Premier League

Num jogo marcado pelos protestos contra a Superliga nos arredores do Emirates, o Arsenal ainda perdeu para o Everton com frangaço de Leno

O Arsenal entrou em campo nesta sexta-feira, abrindo a rodada da Premier League, mas a bola ficou em segundo plano. A noite no norte de Londres seria marcada por amplos protestos nos arredores do Estádio Emirates. A torcida alvirrubra urgia pela saída de Stan Kroenke, proprietário dos Gunners, em consequência direta dos frustrados planos ao redor da Superliga Europeia. Um foguetório aconteceu durante os primeiros minutos da partida, enquanto gritos de torcedores e o barulho de helicópteros podiam ser ouvidos ao longo do primeiro tempo. Como se não bastasse, o Arsenal perdeu. O Everton contou com um frangaço de Bernd Leno para vencer por 1 a 0 e se reavivar na briga pelo G-4.

Os protestos aconteceram em sinal de insatisfação com a participação do Arsenal na mesquinha Superliga. Os torcedores aproveitaram a ocasião não apenas para indicar a maneira como rechaçam tal ideia, como também para pedir a saída de Kroenke. O bilionário americano possui participação nos Gunners desde 2007, aumentando sua fatia até se tornar o acionista majoritário em 2011 e adquirir a totalidade das ações em 2018. Sua gestão é marcada por decisões bem questionáveis ao redor do futebol, assim como por uma queda flagrante no desempenho.

Além da clara depreciação do futebol no Arsenal, Stan Kroenke costuma ser uma figura ausente em Londres, delegando seu poder ao filho Josh Kroenke. A Superliga soava mais como uma tábua de salvação à sua administração, considerando as fracas temporadas dos londrinos, que registram seus piores desempenhos na Premier League desde 1995. A Liga Europa é a única perspectiva neste momento, como a chance restante de levar um título continental e voltar à Champions League em 2021/22. A Superliga, em contrapartida, ofereceria uma vaga permanente a um clube que não faz por merecer tal reconhecimento há alguns anos. O projeto, aliás, possui semelhanças com o modelo dos esportes americanos tão conhecido por Kroenke – dono dos Rams, time de futebol americano que trocou St. Louis por Los Angeles recentemente.

As faixas de protesto no Emirates (Foto: Imago / One Football)

Os torcedores acenderam sinalizadores ao redor do Emirates. Também levaram dezenas de cartazes de protesto. Entre as mensagens, pediam “Kroenke saia”, diziam que “a história e a tradição estavam riscadas” e afirmavam que o proprietário “não se importava com o clube”. A Arsenal Supporters’ Trust, entidade representativa da torcida, orientava para que as medidas de distanciamento social fossem respeitadas por conta da pandemia – mas não foi o que aconteceu, com algumas centenas de pessoas nas proximidades do estádio, repetindo os atos ocorridos em Elland Road e Stamford Bridge durante a semana.

Horas antes, num fórum com torcedores, Josh Kroenke afirmou que sua família não tem a intenção de vender o Arsenal: “Acredito que estamos aptos para seguir em frente em nossa posição como guardiões do Arsenal. Fomos colocados em uma situação muito ruim por forças externas ao clube. A primeira questão que nos perguntamos foi: o que é pior, uma Superliga ou uma Superliga sem o Arsenal? Decidimos que seria pior se nós não entrássemos. A questão levantada pela torcida era muito mais complicada para o tempo que tínhamos, ao tomar nossa posição”. O sueco Daniel Ek, um dos fundadores do Spotify e torcedor dos Gunners na infância, foi um dos primeiros a demonstrar seu interesse se os Kroenke desejarem sair.

Durante a semana, o Arsenal enviou uma carta pedindo desculpas aos torcedores. Já o chefe-executivo Vinai Venkatesham ligou para representantes dos outros 14 clubes da Premier League que ficaram de fora da Superliga para admitir o erro e se desculpar em nome dos Gunners. Antes que a diretoria pulasse fora do barco furado, lideranças da Arsenal Supporters’ Trust tinham se reunido com o primeiro ministro Boris Johnson, manifestando suas preocupações com as consequências da Superliga. O governo britânico agora estuda meios de aumentar os poderes dos torcedores em relação aos clubes.

Uma multidão se reuniu no norte de Londres (Foto: Imago / One Football)

Arteta, por sua vez, afirmou antes da partida que o clima ao redor do Emirates não atrapalhava sua equipe. O treinador também salientou que Kroenke pediu desculpas a ele e aos jogadores pessoalmente, pelas turbulências causadas pelo projeto. Ainda disse que o americano tem as intenções de colocar o clube “na melhor posição possível”, embora admita que a Superliga teve “consequências terríveis” e que foi um erro. “Bem, nós ouvimos a torcida, sabemos o que eles pensam. Nossa responsabilidade é tentar jogar a partida da melhor maneira. Obviamente, não ajuda quando seus torcedores estão protestando, dizendo em alto e bom som que não estão felizes. Mas nosso trabalho é ganhar a partida e, quando isso acontece, tudo fica melhor”, apontou.

Dentro de campo, o Arsenal deixou muito a desejar. Foi uma partida morna no Emirates, sobretudo durante o primeiro tempo, com todo o tumulto ao redor. Na segunda etapa, quando os ânimos se amainaram, as chances surgiram. Os Gunners tiveram um pênalti marcado a seu favor, mas que acabou anulado por um impedimento de Nicolas Pépé na construção – milimétrico, e cerca de 15 segundos antes da falta, o que gerou reclamações. Já o gol da vitória do Everton saiu aos 31 minutos. Richarlison cruzou e, na tentativa de agarrar a bola, Leno deixou que ela passasse por baixo de seu corpo, num frango clássico. Os londrinos ainda tentaram uma pressão no fim, sem sucesso. Os Toffees não venciam o Arsenal em Londres desde janeiro de 1996. Além disso, essa foi a primeira temporada desde 1985/86 que o clube de Liverpool bateu os londrinos nos dois turnos.

O Everton ocupa a oitava colocação, encerrando a série negativa recente. A equipe tem 52 pontos, a três de entrar no G-4 da Premier League. Já o Arsenal é o nono colocado, com 46 pontos. A esta altura, a sua única chance de se classificar às copas europeias é a Liga Europa. O fim da Superliga cortou as asas dos donos dos Gunners e ainda aumentou a fratura numa relação péssima não é de hoje com a torcida. Não parece que um pedido de desculpas ou a admissão do erro vai corrigir isso.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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