Premier League

Por violações, Anistia Internacional questiona participação do governo saudita na compra do Newcastle

A crise gerada pela pandemia aparentemente influenciou a venda do Newcastle. As necessidades financeiras se tornaram maiores a Mike Ashley e o odiado dono dos Magpies resolveu aceitar a proposta que tinha em mãos pelo clube, mesmo abaixo de suas pedidas iniciais. Os documentos sobre o negócio foram apresentados nesta semana e passarão pela avaliação da Premier League durante o próximo mês. Ashley receberá £310 milhões pela transação, em acerto encabeçado pela empresária britânica Amanda Staveley.

Com boas relações no Oriente Médio, Staveley anteriormente participou das conversas do Xeique Mansour para adquirir o Manchester City e também fez parte de uma proposta pelo Liverpool que não se concretizou. Desta vez, ela também não está sozinha. Através de sua companhia, a PCP Capital Partners, sediada em Dubai, a empresária deve adquirir 10% do Newcastle. Outros 10% irão aos Reuben Brothers, donos de uma das maiores fortunas do Reino Unido, ligados sobretudo à gestão de bens e propriedades. Já a maior indagação fica aos 80% restantes, bancados pelo fundo de investimento público do governo da Arábia Saudita.

Não será surpresa se o Newcastle se transformar em um meio de diplomacia do governo saudita, assim como ocorre com o Manchester City e com o Paris Saint-Germain. E há uma preocupação sobre o histórico de violação dos direitos humanos da Arábia Saudita. Oficialmente, a participação dos sauditas não é citada nos documentos apresentados nesta semana. De qualquer maneira, a Anistia Internacional (uma das principais organizações internacionais em defesa dos direitos humanos) manifestou seus questionamentos à transação.

“Ainda precisamos ver essa transação por aquilo que é: a Arábia Saudita tentando usar o glamour e o prestígio da Premier League como uma ferramenta de relações públicas, para distrair os registros abismais de direitos humanos no país. Com o mundo em crise, há um risco de que este acordo prossiga sem o grau de escrutínio que deveria receber”, declarou Felix Jakens, líder da Anistia Internacional no Reino Unido.

“Sob o regime de Mohammad bin Salman, os defensores dos direitos humanos sauditas foram submetidos a uma repressão brutal, com inúmeros ativistas presos – incluindo Loujain al-Hathloul e outros corajosos defensores de direitos da mulher. Houve uma flagrante ocultação sobre o terrível assassinato de Jamal Khashoggi [jornalista do Washington Post visto como dissidente, morto no consulado saudita em Istambul] e a coalização militar liderada pela Arábia Saudita no Iêmen tem um histórico vergonhoso de lançar ataques indiscriminados a casas e hospitais”, complementa Jakens.

Além da própria crise do coronavírus, que pode reduzir o escrutínio, também há a própria imagem de Mike Ashley. O dono do Newcastle se tornou um dos personagens mais execrados da Premier League nos últimos 13 anos, especialmente por sua torcida. Além da má gestão e do encolhimento dos Magpies no período, o magnata da rede de varejo esportivo ficou conhecido por elevar os interesses comerciais acima dos cuidados humanos. O caso de Jonás Gutiérrez, que não recebeu total apoio enquanto enfrentava um câncer e não teve seu contrato renovado após se recuperar, mesmo salvando o clube do rebaixamento, é um dos símbolos da antipatia contra Ashley. Isso torna a mudança bem-vinda, mesmo que os novos rumos da agremiação representem outro tipo de entrave.

A Anistia Internacional pediu aos torcedores do Newcastle que mantenham o senso crítico sobre os sauditas: “Embora não seja nosso papel dizer quem deve ser o dono do Newcastle, todos os negócios precisam se proteger de qualquer possível cumplicidade com as violações dos direitos humanos. No futebol, não é diferente. Até certo ponto, a lavagem esportiva pode ser combatida se as partes interessadas estiverem preparadas para romper o feitiço. Apelamos aos funcionários e torcedores do Newcastle para que se familiarizem com a terrível situação dos direitos humanos na Arábia Saudita e estejam preparados a falar sobre isso”.

Apesar da possibilidade de que a Premier League questione os detalhes do negócio no exame sobre os documentos, segundo fontes do jornal The Guardian próximas aos compradores, eles esperam que o processo não passe de formalidade. Os donos da oferta confiam que a diversidade de seu grupo convencerá a liga. Além disso, também olham para o lado positivo. Os planos incluem o financiamento de obras para revitalizar a economia na região de Newcastle e investimentos significativos em infraestrutura. Já a participação da Arábia Saudita poderia ser mais um “sinal de modernização” do governo.

Príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman assumiu a posição principal no governo em 2017. Desde então, realiza ações de abertura às tradições e diversificação econômica, mas também é acusado de violar direitos humanos e perseguir opositores políticos. Seu programa “Vision 2030” inclui diversas medidas de desenvolvimento, como fim de restrições a mulheres e investimento em tecnologia e turismo. Porém, a tortura de ativistas e os bombardeios ao Iêmen, entre outras atitudes, apresentam o lado repressor de Bin Salman e fazem suas medidas “modernizadoras” serem criticadas como distração ao autoritarismo. O Newcastle pode se tornar mais uma peça neste tabuleiro.

Entre os eventos esportivos promovidos pela Arábia Saudita nos últimos anos estão lutas de boxe de grande repercussão e a nova Supercopa da Espanha no futebol. Também existem planos de levar um grande prêmio de Fórmula 1 ao país a partir de 2023. Além disso, os amistosos internacionais de seleções de peso são relativamente comuns, como os dois últimos duelos entre Brasil e Argentina. Desde 2018, o Campeonato Saudita realiza uma abertura a estrangeiros e tenta ampliar sua representatividade regional. É a “lavagem esportiva” mencionada pela Anistia Internacional e que serve de relações públicas ao governo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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