Premier League

O Manchester United, enfim, reconheceu que a situação de Solskjaer era insustentável e demitiu o treinador

Solskjaer foi sustentado mesmo escancarando suas incapacidades e o United cavou um buraco mais fundo, com responsabilidade também de outras tantas pessoas

É difícil relembrar um ciclo recente de um treinador que se arrastasse tanto quanto o de Ole Gunnar Solskjaer no Manchester United. O antigo ídolo dos Red Devils era basicamente um morto-vivo no cargo: todo mundo sabia que seu trabalho não prosperaria, mas de certa forma ele seguia zumbizando. A culpa já nem era apenas de suas debilidades na função, mas sobretudo da letargia de uma diretoria que até mais vezes se provou incapaz. O passado em Old Trafford, claro, dava um mínimo sustento para segurá-lo – seja pela relação com figuras influentes no clube, seja pela benevolência dos antigos companheiros que viraram seus apoiadores na mídia. Mesmo a torcida do United no estádio parecia pegar mais leve que a dos rivais, que direcionava provocativos cânticos em cada um dos últimos jogos. Porém, o desgaste chegou a um ponto que era impossível de se segurar. Se resistir às pancadas contra Liverpool e Manchester City parecia um milagre, a goleada do Watford neste sábado conseguiu ser ainda pior e mostrou que não havia mais caminho para Solskjaer, com vaias compreensíveis ao apito final. A demissão, enfim, foi confirmada neste domingo pelo United.

A questão sobre o Manchester United não é só a maneira como o elenco caríssimo vem sendo subaproveitado ou como os vexames se encadeiam nas semanas recentes – em todas as competições, contra todos os níveis de adversários. O que mais surpreende é como Solskjaer se sustentou por tanto tempo nessa temporada quando já não dava mais nenhum indício de que encontraria uma solução para os problemas. A falta de ideias era óbvia. O próprio time não exibia confiança em seu treinador. E se certa sobrevida ainda foi garantida pelos gols derradeiros de Cristiano Ronaldo, os último jogos até afastaram os Red Devils de poder conseguir qualquer milagre, com uma equipe já desconectada.

A traulitada sofrida contra o Liverpool foi o primeiro grande momento recente em que o pedido de demissão de Solskjaer foi discutido. Com o conselho de Sir Alex Ferguson, preferiram evitar uma decisão drástica, mesmo diante da goleada histórica e da maneira como o Manchester United foi subjugado. O clássico contra o Manchester City ofereceu uma apatia pior, por mais que os vizinhos tenham tirado o pé do acelerador, e a Data Fifa garantia tempo à troca. De novo, surgiu um voto de confiança em meio ao caos. Neste sábado, a derrota contra o Watford mostrou que nada mudaria. Não fossem David de Gea e Donny van de Beek, era de se imaginar um resultado ainda pior. O United foi amplamente inferior ao oponente fugindo da segundona no primeiro tempo, complicou-se sozinho quando tentava a reação na volta do segundo e se entregou à própria desgraça nos minutos finais.

“O Manchester United anuncia que Ole Gunnar Solskjaer deixou seu cargo como técnico. Ole sempre será uma lenda no Manchester United e é com pesar que chegamos a essa difícil decisão. Embora as últimas semanas tenham sido decepcionantes, elas não devem obscurecer todo o trabalho que ele fez nos últimos três anos para reconstruir as bases para o sucesso de longo prazo”, escreveu o Manchester United, em sua nota oficial.

“Ole sai com nossos sinceros agradecimentos por seus esforços incansáveis e nossos melhores votos para o futuro. O lugar dele na história do clube sempre estará garantido, não apenas pela história como jogador, mas como grande homem e treinador que nos deu tantos momentos grandiosos. Ele será sempre bem-vindo em Old Trafford, como parte da família do Manchester United”, complementou o clube.

O Manchester United também anunciou que Michael Carrick, membro da comissão técnica permanente desde 2018, deixará o cargo de assistente e assumirá de maneira interina. O clube, além disso, enfatizou que a intenção é permanecer com o ex-volante no posto até o final da temporada. Um reconhecimento de como não há opções à altura no mercado atual e um caminho para ampliar o tempo sobre a próxima escolha. Mas que não reduz a pressão sobre o clube e nem a necessidade de uma resposta imediata dentro de campo, o que também deve jogar Carrick na fogueira.

Quatro anos em que pouquíssimo aconteceu

Solskjaer, do Manchester United (Foto: Alex Pantling/Getty Images/One Football)

O próprio ciclo de Solskjaer, como um todo, oferece pouca coisa a se tirar. Chegou inspirando novos tempos, até pela forma como José Mourinho deixou a terra arrasada, e a aura vitoriosa dos tempos de jogador permitia acreditar que se aprimoraria como técnico. Porém, como ponto principal, dá para elogiar alguns atletas que eclodiram em suas mãos, o que parece insuficiente quando outros tantos medalhões renderam abaixo do esperado. O treinador viveu de início uma grande montanha-russa, com sequências animadoras de resultados, se alternando com secas custosas. Alguns recordes, como a recente invencibilidade fora de casa quebrada pelo Leicester, acabavam diminuindo o impacto de problemas do campo que se evidenciavam nos jogos. E também vitórias de peso em alguns grandes duelos varriam para baixo do tapete séries maiores de resultados ruins.

Aquela reviravolta contra o Paris Saint-Germain nas oitavas da Champions de 2018/19, por exemplo, custou três temporadas claudicantes no cenário continental – com a Liga Europa virando o máximo objetivo. Certa facilidade nos clássicos contra o Manchester City de Pep Guardiola também criavam uma falsa esperança sobre um time que nunca competiu tão continuamente pelo topo na Premier League. Os momentos em que os Red Devils pareceram ter gás para sonhar com a reconquista da liga foram efêmeros, com uma vaga na Champions levada de última hora em 2019/20 e um vice-campeonato distante de acompanhar o City de verdade em 2020/21. As rodadas invictas da última campanha até poderiam dizer algo na tabela e indicar uma regularidade, mas dentro de campo pouco se correspondia com as oscilações e um time longe de reproduzir o encantamento provocado pelos rivais, apesar de certos períodos mais empolgados.

O atual mercado de transferências, porém, valeu uma última ficha a Solskjaer. No papel, é o melhor elenco do Manchester United que ele já teve em mãos. E, por mais que algumas posições estejam bem mais abastecidas que outras, com uma equipe que reproduz em campo tal desequilíbrio, os recursos individuais elevavam muito as cobranças. O time do United, todavia, coletivamente falando, ainda não aconteceu. Permaneceu no máximo como candidato ao título na Premier League por seis rodadas. Neste momento, já se sabe que a taça é sonho basicamente impossível e o objetivo precisa ser a vaga no G-4. E tal situação é penosa ao próprio balanço financeiro do clube, isso sem contar o vazio na sala de troféus. Solskjaer se despede sem ter levado sequer uma Copa da Liga neste caminho.

No fim das contas, Solskjaer deixa o Manchester United provando algo que se temia no começo: não era um treinador preparado para o cargo. Os pontos positivos acabam sendo encobertos pela maneira como os Red Devils pareceram andar em círculos nos últimos anos. E mesmo que ele tenha vivido alguns bons momentos, a estagnação de um clube que investe para ser multicampeão é gritante. A culpa não é apenas sua, com uma diretoria que falha nas decisões há anos e um elenco que oferece mais fama que suor. Entretanto, isso não exime as muitas chances que o norueguês teve para encontrar um caminho e se mostrou despreparado ao salto.

O desafio que se propõe

Solskjaer, do Manchester United (Getty Images / OneFootball)

A letargia do Manchester United em tomar a decisão custou um bocado ao clube. A situação na tabela da Premier League não é completamente perdida, mas a distância em relação à zona da Champions já vai demandar uma consistência logo de cara ao novo treinador – ainda mais considerando o nível de desempenho de Chelsea, Liverpool e City, ainda que não sejam equipes totalmente imbatíveis. Para piorar, não se nega o desgaste interno que a postergada demissão gerou, com muitas cobranças também aos jogadores e questionamentos evidentes. A cereja do bolo é que nem a Copa da Liga dá para ganhar mais. Ao menos, os gols tardios de Cristiano Ronaldo evitaram um desastre maior em relação à Champions.

E o desafio seria encontrar um treinador capaz de botar ordem nesta bagunça, o que já provoca uma escolha mais simples com a permanência de Carrick. O nome mais forte no mercado, Antonio Conte, acabou levado pelo Tottenham enquanto o Manchester United seguia indeciso. O sonho de consumo do clube, Mauricio Pochettino, não indica que largará o Paris Saint-Germain neste momento – por mais que as interrogações sobre seu trabalho o rondem há um tempo. O mercado, no geral, não parece oferecer um nome tão forte para assumir a bronca. A cota de ídolos sequer garantiria uma solução emergencial. Ou eles viraram comentaristas, ou trajetória é incipiente (como a de Carrick), ou não se mostram treinadores de primeiro nível. Solskjaer entra nesta última cota de descartados, ao lado de Steve Bruce.

O ponto será uma transformação imediata do time, que não exibe muito além da abundante qualidade individual no papel e de lampejos que evitam algo ainda pior. Não se notam muitos mecanismos coletivos ou qualquer solidez, mesmo na parte defensiva, o que chegou a ser um ponto forte ao longo desse ciclo. Os jogos só parecem se tornar favoráveis quando há possibilidade de contra-atacar ou quando o abafa dá certo na conta de Cristiano Ronaldo. E o clima nos vestiários também não será dos mais simples de se contornar, com estrelas que não correspondem em campo, guerras de egos e reforços que ainda não justificaram o preço. Isso sem falar na própria relação com os superiores, o que sempre é uma bomba-relógio em Old Trafford, com a eterna guerra entre torcedores e proprietários. A gestão interna precisa ser uma virtude do novo comandante, mas o campo e bola dos Red Devils necessitam também de um chacoalhão rápido.

O próprio passado recente do United pede para que se olhe para trás, diante da hercúlea missão de substituir Sir Alex Ferguson. David Moyes não demorou a indicar que não tinha tamanho para o cargo. Louis van Gaal e José Mourinho passaram anos de muitos conflitos internos e alguns títulos, mas nunca de expectativas cumpridas. Solskjaer, que também chegou como interino, e um perfil bastante diferente de seus antecessores, não se provou como um técnico de elite em transformação, como confiava o clube. No fim, seu aproveitamento geral consegue ser pior que o de Mourinho e, contra o Big Six, Van Gaal era mais eficiente. Mais do que estilos de treinador ou currículos, o contexto do United também se prova um moedor de comandantes – e não por responsabilidade só desses escolhidos.

Com a saída de Solskjaer, ao menos, já se sabe que os esforços dentro do clube poderão se voltar a algo além de sustentar um treinador moribundo. O próximo passo é a autocrítica de que todas as partes, dos jogadores aos dirigentes, também fazem um trabalho ruim. A partir disso o elenco deve achar seu propósito, o que não se notava muito. O problema agora, de qualquer forma, é a nova vida com tamanho atrito gerado por uma demissão que o United se recusou a fazer, e deixou chegar num ponto bem mais difícil de se reverter. A continuidade do novo comandante, Carrick ou outro, será bem mais dura pelo contexto, e sem trégua, considerando a maratona até a virada do ano oferecida pelo calendário A próxima semana já guarda uma partida vital contra o Villarreal na Champions, além do clássico contra o Chelsea na Premier League. Se Solskjaer ficasse, a chance de outra paulada contra os londrinos era considerável. Mas não que as probabilidades pareçam tão reduzidas assim, nesta continuidade sem direção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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