Premier League

Os dez anos do gol do “Milaaaagre”: o gol de Agüero que fez o torcedor do City acreditar que tudo é possível

Em 13 de maio de 2012, o Manchester City completou uma das mais incríveis reviravoltas da história do Campeonato Inglês, tirando o título da boca do Manchester United a segundos do fim da temporada

Vincent Kompany e Rio Ferdinand estavam conversando em um podcast, e era inevitável que um dos assuntos fosse 13 de maio de 2012. Última rodada da Premier League. Manchester City e Manchester United empatados em pontos. O City tinha vantagem no saldo de gols, mas estava empatando com o Queens Park Rangers, em casa, deixando escapar o seu primeiro título inglês desde 1968. Quando de repente, aos 49 minutos do segundo tempo, aconteceu o milagre. Um milagre que Sergio Agüero meio que havia pressentido, segundo Kompany: “Kun chegou para mim antes da partida e disse: hoje, este jogo é meu”.

E minha nossa senhora como aquele jogo foi dele.

E, curioso, o próprio Kompany diz que, antes daquele momento, quando o Manchester City fez 3 a 2 sobre o QPR, ultrapassou o Manchester United e conquistou o Campeonato Inglês de 2011/12, Agüero estava jogando tão mal que despertou os piores instintos do zagueirão. “Após 85 minutos, ele havia feito o seu pior jogo da temporada e eu estava prestes a dar um soco nele. Você me disse que resolveria isso e não está fazendo nada. Você é o pior jogador em campo. Então aquele momento acontece e eu fico tipo: ‘Eu não sei como esses caras fazem essas coisas’”, contou Kompany.

Fazem porque são extremamente talentosos e porque os maiores conseguem ter clareza sob extrema pressão. Era um momento de extrema pressão para o Manchester City. O tamanho do jejum era parte disso. O investimento que os Emirados Árabes haviam feito para colocá-lo naquela situação também. O fato de estar disputando o título cabeça a cabeça com o Manchester United, o grande rival local que empilhou troféus enquanto o City tinha que se contentar com a irrelevância, mais ainda. Principalmente, a quantidade de frustrações e vexames pelos quais tiveram que passar. Uma torcida que preferiu abraçar a ironia e em seus piores momentos começou a cantar “Nós não estamos realmente aqui”.

Uma torcida que havia se acostumado a ver seu time estragar tudo na hora H, e lá estava o seu time mais uma vez estragando tudo na hora H.

O Manchester City havia tido sucesso sob o comando de Joe Mercer e Malcolm Alisson no final da década de sessenta, mas a gangorra do futebol inglês pré-Premier League conseguia ser bastante cruel. A década de oitenta foi de rebaixamento. Conseguiu subir a tempo de pegar o início da era moderna do Campeonato Inglês, mas caiu novamente e chegou até a terceira divisão. Na virada do século, estabeleceu-se na elite e ganhou um impulso com a construção do Estádio Cidade de Manchester.

O dinheiro começou a jorrar de verdade em 2008, quando o grupo de Abu Dhabi comprou o Manchester City do tailandês Thakshin Shinawatra, o Frank (Shinawatra, Sinatra). O marco foi a contratação de Robinho, mas a espinha dorsal do time que seria campeão foi montada nos dois mercados seguintes, com as contratações de Carlos Tevez, Gareth Barry, Kolo Touré, James Milner, David Silva, Yaya Touré, Aleksandr Kolarov, Mario Balotelli e Edin Dzeko.

Samir Nasri e Agüero se juntaram à festa no começo daquela temporada. O dinheiro havia elevado o City ao topo da tabela e aquele seria também o ano da primeira participação na Champions League desde 1968/69. Ainda não havia rolado uma briga pelo título de verdade. O terceiro lugar na edição anterior era a melhor campanha dos Citizens desde 1976/77, quando ficaram a um ponto do título. Roberto Mancini, contratado pelo sucesso com a Internazionale, estava em sua terceira temporada, apenas a segunda completa.

Joe Hart foi o goleiro do Manchester City durante aquela Premier League, com Micah Richards na lateral direita, apoiado por Pablo Zabaleta. O argentino terminaria o campeonato titular. Gaël Clichy ficava no lado esquerdo. Vincent Kompany e Joleon Lescott formaram a dupla de zaga mais comum, mas Kolo Touré também teve sua contribuição. Barry começava o meio-campo, geralmente acompanhado por Yaya Touré, David Silva e Samir Nasri. James Milner teve muitos minutos no começo antes de perder espaço, e Mancini às vezes usava Dzeko junto com Agüero.

O City pareceu um time campeão nas primeiras rodadas da Premier League. Ganhou 12 das 14 primeiras, com direito a um famoso 6 a 1 sobre o Manchester United em Old Trafford. Mas nem tudo foi perfeito naquele período. Um jogo contra o Bayern de Munique pela fase de grupos da Champions League abalou os vestiários no final de setembro e testou a autoridade de Mancini. Segundo o treinador italiano, o substituto Carlos Tevez se recusou a entrar em campo a dez minutos do fim. “Se depender de mim, ele está fora. É o fim dele comigo. Se quisermos melhorar como time, Carlos não pode jogar”, disse, após aquela derrota, segundo a BBC.

Tevez era uma contratação de peso do Manchester City. Uma demonstração de força. Havia sido trazido do rival Manchester United pelo qual fora campeão europeu, e não era a sua primeira controvérsia. Uma rápida pesquisa “Tevez+leave+Manchester City” encontra pelo menos quatro momentos diferentes em que ele disse que queria ir embora. Mas nem aquele episódio claro de insubordinação seria o fim da linha. Recebeu uma suspensão de duas semanas e acabou ficando meses afastado até ser reintegrado em março. Não conseguiu uma transferência na janela de janeiro. Até faria uns golzinhos.

Em campo, tudo estava correndo bem. Mancini, o retranqueiro, havia montado um time que marcara 48 gols em 14 rodadas e chegou ao começo de dezembro invicto e a cinco pontos de vantagem do Manchester United. Mas a campanha começou a degringolar com a primeira derrota, para o Chelsea. Chegou uma sequência de apenas duas vitórias em cinco rodadas. Janeiro e fevereiro foram bons meses. Março, nem tanto. O Swansea arrancou uma vitória, Stoke City e Sunderland, dois empates, e depois de o Arsenal ganhar no Emirates, com um gol de Mikel Arteta, em 8 de abril, o City se viu a oito pontos de distância do Manchester United, a seis rodadas do fim.

Não era o melhor Manchester United da Era Ferguson, mas havia acabado de conseguir três finais de Champions League em quatro temporadas e era o grande bicho-papão da Premier League. A potência e a máquina de títulos que todos almejavam ser. A noção de que deixaria uma vantagem de oito pontos escapar com apenas 18 em cima da mesa era ridícula, especialmente para o rival local que não era campeão há décadas e mal havia começado a ganhar o seu respeito. “Eles tiveram um período melhor no meio, nós tivemos um período melhor no começo. Era grande vencer em uma era forte do United. Com Fergie lá e grandes nomes ainda por lá”, disse Kompany.

A tal máquina de títulos perdeu do Wigan na rodada seguinte, e o City goleou o West Brom. Depois goleou o Norwich, com hat-trick do reintegrado Tevez, enquanto o United vencia o Aston Villa. A diferença foi reduzida um pouco mais pelo fenomenal empate por 4 a 4, no qual os Red Devils venciam o Everton por 4 a 2 até os 37 minutos do segundo tempo. “A percepção era que o United e Sir Alex Ferguson, com o currículo que tinham, nunca cometeriam um erro como aquele. O City era o time tentando ganhar a liga pela primeira vez em 44 anos. O United surpreendentemente perdeu do Wigan, e a liderança caiu para cinco pontos. Estavam vencendo o Everton por 4 a 2, e concederam gols aos 37 e aos 39 minutos. United e City ainda tinham que se encontrar”, resumiu o jornalista da ESPN, Ian Darke, a uma reportagem da Sports Illustrated.

Porque ainda tinha isso: o segundo confronto direto entre os candidatos ao título estava marcado para a 36ª rodada, altura na qual a diferença de pontos entre eles era de apenas três. O City tinha vantagem no saldo de gols, que seria inevitavelmente estendido por um resultado positivo. Era apenas vencer aquele clássico, e nem precisava ser por 6 a 1 novamente, e ganhar os últimos dois jogos para quebrar um jejum de quase meio século sem ser campeão inglês. Vincent Kompany subiu com autoridade para cabecear o escanteio cobrado por David Silva, nos acréscimos do primeiro tempo, e marcar o único gol daquela partida. O City havia passado à frente, e fizera também o seu trabalho na penúltima rodada, vencendo o Newcastle fora de casa por 2 a 0. Bastava ganhar do QPR. O QPR que lutava contra o rebaixamento, logo, um dos piores times da liga.

Era a hora H. E ao contrário das expectativas, tudo começou muito bem. Aos 39 minutos do primeiro tempo, Zabaleta começou a jogada pela direita, deixou com David Silva, que acionou Touré, que acionou Zabaleta. O lateral direito não bateu muito bem, mas o goleiro do QPR, Paddy Kenny, também não brilhou na jogada e espalmou contra o próprio patrimônio. Em condições normais, aquele poderia ter sido o gol do título. “Esse é o gol esquecido, Sergio roubou meu momento”, disse Zabaleta, sorrindo, ao site do City. “Foi o meu único gol na temporada. Acho que minutos antes do intervalo. O QPR precisava de um ponto para escapar do rebaixamento e eles defenderam muito atrás”.

“Precisávamos daquele gol para ganhar mais confiança. Eu fiz o gol no intervalo e pensei que seria o herói. Mas no segundo tempo nos vimos na situação em que precisávamos marcar mais dois gols. Um ponto não era suficiente. Dzeko marcou no escanteio, uma boa cabeçada, e depois Sergio. Fico muito feliz que marquei naquele jogo, mas ninguém se lembra. Os torcedores do City se lembram, mas se você perguntar a qualquer um mais relaxado com futebol, todo mundo se lembra do jogo, mas não do primeiro gol”, acrescentou.

É, então. A propensão do City à erraticidade apareceu com tudo no segundo tempo. Lescott errou o tempo de bola, cabeceou para trás, e Djibril Cissé bateu rasteiro para empatar, logo no comecinho da etapa. Ex-Manchester City, Joey Barton deu uma ajudinha com um golpe no rosto de Tevez, flagrado pelo bandeirinha. O árbitro da partida, Mike Dean, consultou seu auxiliar e mostrou o cartão vermelho. Sempre muito polido, famoso por ter cabeça fria, sem nunca ter dado nenhuma evidência de que tem dificuldade para controlar sua raiva, Barton reagiu dando uma bicuda em Agüero e teve que ser retirado de campo. O que só tornou o desastre que se avizinhava ainda pior. Porque Armand Traoré deixou Kompany comendo poeira na ponta esquerda e cruzou para Jamie Mackie marcar de cabeça. Aos 21 minutos do segundo tempo, o City, que precisava apenas vencer para ser campeão, estava perdendo. Precisava de dois gols.

Mancini na hora se mexeu, trocando Barry por Dzeko. Pouco depois, mudou atacantes, com Mario Balotelli na vaga de Tevez. O rosto dos torcedores era de pura incredulidade. Tristeza, choro, decepção, raiva. A história oral da Sports Illustrated retrata uma mulher grávida de oito meses dizendo “não aguento mais isso” e não tinha nada a ver com a gestação. Um pai deixou o seu assento e se dirigiu à saída para poupar o filho daquela tortura, pensando que tem pais que deixam heranças para os seus filhos, como um relógio bacana, às vezes uma casa, um dinheiro, e ele havia deixado uma paixão ingrata. Não houve tantas chances claras. Kenny defendeu uma excelente de Dzeko com os pés. Houve vários escanteios. Quando os acréscimos chegaram, duas notícias relevantes ao que acontecia em campo: o Bolton havia empatado com o Stoke City por 2 a 2, então o QPR não precisava mais vencer para evitar o rebaixamento; e o Manchester United havia ganhado do Sunderland por 1 a 0, então o City realmente precisava vencer para ser campeão.

Em um daqueles escanteios, mais uma vez cobrado por David Silva, Dzeko subiu bem e desviou de cabeça para empatar, aos 47 minutos do segundo tempo. Será? O time inteiro do QPR estava da intermediária para trás. O time inteiro do City estava do meio-campo para a frente. Era tudo ou nada. Segundos, um gol, a glória. Nasri tentou trabalhar com Clichy pela esquerda e quase perdeu a posse. Conseguiu recuperá-la, respirou, levantou a cabeça. Jogou na área, a defesa afastou, e o QPR quase escapou em contra-ataque. Um carrinho de Zabaleta foi essencial. O City tentou mais uma vez. Nigel de Jong soltou com Agüero, que acionou Balotelli na entrada da área.

Balotelli dominou marcado de perto. A bola escapou um pouco. Dois jogadores do QPR estavam mais próximos. Balotelli se esticou e praticamente com a bunda no chão conseguiu empurrar para a trajetória de Agüero, que corria por fora. Agüero encontrou a bola diante de Taye Taiwo. Se chutasse de primeira, no desespero, seria certamente bloqueado. Mas o que diferencia o craque é conseguir raciocinar em momentos de extrema pressão. Ou simplesmente ter a inspiração divina para tomar a decisão certa na hora certa. Dominou ajeitando para a frente, com um drible em Taiwo, e também não bateu cruzado, como era de se esperar daquela posição.

“Quando Edin marcou o empate”, contou Agüero à Sports Illustrated, “houve uma correria para pegar a bola de volta e recomeçar o jogo. Eu me lembro de Nigel trazendo a bola e pensando que tinha que nos ajudar a ficar o mais perto do gol o possível. Eu recebi o passe dele e deixei com Mario. Eu sabia que tinha que estar na área, então eu continuei correndo e torci para que Mario conseguisse me encontrar. Ele conseguiu passar a bola, e eu conseguia ver o gol. Um dos jogadores dele pulou e pegou meu pé de apoio, mas eu estava tão determinado a marcar que eu mal senti. Eu tinha olhos apenas para o gol. Chutei o mais forte que pude e, quando vi a bola no fundo das redes, foi simplesmente incrível. O estádio entrou em erupção. Eu me lembro de correr, girar minha camisa no ar e meus companheiros pularam em cima de mim”.

O Manchester City venceu o Queens Park Rangers por 3 a 2. Fez 89 pontos, igual ao Manchester United, com 64 de saldo de gols contra 56. Pela primeira vez em 44 anos, era o melhor clube da Inglaterra, o que poucas vezes pareceu possível em toda essa trajetória, inclusive semanas antes, inclusive segundos antes de Agüero marcar aquele gol. Sua comemoração, tirando a camisa, rodando a camisa, foi eternizada. Assim como as narrações. Na Inglaterra, a de Martin Tyler, “Agüer-OOOOOOOO”. No Brasil, o gol do “Milaaaaagre”, de Paulo Andrade, da ESPN Brasil, e fico com a segunda porque não tem outro jeito de descrever.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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