Premier League

Manchester United fechou a porta para o Leeds, que sonhou com a virada e recebeu balde de água fria

Clássico em Elland Road teve de tudo: sangue, barro, muitos gols e tensão na arquibancada

Quando Marcelo Bielsa está no comando de um time na lateral do campo, você pode esperar qualquer coisa. Uma partida valente, competitiva, ou mesmo um espetáculo horroroso com falhas defensivas. Em Elland Road, o clássico que abriu o domingo da Premier League teve um belíssimo jogo entre Leeds e Manchester United, vencido pelos Red Devils pelo placar de 4 a 2, mas com pinceladas do bielsismo clássico, para o bem e para o mal.

Um bom clássico tem todos os elementos que vimos ao longo de 90 minutos de Leeds x United: gols, brigas, sangue, uniformes empapados de lama e tensão entre torcedores. O primeiro tempo, no entanto, não foi uma maravilha técnica ou do entretenimento. O United teve amplo domínio em chances de gol e fez valer a condição superior de seu elenco. Com quase todos os titulares em campo, Ralf Rangnick saiu satisfeito para o intervalo.

E para que Rangnick fique satisfeito, não precisa de muito. O clima não tem sido dos melhores nos vestiários, com relatos de que há grupos em colisão dentro do seu elenco. Assim sendo, como todo especialista faz, Rangnick botou panos quentes na situação e deu moral ao capitão Harry Maguire. O voto de confiança trouxe resultado: depois de um ano sem marcar com a camisa do clube, o zagueiro apareceu e fez de cabeça o primeiro gol da tarde, aos 34. Foi o impulso que o time precisava para fluir melhor em sua fase ofensiva.

Pouco antes do intervalo, que alterou completamente a dinâmica do confronto, Bruno Fernandes completou de cabeça uma jogada muitíssimo bem trabalhada, com triangulação de passes e um cruzamento na medida para que o português fizesse o segundo. Illan Meslier, que vinha fazendo uma partida estupenda, não conseguiu defender a bola que passou debaixo do seu braço. Depois disso, vimos um jogo bastante distinto.

Bielsada protocolar

A defesa do Leeds sofria desde o momento em que Robin Koch cabeceou o ombro de Scott McTominay em uma dividida normal. Só que o alemão teve uma concussão no lance, além de sangrar ininterruptamente no supercílio. Substituído aos 31 minutos por Junior Firpo, Koch foi a grande baixa dos Whites, que até o fim da partida apresentaram problemas defensivos bastante preocupantes. Nada de novo na mesa de Bielsa, aliás. Ele já sabe que o time toma mais gols do que deveria, mas a tendência segue a mesma.

Na volta do intervalo, Bielsa não estava para brincadeira. Era zero a zero para ele. Do alto de seu banquinho na linha lateral, tirou Jack Harrison e Diego Llorente para promover a entrada de Raphinha e Joe Gelhardt, antes do reinício da partida. Com mais presença no meio-campo, graças a Raphinha, o Leeds engrenou. E bateu forte em um relaxado Manchester United. Aos seis minutos da etapa final, Rodrigo Moreno caprichou e meteu um golaço na gaveta de David De Gea. O mais curioso é que o chute parecia bastante um cruzamento que pegou a curva errada. No mais, uma belíssima pintura do espanhol.

Sem sequer respirar aliviado pelo primeiro gol, o Leeds foi lá e fez o segundo. Roubando a bola de McTominay na frente da área, o time da casa rapidamente triangulou a bola dos pés de Daniel James, no canto esquerdo da para o segundo pau. Raphinha correu, acreditou no lance e chegou de carrinho para empatar. Em meio à chuva que caía no Elland Road, o Leeds caprichou e se redimiu com rapidez. Com o relâmpago que trouxe os dois gols, muita gente passou a acreditar que a virada viria. Mas aí os Red Devils de Rangnick lembraram por que é que os Whites estão onde estão na tabela, muito perto da zona de descenso.

Fred saiu do banco para ocupar a vaga de Paul Pogba na metade do segundo tempo e rapidamente provou sua importância. O United soube segurar a posse, incomodar o Leeds e chegar com a bola até a área. A leitura perfeita dos espaços e a movimentação dos visitantes criou um gol belíssimo marcado pelo volante brasileiro, que iniciou a jogada, participou da chegada até a meia-lua e apareceu no canto da área para finalizar. O jovem Anthony Elanga resolveu o confronto restando dois minutos para o apito derradeiro, curtindo uma de centroavante e saindo na cara de Meslier para arrematar.

No fim, o placar foi coerente com o que os dois times apresentaram em campo. O Leeds capitalizou bem melhor seus momentos quando esteve no ataque, mas fez muito pouco defensivamente para impedir os quatro sofridos lá atrás. Esse tipo de situação escancara a diferença entre os clubes na tabela. E se alguém pediu cenas lamentáveis, também tivemos: Firpo se desentendeu com alguns jogadores do United e quase saiu no braço, precisando ser contido na linha lateral. Enquanto isso, nas arquibancadas, torcedores se juravam e combinavam brigas fora do estádio. Ou seja, torcedores ingleses sendo torcedores ingleses.

O United cochilou em campo, mas soube retomar a vantagem, o que anima para o confronto diante do Atlético de Madrid, no meio de semana, pela Liga dos Campeões. Os próximos jogos do calendário exigirão máxima atenção dos Red Devils: Watford, Manchester City, Tottenham, volta contra o Atlético e Liverpool. Exceto o Watford, nenhum desses dará a mesma colher de chá se o United baixar a intensidade.

Ao Leeds, o alerta está ligado. A distância para o Watford, que ocupa a primeira posição da zona de descenso, é de cinco pontos. No entanto, o futebol não é bom e os problemas são os mesmos desde o início da temporada. Bielsa e seus pupilos podem até escapar de um novo rebaixamento, mas precisam de contratações com outro perfil mais competitivo. Isto é, claro, se Bielsa seguir no cargo em médio prazo.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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