Premier League

Poderia ter sido mais fácil

Poderia ter sido mais fácil, mas se os Manchesters não tivessem empatado em número de pontos e a Premier League não acabasse definida pelo saldo de gols, a esmagadora goleada do City contra o United, em pleno Old Trafford, não ganharia a importância merecida.

Poderia ter sido mais fácil, mas a virada do campeonato, marcada pela vitória do City contra o mesmo United, agora no Etihad Stadium, não teria consagrado a importância de Yaya Touré. Por consequência, muitos não teriam reconhecido o marfinense como o jogador mais importante nessa conquista e ele teria perdido o posto para alguém como David Silva, que foi brilhante sim, mas quando as coisas iam bem. Quando elas complicaram, foi Touré quem tomou a frente.

Poderia ter sido mais fácil, mas não teríamos todos sido atingidos pelos respingos daquele balde de água fria que afogava os sonhos dos citizens no momento em que o QPR virou o jogo. Deixando no ar a atordoante sensação que todo torcedor já teve um dia, a de “será que eles vão conseguir perder isso?”.

Poderia ter sido mais fácil, mas poucos de nós teríamos ficado de pé durante os 4 últimos minutos do jogo do título, com os olhos pregados na TV, após Dzeko ter marcado o gol que pausava a vida lá fora.

Poderia ter sido mais fácil, mas não teríamos as imagens de um torcedor emputecido, surrando a arquibancada com o seu agasalho, como se algum destes objetos inanimados merecessem uma punição. Como se ele, o torcedor, merecesse a punição de perder um título tão aguardado com aquele requinte de crueldade.

Poderia ter sido mais fácil, mas não veríamos o goleiro Joe Hart bater um dos arremessos laterais mais mal batidos da história da modalidade, dando um toque de comicidade a um momento de tanta tensão.

Poderia ter sido mais fácil, mas não ficariam tão marcadas na minha retina as imagens de uma loira (muito bonita, o que ajuda muito na hora de guardar alguma coisa na memória) e uma criança (essa bem feia, só me chamou a atenção pela baixa estatura mesmo) sumindo no meio de um bando de brutamontes, durante a comemoração do gol da vitória.

Poderia ter sido mais fácil, mas uma vitória mais confortável, a algumas rodadas do final da temporada, certamente não teria gerado a invasão de campo que mostra que nós, sul-americanos, não somos selvagens quando tomamos um gramado para comemorar um título. Os comportados ingleses fizeram o mesmo. Nós apenas temos menos controle sobre as nossas emoções. E não sofremos punições severas quando cometemos um delito assim, claro.

Poderia ter sido mais fácil e mais breve. O torcedor do Manchester City poderia não ter esperado longos 44 anos para voltar a ser campeão. Mas se não demorasse tanto, ele poderia não ter algo tão singelo e simbólico a dizer como a inscrição “Not in my lifetime”, em uma faixa que alguns torcedores levaram a campo durante a invasão.

Poderia ter sido mais fácil e envolvido menos títulos do United, que, enquanto o City apenas sofria, ganhava tudo o que via pela frente. Poderia ter sido mais fácil e mais limpo. Poderia não envolver uma fonte obscura de fortuna árabe, que jorra de forma injusta sobre apenas um clube.

Por alguns segundos, todos que acompanharam o lance esqueceram de onde vinha aquele dinheiro. Os torcedores do clube esqueceram de algumas escalações excessivamente cautelosas de Mancini, que podem ter adiado a conquista por uma temporada. Esqueceram a eliminação prematura na Champions League.

E nós, que não vivemos o City como eles, também esquecemos a fome, o sono, a dor, o calor, o frio, a vida, tudo. Muitos esquecemos até que não gostamos dos novos ricos do futebol. Esquecemos até que, em particular, o City não nos é muito simpático. Por alguns segundos, tudo fez sentido. Tudo foi justificável. Tudo parecia orquestrado para nos levar até ali.

Como registrou o companheiro trivelista Matheus Rocha, o narrador da ESPN americana, diante de fatos tão improváveis, mandou um muito compreensível “Quem está escrevendo isso?”.

Ninguém escreveu. Ou foi o destino. Ou Deus, se você acredita Nele. Ele pode até ter um nome específico, dependendo da sua crença. Ou ser mais de um. Ou o mundo todo é uma grande armação e um roteirista de primeira cozinhou toda a situação, pacientemente, até atingir o clímax. Seja quem foi que escreveu, a gente agradece. E se ninguém escreveu, se tudo foi obra do acaso… esse acaso merece um Oscar. Um Pulitzer. Um Jabuti. O animal que ele bem escolher como presente.

Poderia ter sido mais fácil.

Ainda bem que não foi.

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Equipe Trivela

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