Premier League

O capitão do impossível encerra a carreira: Wes Morgan se aposenta depois de anos mágicos com o Leicester

Aos 37 anos, o zagueiro anunciou sua despedida do futebol e deve seguir com algum cargo no clube

A Jamaica produz uma das marcas mais famosas de rum do mundo, a Capitão Morgan. A partir de 2016, porém, falar sobre capitão Morgan no futebol ganhou um novo significado. A epopeia do Leicester na Premier League de 2015/16 será sempre relacionada a outro Morgan jamaicano, Wes, que portava a braçadeira de capitão e foi uma enorme liderança na inimaginável conquista sob as ordens de Claudio Ranieri. Na época, a fabricante da bebida até embarcou na brincadeira e produziu garrafas especiais com a imagem de Wes Morgan no rótulo. E a figura imponente do beque no Estádio King Power vira agora apenas lembrança, com o anúncio de sua aposentadoria do futebol, aos 37 anos.

“Gostaria de agradecer meus amigos e família, pelo apoio eterno nos altos e baixos, não importasse o que. Obrigado a todos os técnicos e pais que me apoiaram e me ajudaram quando eu era um menino jogando futebol em times locais e que me deram a chance de me tornar profissional. Um grande obrigado a Brendan Rodgers e toda a comissão técnica que me fizeram seguir em frente nas últimas duas temporadas e às grandes memórias que compartilhamos”, escreveu Morgan, em sua carta de despedida. Além dele, Christian Fuchs e Matty James são outros da velha guarda do clube que se despedirão, embora não devam se aposentar.

“A Vichai, Top, família Srivaddhanaprabha e toda a direção do Leicester, que trabalha tão duro nos bastidores para fazer o clube o mais bem sucedido possível – obrigado por me ajudarem a alcançar meus sonhos. Usar a braçadeira do Leicester por quase dez anos e liderar o time diante da vibração da torcida me deu o maior prazer, orgulho e alegria, e espero que eu tenha defendido o clube de vocês bem. Um obrigado a toda a minha família na seleção da Jamaica, no Nottingham Forest, no Leicester e a todas as pessoas desses clubes que conheci, mas não estão mais com a gente. E, por último, mas não menos importante, um massivo obrigado aos torcedores por seu tremendo apoio ao longo dos anos. Espero ter feito vocês orgulhosos”, complementou.

De família com origem jamaicana, Wes Morgan nasceu em Nottingham. Filho de uma enfermeira, cresceu numa região marcada pela violência, mas se agarrou no futebol. Jogava na vizinhança sempre que tinha tempo livre e logo ingressou no Meadow Colts, um clube do bairro. Tinha qualidade a ponto de ganhar uma chance na base do Notts County, tradicional clube da cidade. No entanto, a oportunidade durou semanas: aos 16 anos, acabou dispensado. O adolescente precisou tomar as rédeas de seu próprio destino e até ingressou na faculdade de administração, mas não abandonou o sonho, virando meio-campista amador no modesto Dunkirk. E o empenho fez sua sorte se transformar.

Graças à indicação do técnico da faculdade, Wes Morgan conseguiu um teste no Nottingham Forest. Agradou e seria aprovado, mas sob a condição de perder peso. Depois de uma dieta e de um trabalho árduo para cumprir a exigência, virou jogador dos alvirrubros. Sua contratação “custou” um jogo de uniformes ao Dunkirk. Pouco ao que o beque viraria a partir de então no City Ground, o estádio separado por um rio do bairro onde cresceu. Depois de um empréstimo inicial à quarta divisão, Morgan tomou conta da zaga do Forest. Foram oito temporadas e meia com a equipe principal, entre segunda e terceira divisão, mas sempre como um dos melhores do time. Superaria as 400 partidas e usaria a braçadeira de capitão pela primeira vez por lá.

A capacidade de Wes Morgan levou o rival Leicester contratá-lo em 2012. Ele não queria deixar o Forest, mas a crise financeira do clube não ofereceu outra escolha. Seu profissionalismo, ainda assim, nunca esteve em xeque. O zagueiro virou uma referência e já ganhou a braçadeira de capitão na segunda temporada no Estádio King Power. Morgan era uma liderança natural e imponente, por seu estilo de jogo e pela inteligência. Seroa o coração das Raposas a partir de então, na reconstrução do clube rumo à Premier League e, principalmente, no conto de fadas vivido em 2015/16.

Wes Morgan disputou todos os minutos da histórica campanha em 2015/16. Ao lado de Robert Huth, formou uma dupla de zaga muito firme e que se casava perfeitamente com o estilo de jogo praticado por Claudio Ranieri. Mais do que trancar o sistema defensivo, o camisa 5 teve seus momentos de brilho, em especial no jogo contra o Manchester United em que definiu o empate por 1 a 1. Aquele seria o gol do título, com a conquista confirmada durante a sequência da rodada no dia seguinte. Morgan ergueu o troféu e também foi eleito para a seleção do campeonato naquela temporada.

“Estou esgotado emocionalmente. É uma sensação incrível finalmente ter o troféu em minhas mãos. Subindo ao pódio, eu me emocionei. Tive que segurar as lágrimas. Ter a taça nas mãos e ergue-la é a melhor sensação do mundo. Não há sensação melhor do que saber que você é campeão da Inglaterra, é algo para relembrar para o resto de sua vida”, afirmou Morgan, ainda em campo depois de receber a taça. “Nós sempre acreditamos, as pessoas ao nosso redor é que não estavam realmente convencidas. Mas nós sabíamos das nossas capacidades. Jogamos com todos os times e sabíamos que, em nosso dia, éramos tão bons ou até melhores que os outros. Foi só atuar semana a semana, concentrar, ignorar os comentários e fazer nosso trabalho. É a união dos rapazes, fazemos tudo juntos e não temos egos. Ninguém está acima da equipe”.

Ranieri definiria muito bem seu homem de confiança, em entrevista ao jornal Telegraph durante aquela campanha: “Ele é como Balu, do filme Mogli. É um urso gentil, que cuida de todos os rapazes. Ele não fala muito, mas todo mundo escuta quando fala. É o capitão perfeito. Eu não sabia nada sobre ele antes de chegar ao clube. Mas assisti aos jogos e vi o quão sólido, forte e inteligente ele era. Seu comportamento é importante para o resto do elenco. Ele estava doente contra o Southampton, mas ainda jogou e marcou um gol fundamental para a vitória. Isso diz muito sobre ele. É um dos melhores defensores da Premier League”.

Wes Morgan já tinha 32 anos quando conquistou a Premier League com o Leicester. Naquele momento, se aposentou da seleção jamaicana para se dedicar ao clube, após disputar duas edições da Copa América e uma da Copa Ouro. O veterano seria titular por mais três temporadas, experimentando também a aventura inédita das Raposas na Champions League. Mas, nos últimos anos, a queda de sua fortaleza física o colocou no banco do time de Brendan Rodgers. Nesta temporada, Morgan seria apenas um coadjuvante no Estádio King Power. Um coadjuvante que, ainda assim, entrou em campo para protagonizar outro momento histórico na última semana. Jogou os minutos finais da decisão da Copa da Inglaterra em Wembley e, ao lado de Kasper Schmeichel, teve o gosto de erguer um novo troféu para o Leicester.

“Eu vi os sacrifícios feitos por jogadores em diferentes níveis e os esforços que eles precisam fazer para oferecer o melhor de si. É uma carreira privilegiada, bem recompensada no maior nível e sou eternamente grato por aquilo que o futebol fez por mim. Eu aprecio cada jogador que atuou comigo ou contra mim, as jornadas vividas e as amizades feitas. Os momentos na minha carreira em que fui reconhecido por esses colegas estão entre os quais eu mais me orgulho”, escreveria Morgan, em sua carta.

Wes Morgan deve continuar com algum cargo na diretoria do Leicester, conforme apontou Brendan Rodgers. Mas, com 323 partidas pelas Raposas, o capitão representa mais que isso e é daquelas figuras que merecem uma estátua na entrada do estádio. Se ganhar, será com a cena mais expressa de sua liderança: taça nas mãos, capitaneando as Raposas aos sucessos menos prováveis.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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