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Por forma e por conteúdo, o novo título do City na Premier League tem um destaque especial entre os demais – e pode significar ainda mais

O Manchester City conquistou o tricampeonato consecutivo da Premier League e seu quinto troféu em seis anos, numa campanha diferente das demais pela reviravolta na tabela e também pela fase avassaladora no momento decisivo

O Manchester City é campeão da Premier League. A frase virou lugar comum nos últimos anos, com o quinto título dos celestes em seis temporadas. Entretanto, não deve ser banalizada pelo contexto. Pela primeira vez em sua história, os Citizens faturam um tricampeonato consecutivo na liga nacional. Apenas o Manchester United tinha conseguido uma sequência tão longa na era Premier League, com dois tris. E nunca o troféu tinha sido tão difícil para a equipe de Pep Guardiola. O Arsenal passou 248 dias na liderança, um recorde para qualquer time que não terminou campeão. Tudo bem que os Gunners derreteram nesta reta final, mas também há muitos méritos dos mancunianos na reviravolta. Por fase, talvez esse seja o melhor período do clube desde que Guardiola chegou. E, a esta altura em que tudo parecia encaminhado, o Campeonato Inglês soa até como um aperitivo. É a primeira comemoração numa temporada que ainda pode culminar na Tríplice Coroa.

O roteiro dos títulos do Manchester City na Premier League sob as ordens de Pep Guardiola muitas vezes foram similares. O padrão mais comum do time era começar muito forte a campanha e se consolidar no topo da tabela. Foi o que aconteceu em 2017/18, por exemplo, com espantosos 100 pontos. A variação em 2018/19 é que o Liverpool conseguiu acompanhar o ritmo, mas acabou a liga um ponto atrás. E depois do vice em 2019/20, quando os Reds fizeram os Citizens comer poeira, a recuperação em 2020/21 seria um pouco mais tardia. O City não começou tão bem e era apenas o nono colocado após nove rodadas, mas pegou embalo para sobrar na virada dos turnos. Por fim, em 2021/22, mais uma vez o time arrancou no fim do primeiro turno, apesar dos méritos do Liverpool em forçar a definição apenas na última rodada.

De todas as cinco campanhas de título com Pep Guardiola, esta foi aquela em que o troféu pareceu mais em xeque. O Arsenal, afinal, passou quase todo o tempo na liderança – e muito mais por méritos seus do que por deméritos dos Citizens. Foi outra campanha em que os celestes tiveram uma largada muito forte, mas não tanto quanto a dos londrinos. Os jogos atrasados pela morte da Rainha impactaram as perspectivas, assim como a virada do ano custou pontos importantes, com a quebra de sequência e o desgaste causados pela Copa do Mundo. Seria a ascensão mais tardia do City nestes anos todos. Porém, para não deixar pedra sobre pedra, como se nota tão bem nas últimas rodadas.

O enredo da campanha do Manchester City até mudou várias vezes ao longo da temporada. Primeiro, era o campeonato do início arrasador de Erling Braut Haaland e do entendimento telepático com Kevin de Bruyne. Depois, quando a maré não estava tão boa, o encaixe do centroavante e o comportamento do próprio time passaram a ser questionados. Algo que parece já num passado distante, conforme a sequência atual de vitórias se engatou. Haaland ainda é protagonista, assim como De Bruyne. No entanto, coletivamente, o momento dos celestes é sublime. É o que engole qualquer adversário que aparece pela frente, inclusive os mais badalados.

Pep Guardiola tem seu dedo muito claro neste tricampeonato. A formação atual do Manchester City não era nada óbvia, num 3-2-4-1 que se molda conforme as partidas. Quem imaginaria John Stones como um volante/zagueiro ou Bernardo Silva e Jack Grealish híbridos entre alas/pontas? Deu muito certo. Defender o Manchester City se tornou uma das missões mais difíceis da atualidade, por toda a fluidez e trocas de posições. Haaland continua representando um perigo constante na frente e as marcações quase sempre precisam ser dobradas. O problema é que sobram mais espaços para quem chega de trás, e a punição não tarda pela maneira como os celestes atacam. É um time mais agressivo que a média de Guardiola, aliás. E que também sobra em competência na defesa.

O Arsenal sentiu na pele. Os confrontos diretos foram cabais à conquista do Manchester City. Os celestes se mostraram muito mais time e os 4 a 1 do segundo turno, no Estádio Etihad, determinaram para a ultrapassagem na tabela. Era como se os campeões pedissem para os oponentes abrirem alas. Os Gunners, em meio a todo o desgaste, não tinham mesmo mais fôlego para acompanhar o ritmo dos Citizens. A goleada impôs a superioridade na fase e também no elenco. Se ainda havia alguma dúvida quanto à troca de guarda, desde então a questão era só quando a taça se confirmaria. Aconteceu neste sábado, sem sequer o City estar em campo.

E a maneira como o Manchester City disparou na liderança da Premier League se sugere como um salto a uma temporada que pode ser maior. O título da Copa da Inglaterra, se vier, será bastante especial. A decisão guarda um inédito clássico contra o Manchester United, capaz de impedir que os rivais repitam a sua Tríplice Coroa de 1998/98. Já na Champions League, o favoritismo dos Citizens é enorme contra a Internazionale, sobretudo pela maneira como o time pulverizou o Real Madrid na semifinal. É a grande ambição do clube e também o passo que falta para confirmar esse trabalho de Guardiola como um dos maiores da história. Não tem o caráter “revolucionário” dos tempos de Barcelona, mas dá para dizer que tamanha regularidade no topo da liga mais endinheirada do mundo seja até mais difícil de se conseguir.

Obviamente, o título do Manchester City não deixa de ter seus asteriscos e seus questionamentos. O clube é investigado por dezenas de violações na regulamentação financeira da Premier League. Poderia inclusive sequer estar na Champions, se as irregularidades cometidas pelos celestes não tivessem caducado. O dinheiro irreal para a realidade anterior dos Citizens permitiu ao clube montar um elenco tão forte e buscar alguns dos melhores jogadores do mundo. Contudo, cabe dizer que tal procedimento não é exclusividade do City – vide o que acontece com o Chelsea ou mesmo com o Paris Saint-Germain. A competência do projeto esportivo no Estádio Etihad é um fato, mesmo com as necessárias indagações das manobras de bastidores.

Enquanto não ocorrem medidas efetivas da Premier League ou da Uefa, o Manchester City também pode dizer que construiu sua dinastia dentro de campo. E soube se reinventar nesse ciclo de seis anos com cinco títulos. Os heróis das primeiras conquistas foram ficando pelo caminho, protagonistas se confirmaram com o tempo, novos ídolos acabaram de chegar. Guardiola não deixa de abdicar de sua filosofia, mas consegue formas diferentes de encaixar suas peças e surpreender os adversários. É essa a essência da atual conquista. Por enquanto, ninguém encontrou um meio de remediar a forma como o City vem jogando. E o coletivo bem azeitado se potencializa pelas fases arrebatadoras de tanta gente.

Pelos números, Haaland é o principal candidato a ser lembrado como grande protagonista desse título, e com toda a razão. O centroavante, logo em sua primeira temporada, quebrou o recorde de gols da Premier League. Seu início até impressionou mais, quando o time tantas vezes pareceu em função do artilheiro. Em compensação, o City melhorou exatamente porque o restante da equipe elevou o seu nível ao patamar do norueguês e ele também passou a funcionar melhor dentro do coletivo. Pode não ser o mais letal nos últimos compromissos, mas é bem mais criativo. E continua empilhando gols, de qualquer forma.

O próprio De Bruyne consegue superar sua reconhecida qualidade, ótimo em seu papel na criação, com assistências muito frequentes. É o motor do time, que possui outras tantas engrenagens. Não tem como ignorar o que fazem outros como Ilkay Gündogan, estupendo nas últimas semanas, ou o insubstituível Rodri, um monstro na temporada. Bernardo Silva deixou seu brilhantismo em foco na Champions, enquanto Jack Grealish justifica o caminhão de dinheiro despejado por ele. Rúben Dias, John Stones, Nathan Aké, Manuel Akanji e Kyle Walker quase sempre correspondem na zaga, à frente da meta de Ederson. E isso porque muitos nomes, mesmo sem serem titulares absolutos, resolveram tantas partidas. Julián Álvarez causa mais expectativas, enquanto Phil Foden e Riyad Mahrez tiveram brilhos pontuais.

É um conjunto naturalmente forte. E muito mais forte quando Guardiola encontra a melhor forma de atuar exatamente no momento decisivo da temporada. Tantas vezes o treinador fez o time jogar por música nos primeiros meses dos campeonatos, mas, com a intensidade exigida e a liga encaminhada, via o foco se perder na reta final. Foi uma crítica que permeou seu trabalho no Bayern de Munique e também vários anos no Manchester City, quando os celestes pareciam abaixo da exigência na hora de buscar a Champions League. Agora, o cenário é bem diferente. E a Premier League, da forma como foi conquistada, se sugere como um plus na própria confiança para que a Orelhuda possa vir. Essa reviravolta faz os mancunianos inflarem o peito.

Faltam quatro jogos na temporada para o Manchester City e a impressão pode ser diferente a partir do que acontecer em Wembley e, principalmente, em Istambul. Mas não se nega que o conquistado até aqui é muito grande. Se o investimento condiciona a exigência pela Champions ser maior, o quinto título da Premier League em seis anos, o terceiro consecutivo, não deveria ser visto de forma trivial. É dos mais incríveis por forma e por conteúdo. A maneira como o Arsenal vinha certamente exigiu mais dos Citizens. Eles conseguiram atingir esse máximo, e não veem mais a Inglaterra como um limite à ascensão atual.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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