Na BancadaPremier League

O outro impacto do Brexit sobre a Premier League: continuará atrativa a investidores estrangeiros?

Nesta semana, diversas reportagens ganharam a missão de avaliar o efeito do Brexit na Premier League, a mais rica liga nacional do mundo, resumindo toda a missa em três pontos: a maior dificuldade de tirar visto de trabalho para os jogadores europeus, agora extracomunitários; a aplicação da regra do “mínimo de jogos pela seleção” para qualquer jogador, que só era aplicada para não europeus; e o limite de idade mínimo de 18 anos para a contratação, agora que europeus também serão “estrangeiros”.

[foo_related_posts]

O recorte escolhido repete o que foi feito numa imensa quantidade de meios de imprensa esportiva que trataram do assunto nos últimos longos três anos de debates, idas e vindas do tema. No último dia 29, com o anúncio feito oficialmente no Parlamento Europeu, o Reino Unido finalmente concretizou a sua saída da União Europeia, trazendo esse debate de volta. Afinal, seus impactos começarão a se concretizar.

A questão é que esses problemas todos podem ser resolvidos pela própria liga, que evidentemente mudará suas regras para não prejudicar os clubes locais. Esses novos impedimentos, que teoricamente enfraqueceriam os clubes da liga mais rica do mundo, provavelmente serão contornados da mesma forma que outros já foram superados historicamente.

Clubes de futebol sempre acharam meios para burlar as regras. Quando apenas amadores eram autorizados a jogar futebol, os dirigentes empregavam os melhores jogadores em cargos bem pagos e pouco desgastantes nas suas próprias empresas. Quando os clubes eram proibidos de assinar com jovens jogadores, passaram a dar empregos para toda a família, de preferência nas proximidades dos centros de treinamento. Quando eles não podiam trazer jogadores desconhecidos de países de fora da União Europeia, eles assinavam e emprestavam esses jogadores para clubes de países com programas de cidadania menos rígidos e mais céleres, atuando o tempo necessário para conseguir a cidadania europeia. 

Até onde foi possível acessar no vasto mundo da internet, foi feita pouca ponderação sobre o efeito do Brexit em um fator primordial de toda essa magnitude financeira do futebol inglês: os investidores bilionários.

Pesquisadores como Peter Kennedy e David Kennedy, autores de “Football in Neo-Liberal Times”, já definiram a Premier League como uma “economia política do prejuízo (dívida)”, apontando que não há sustentação econômica para os investimentos protagonizados por figuras como Roman Abramovich e o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, que acumulam temporadas com débitos de centenas de milhões de libras. 

São raríssimos os casos de clubes das grandes ligas europeias (com exceção da Alemanha) que encerram alguma temporada com balanço financeiro positivo. E isso é muito mais acentuado no caso da liga inglesa, na qual grande número dos clubes da primeira e segunda divisões está sob a propriedade de investidores estrangeiros.

Essa atração estrangeira se deu por uma série de motivos, mas especialmente porque nos anos 1990 os clubes começaram um processo mais intenso de abertura para grandes investidores. O fortalecimento da liga a partir desses novos aportes financeiros – boa parte deles tornando o clube num ativo a mais da robusta carta de investimentos de grandes traders internacionais – elevou a Premier League ao topo da indústria do esporte em escala global.

Com mais dinheiro, um número cada vez maior de grandes craques chegava aos clubes ingleses, levando ao crescimento dos valores conquistados com a renovação dos contratos de direitos televisivos. O futebol inglês era o que mais movimentava dinheiro, mas também o que mais gastava em novas instalações e contratações.

Com o nível de competitividade criando verdadeiros abismos entre os “produtos internacionais” (clubes como Manchester United, Liverpool e Arsenal) e os médios e pequenos clubes, passou-se a praticar a única forma possível para reequilibrar as coisas: a venda quase completa para os magnatas forasteiros. Sujeitos que desembarcavam com grandes promessas de investimentos inéditos e elevação do patamar competitivo de clubes então secundários.

Esses novos interessados eram figuras que não tinham absolutamente nada a ver com o futebol e muito menos se incomodavam em torrar boa parte de sua fortuna sem qualquer retorno. Como os próprios Peter Kennedy e David Kennedy falam em seu livro, o futebol inglês pulou do “amor ao dinheiro” para a “economia política da despesa”. 

Não estamos falando necessariamente de um mercado de propriedade de clubes, mas da propriedade de clubes como ferramenta para entrada em mercados.

Dentre os 32 grandes investidores dos 20 clubes da primeira divisão inglesa, apenas 12 são de origem britânica. Dentre os estrangeiros estão investidores de Estados Unidos, Rússia, China, Irã, Egito, Tailândia, Emirados Árabes (Abu Dhabi), Suíça e Itália. Na divisão de acesso, o panorama é ainda mais “estrangeirizado”, tanto em proporção quanto em origem. 

Temos aqui a “The Global Football League” (“Liga de Futebol Global”), como observado por Peter Millward no título de seu livro, lançado ainda em 2011. É possível dizer que o futebol inglês hoje é uma indústria fictícia do esporte, onde o pretenso sucesso comercial na realidade é um mar de dívidas, falências e falta de balanço competitivo.

É aí que vem a pergunta: por que investir tanto dinheiro em um negócio que não necessariamente dá lucro? 

Porque, até então, investir no futebol inglês foi a porta de entrada mais rápida e mais “luxuosa” para a entrada de grandes investidores não-europeus na potente economia do bloco que compõe a União Europeia.

Como observa Emanuel Leite Junior no podcast “SDT Na Bancada #24 ChinaBall”, o capital da China e dos emirados petrolíferos derramado na aquisição de clubes de futebol está quase sempre relacionados aos seus grandes investimentos em portos, estradas e ferrovias. Uma faceta dessa realidade que podemos relacionar ao conceito de “soft power”.

Em que pese o fato dessa modalidade ter se alastrado por outros países europeus – seja com a compra de clubes, seja com os investimentos bilionários em patrocínios e outros investimentos em estádios e centros de treinamento – não há qualquer comparação cabível ao nível do investimento feito na Inglaterra. Incluindo aí o fato dessa derrama de dinheiro sempre vir acompanhada de todo um trabalho da imagem do investidor em questão.

Mas é exatamente nesse ponto que o Brexit pode atingir o futebol inglês: a porta mágica para o mercado europeu se fecharia, deixando de angariar notabilidade e poder midiático aos magnatas e barões.

O fim da livre circulação de mercadorias e da força de trabalho pode impactar significativamente nos interesses desses megainvestidores. Ainda que não se possa apostar na retirada imediata dos seus principais investimentos (transportes, comunicação, energia, mercado imobiliário, apenas para citar os exemplos mais evidentes), é notável que o futebol da Inglaterra deixará de ser necessariamente o melhor atalho para a entrada no mercado europeu.

O que vale observar é que o futebol inglês tende a se prejudicar numa ordem superior que a própria economia do Reino Unido, sobretudo porque se acomodou sob uma estrutura de valores e gastos que não poderiam existir num ambiente de mercado real, com receitas balanceadas em premiações e honorários equilibrados.

Mais do que “dificuldade para contratar estrangeiros”, o futebol inglês deverá testemunhar a interrupção desses investimentos nonsense, se tornando incapaz de bancar salários astronômicos como tem feito até então. Apesar do grande volume de recursos oriundos da TV e de fontes comerciais (incluindo o mercado asiático), não é exagero pensar que no médio prazo o futebol inglês possa sofrer um processo semelhante ao ocorrido no futebol italiano, quando a crise e a falência dos proprietários de grandes clubes gerou uma bola de neve, levando à fuga de jogadores e enfraquecendo seriamente a liga local.

É difícil prever a capacidade que os clubes terão de se reinventar diante dessas mudanças, se é que se concretizarão os prognósticos aqui feitos. Mas não faltam exemplos que confirmam que o futebol hoje é uma bolha refém de qualquer menor alteração nas placas tectônicas da geopolítica cada vez mais complexa e instável dos tempos atuais.

É possível inclusive apostar em um deslocamento desse tipo de capital para Espanha, França e Itália. Ainda que não possuam a mesma dimensão da Premier League, o futebol desses três países possui considerável penetração em mercados internacionais, já está habituado a receber grandes investidores e parece estar pronto para ocupar o vácuo deixado pelo futebol inglês como ferramenta privilegiada para as finalidades acima descritas.

Dentre as tantas incertezas criadas com o abrupto e populista movimento de saída do Reino Unido da União Europeia, o futebol local, há 30 anos colonizado por investidores estrangeiros, mudará a sua configuração por imperativos macroeconômicos e políticos que fogem ao seu controle. 

A propriedade de clubes ingleses continuará representando muito para interesses cruzados, dado seu potencial de extração de capital social e soft power? Sim, sem dúvidas. Mas definitivamente começa uma nova era, e fica a dúvida se a indústria do futebol inglês estará preparada para o baque de um inevitável desinvestimento.

Irlan Simões é criador do podcast Na Bancada (www.nabancada.online), pesquisador (LEME/PPGCom/UERJ) e autor do livro “Clientes versus Rebeldes – Novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno”.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo