Mourinho defende-se com monólogo de 12 minutos, sem explicar por que o time joga tão mal
Boa parte da entrevista coletiva de José Mourinho, antes de enfrentar o Brighton pela Copa da Inglaterra, foi uma via de mão única. No momento em que mais é contestado desde que explodiu pelo Porto, o técnico português respondeu às críticas com um monólogo de 12 minutos, um desabafo aparentemente sincero, em que tentou explicar aos jornalistas presentes, e consequentemente ao público, o conceito que ele chama de herança futebolística.
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A defesa de Mourinho baseia-se no patamar em que ele encontrou o Manchester United e o processo pelo qual precisa passar para levá-lo aos objetivos finais. Levou números para lembrar as últimas campanhas continentais do United, eliminado duas vezes na fase de grupos, duas nas oitavas (uma com ele, esta última para o Sevilla), outra nas quartas, uma temporada sem nenhum futebol europeu e um título da Liga Europa, também com Mourinho no banco de reservas.
“Então, em sete anos, com quatro técnicos diferentes, não teve futebol europeu em uma temporada, saiu duas vezes na fase de grupos e o melhor foram quartas de final. Isso é herança futebolística”, disse. Ele fez o mesmo com a Premier League. Alertou que desde 2013, data do último título, o United foi sétimo, quarto, quinto e sexto. “Então, nos últimos quatro anos, o melhor foi um quarto lugar. Isso é herança futebolística”, repetiu.
Por vontade própria, Mourinho comparou as campanhas do Manchester United com as do City, para pontuar que Guardiola recebeu um time em estágio mais avançado do que ele. “Nos últimos sete anos, a pior posição do Manchester City na Premier League foi quarto lugar. Nos últimos sete anos, o Manchester City foi campeão duas vezes, ou, se você quiser, três vezes (contando a atual temporada), e ficaram em segundo lugar duas vezes. Isso é herança”, disse.
Mourinho lembrou que jogadores como Otamendi, De Bruyne, Fernandinho, David Silva, Sterling e Agüero foram investimentos de comissões técnicas anteriores às do Guardiola. Enquanto isso, ele dispensou atletas que não conseguem mais, ou nunca conseguiram, atuar no primeiro nível do futebol europeu, como Rooney, Schweinsteiger, Januzaj, Depay, Schneiderlin, Valdés e Mkhitaryan. “Os jogadores do United que deixaram o clube na última temporada. Veja onde eles estão jogando, como estão jogando e até se estão jogando”, disse.
Rooney e Schneiderlin foram para o Everton. Januzaj está na Real Sociedad. Schweinsteiger transferiu-se para a Major League Soccer. Depay está no Lyon. Mkhitaryan no Arsenal. Valdés tentou seguir carreira no Middlesbrough, mas acabou se aposentando. Todos deram passos atrás na carreira, com exceção ao armênio, que foi para outro clube entre os mais fortes da Inglaterra, embora em um momento pior que o do United.
Mourinho portanto argumenta que, além de pegar um clube que colecionava resultados piores que os do City, também herdou um elenco que precisava de mais trabalho, embora Guardiola também tenha se livrado de alguns jogadores envelhecidos, como Zabaleta, Sagna e Clichy. “Isso é herança futebolística, e um dia, quando eu for embora, o próximo técnico do Manchester United encontrará Lukaku, Matic, De Gea, de muitos anos atrás. Encontrará jogadores com mentalidades diferentes, qualidades, bagagem, com status diferentes”, disse.
O treinador afirmou que gostou do que viu depois do jogo contra o Sevilla, ao identificar tristeza e frustração em seus jogadores, e garantiu que está na mesma página dos seus chefes. “Concordamos em tudo. Sabemos que temos um processo. Concordamos nos investimentos que fizemos e que temos que fazer, que precisamos de tempo. A vida é boa. Tenho um trabalho maravilhoso para fazer”, disse.
“Há um ditado que gosto: toda parede é uma porta. Não vou fugir ou desaparecer ou chorar porque eu ouvi algumas vaias. Não vou desaparecer do túnel. Na próxima partida, serei o primeiro a pisar o gramado. Não tenho medo das minhas responsabilidades. Quando eu tinha 20 anos, era ninguém no futebol. Era o filho de alguém, com muito orgulho. Agora, tenho 55 anos e sou o que sou por causa de trabalho, talento e mentalidade. Eu entendo que durante muitos anos foi muito difícil para as pessoas que não gostam de mim porque era ‘olha ele de novo, ganhando de novo’. Estou há dez meses sem ganhar nada. Ganhei do Liverpool, do Chelsea e perdi do Sevilla, então agora é o momento de eles ficarem felizes. Eu aprendi na minha religião a ser feliz pela felicidade dos outros. Sou um cara muito feliz”, concluiu.
Mourinho reagiu às críticas e tem razão em vários pontos. Ele realmente assumiu um clube que passou por temporadas horríveis, sem direção depois de perder a estrutura de trabalho desenvolvida por Alex Ferguson e precisando de renovação e novas ideias. Mas o problema do trabalho dele não são os resultados, até porque isso é um critério bem objetivo: não é possível negar que os do português são os melhores na era pós-Ferguson.
O problema é o desempenho do time. Não apenas protagonista de jogos chatos, mas também de jogos ruins, como os dois contra o Sevilla, quando não conseguiu levar perigo real ao goleiro adversário até os minutos finais da segunda partida. Aceitando todos os argumentos de Mourinho, já foram feitos investimentos pesados na equipe nesses últimos dois anos, com as chegadas de jogadores muito talentosos, suficientes para que o United, senão alcançar resultados melhores, pelo menos apresentar um futebol melhor.
A distância entre o potencial do elenco e o desempenho do time não é explicada somente pela “herança futebolística”, e o irônico é que o monólogo de Mourinho começou justamente em resposta a uma pergunta sobre o desempenho do time. Ele falou durante 12 minutos e não a respondeu.



