixos, é contratado como novo técnico, e Rafael lembra que a reação das pessoas próximas a ele foi uma só: você está ferrado.

“Quando disseram que Van Gaal seria o técnico, muitos amigos me ligaram. Eu não conseguia acreditar, já que muita gente me dizia que ele não gostava dos brasileiros (por seu estilo de jogo). Eles me disseram: ‘A primeira coisa que ele vai fazer é te tirar do time’.” E foi isso mesmo que aconteceu? Quase.

“Na verdade, essa foi a segunda coisa que ele fez, porque a primeira foi nem falar comigo. No segundo dia, ele disse: ‘Você pode sair’. Eu não tinha nem treinado, e ele disse isso. Eu não conseguia acreditar. O Ryan (Giggs) tentou me defender bastante. Falei com ele e não conseguia entender, porque eu sequer tinha tido a chance de mostrar o meu futebol ao Van Gaal no treino. Ele simplesmente chegou e disse: ‘Você pode sair’. Ele não explicou o por quê. Apenas falou: ‘Você não jogará nesta temporada, não vou utilizá-lo, então, se você quiser sair, pode sair’. Eu disse que tudo bem. Ainda tentei lutar por meu espaço. Permaneci um ano com ele. Foi muito, muito difícil. Ele é uma das piores pessoas com quem trabalhei.”

Contrastando os perfis de Van Gaal e Ferguson, Rafael destacou que o escocês “nunca diria a uma pessoa em seu segundo dia de treinamento que ela podia sair. Ele veria se o cara é bom, deixaria você se expressar”.

“Joguei dez jogos com esse cara. Foi inacreditável. Não sei nem como eu joguei dez jogos com ele. Talvez porque ele não tinha ninguém para jogar ou porque começamos a perder, ou então alguém falou para ele para me colocar em campo.”

O descontentamento de Rafael com Van Gaal claramente foi a nível humano, de relação, e se isso não havia ficado claro antes, o brasileiro não deixa dúvidas ao relembrar das longas conversas do técnico.

“Todo dia, depois do café da manhã, do almoço, ou se jantássemos juntos, ele falava com todo mundo durante 15 minutos sobre o treino, sobre o que aconteceu, sobre tudo, sobre a vida. Sabe quando você começa a deixar de escutar o que alguém está dizendo por que a pessoa fala demais? Ele queria mostrar que sabe falar. Mas era todo dia, o tempo todo! Você precisa esperar a pessoa terminar a comida antes de sair (da mesa), o que é normal. Mas ouvíamos ele falar por 15 minutos sobre, com todo respeito, merda. Essa é a verdade, cara. Era uma merda.”

Louis van Gaal, ex-técnico do Manchester United (Foto: Getty Images)

A famosa habilidade de Ferguson no trato com as pessoas encontrava em Van Gaal o seu completo oposto, segundo Rafael. “Ele não se importava com como as pessoas eram, apenas queria pensar nele mesmo – ‘Eu sou assim, você me respeita e faz o que eu quero’. Era assim que ele falava. Os jogadores se cansam disso. Você não precisa falar o tempo todo. Se falamos em cultura, ele mudou tudo. Entendo que um técnico precise mudar as coisas, porque eles têm suas qualidades e sua própria maneira de pensar. Mas sabe quando o técnico fala algo só para ser contrário? Ele concorda com o que você está dizendo (no fundo), mas vai mudar o que pensa só para dizer: ‘Eu sou o chefe’. Então ele fazia isso”, lembrou na conversa com o Athletic.

“O Ferguson sabia do que os jogadores precisavam para jogar bem. Alguns não querem ouvir isso ou aquilo. O Scholes era assim. Se as pessoas começavam a falar muito com ele, ele simplesmente ficava cansado e falava que queria jogar futebol. Só ir lá e jogar. Ele não era um cara tático, era só: ‘Eu jogo aqui, você fica aqui, e você vai pra frente’. Mas o Giggs era diferente. Se o Ferguson falava com o Giggs, explicava em mais detalhes. O Ferguson sabia disso sobre os jogadores. Essa foi uma das razões do seu sucesso. Ele sabia como maximizar cada jogador. O Van Gaal era o oposto disso”, completou.

Com toda essa experiência distinta com técnicos, Rafael acredita que Ole Gunnar Solskjaer merece maior paciência por parte da torcida do Manchester United. “Agora o que dizem é: ‘Tudo é uma merda, precisamos mudar o técnico’. É um pouco duro demais. Foi só o primeiro jogo, relaxa. Claro que precisamos melhorar. As pessoas não se importam se os jogadores tiveram apenas um jogo de pré-temporada para se preparar, apenas dizer: ‘Fora, Ole! Puta que pariu, por que você não compra jogadores?’ Isso que eu não entendo. Claro que precisamos de alguns jogadores, mas na temporada passada, terminamos vencendo quase todos os jogos. O time estava crescendo junto. Agora, você ouve as pessoas e é como se fôssemos perder todos os jogos se não comprarmos jogadores.”

Afirmando gostar do estilo de trabalho do Ole, um aceno ao passado de Alex Ferguson, Rafael aprova também o seu estilo de abordagem no mercado de transferências. “Ele não quer comprar só por comprar, como fizemos durante cinco ou seis anos”, diz o brasileiro. Como exemplo da estratégia falha de recrutamento prévia ao técnico norueguês, Rafael se debruça sobre o caso Alexis Sánchez.

Recentemente, o chileno ganhou as manchetes por afirmar que, logo após o primeiro treino em Manchester, se arrependeu de ter deixado o Arsenal. Rafael, como ex-jogador mas também um apaixonado pelo United, se irritou e não escondeu isso. Comentou na postagem de Sánchez: “Talvez ele tenha visto um fantasma e se assustou. Isso explicaria por que ele jogou tão mal todas as vezes”.

Relembrando a interação, o brasileiro voltou a criticar o chileno e pediu que a cultura de contratar jogadores que estão apenas interessados em dinheiro acabe.

“É brincadeira. O cara chega depois do primeiro treino e diz: ‘Quero ir embora’. Por que você quer ir embora? Ele disse isso porque ele foi uma merda no Manchester United. É fácil culpar as outras pessoas, cara. (…) Eu acordei, vi aquilo e pensei: ‘Não é possível’. O cara não pode dizer aquilo, então eu simplesmente reagi. Todos sabem que eu amo o Manchester United, e eu simplesmente reagi”, explicou.

“Essa cultura precisa acabar. Dei uma entrevista muito tempo atrás sobre isso. Os jogadores que vão para o United precisam lutar, vencer, trabalhar. Mesmo que você não vença, você luta. No United, todo mundo vai falar de você, porque você vai ganhar bastante dinheiro. Que cultura é essa? Vamos falar de um jogador diferente e, na minha opinião muito bom, o David Beckham. Quando ele começou a se tornar uma estrela e a esquecer o futebol, o que o Ferguson fez? Ele disse e basta e falou que ele precisava ir embora. É dessa cultura que eu gosto. Você precisa pensar em futebol, Manchester United e em vencer. Quando cheguei no United, ouvia as histórias do Ferguson sobre o Beckham e muitas outras coisas e pensava: ‘Aqui, eles querem vencer e precisam vencer’.”

É justamente este tipo de cultura que Solskjaer deixa transparecer estar buscando para a equipe que vem montando no Manchester United. Com o tipo de paixão com que Rafael falou sobre o ex-clube, um ou outro atleta como o brasileiro certamente fariam bem ao trabalho do norueguês.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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