Premier League

Mocinhos e vilões

Quando eu ainda estava na faculdade, fui a uma palestra de Luiz Felipe Scolari. Foi um bate papo bem descontraído com os alunos do curso de Educação Física, mas me intrometi na pequena plateia. O ano era 2000, Felipão estava no Palmeiras e, certamente, nem sonhava em dirigir o Chelsea. Muito menos imaginava que comandaria a Seleção Brasileira na Copa seguinte. Na hora das perguntas, levantei o braço e recebi o microfone: “Felipão, jogador derruba técnico?”. A resposta, com os trejeitos típicos de Scolari, lembro até hoje.

Felipão não estava diante das câmeras de televisão, muito menos conversando com jornalistas. Estava falando para estudantes ávidos por conhecer o mundo do futebol. Sem titubear, deu sua bufada tradicional e respondeu: “Se derruba técnico? Uff… E como! Aparece no dia do jogo com uma dorzinha aqui, outra ali. Se machuca no treino da madrugada, vai treinar e fica só correndo em volta do gramado… Acontece aos montes”. Talvez as palavras não sejam exatamente essas, afinal, o fato aconteceu há 12 anos, mas o conteúdo era esse.

As três vitórias seguidas do Chelsea sob o comando de Roberto di Matteo deixam claro que havia um problema no vestiário dos Blues, e que foi resolvido com a saída de André Villas-Boas. E a partir desse fato, é preciso fazer algumas análises, onde os mesmos personagens são os mocinho e os vilões.

O futebol é, acima de tudo, um jogo que envolve pessoas. Uma disputa onde os jogadores são fundamentais para o resultado final. Meio óbvio isso, certo? Sim, mas nem sempre é para muitas pessoas.

Sou um fanático por estatísticas. Adoro analisar esquemas táticos, usar os números para compreender o que vemos em campo. Só que de nada adianta ter o melhor técnico do mundo, com uma equipe de analistas perfeita,  uma infra-estrutura de treinos invejável, se os jogadores não acreditarem no projeto. Tenho medo de simplificar demais isso, mas se os seres humanos usados para praticar o futebol não confiarem no que lhes é dito, a motivação, a determinação, a vontade de vencer podem ficar no vestiário, bem distantes do gramado.

Qualquer pessoa precisa estar motivada para render no trabalho. Se um caixa de banco acordar mal e resolver que vai apenas contar as horas, a fila do banco vai ficar grande por causa da lentidão do trabalho do caixa. Se um gerente de empresa não confia na capacidade de seu diretor em liderar um grande projeto, ele irá trabalhar desmotivado. No futebol é assim também, os jogadores precisam estar motivados para as partidas e acreditar no trabalho do seu treinador.

Essa confiança é ganha no dia a dia, demonstrando conhecimento tático e técnico, mas também sabendo liderar. O fato de ter jogado futebol ou não é um fator que pode se tornar preponderante somente em um segundo momento, quando a confiança já foi perdida. A partir daí o boleiro pode “crescer” para cima do técnico que não tem tanta experiência ou não jogou bola. Ou que não tem o apoio da diretoria. Nem vou perder meu tempo citando casos de treinadores maravilhosos que nunca chutaram uma bola “oficialmente”.

André Villas-Boas não é um técnico ruim ou uma farsa como muita gente quer apregoar. Nem Roberto di Matteo é o gênio que talvez outros queiram afirmar nos próximos dias. Assim como o elenco do Chelsea não era péssimo como os primeiros pretendiam insinuar e não é o melhor da Champions League agora. É muito bom, e bom o suficiente para bater Birmingham, Stoke e Napoli.

Só que John Terry, Frank Lampard, Didier Drogba e outros veteranos não acreditavam mais no trabalho de Villas-Boas. Talvez nunca tenham acreditado, talvez o português nunca tenha se imposto, talvez… Ninguém saberá ao certo. A verdade é que André Villas-Boas já havia perdido o vestiário, e nesse caso ou sai o técnico ou saem os figurões. Todos já sabem quem saiu, e com Di Matteo, ao que parece, os jogadores voltaram a ter voz ativa – viram Terry, nos últimos minutos da prorrogação, gritando ao lado do treinador suíço/italiano? A tática é primordial, e a motivação também.

O Chelsea ainda não encontrou seu caminho. Tenho a impressão que, na primeira derrota, todos os fantasmas antigos aparecerão e farão a equipe ter uma sequência de resultados negativos novamente. Mas, de qualquer modo, a demissão de Villas-Boas, as vitórias consecutivas de Di Matteo, a raça dos atletas contra o Napoli e a classificação dos Blues às quartas de final da Liga dos Campeões alertam a todos, mais uma vez, que o futebol é um jogo. Um esporte praticado por pessoas, que têm sentimentos, ideias, opiniões próprias. Para o bem ou para o mal, dependerá sempre do seu ponto de vista. Mas, definitivamente, não funcionam pelo controle remoto.

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Equipe Trivela

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