Premier League 2026/27

Manchester United x City: Como clássico pode colocar em choque ideias de Carrick e Maresca

City chega ao primeiro clássico da temporada com 100% de aproveitamento, enquanto United aposta em posse, transições e um ataque capaz de explorar os espaços deixados pelo rival

O clássico deste domingo (12), em Old Trafford, entre Manchester United e Manchester City chega com um componente novo. Pela primeira vez na temporada da Premier League, as ideias de Enzo Maresca e Michael Carrick serão colocadas frente a frente em um cenário que pode revelar muito sobre os dois projetos.

O City chega com 100% de aproveitamento. Venceu Bournemouth, Crystal Palace e Coventry e lidera a competição com nove pontos. No meio da semana, ainda bateu o Porto por 2 a 0, fora de casa, na estreia da Champions League, com dois gols de Erling Haaland.

O United, por outro lado, tem quatro pontos depois de três rodadas: perdeu para o Hull na estreia, goleou o Ipswich na sequência e ficou no 2 a 2 com o Everton na última rodada, sofrendo o empate nos acréscimos. O momento não é ruim, mas tampouco transmite a mesma segurança do rival. É nesse cenário que o clássico ganha sua dimensão tática: o City quer controlar; o United tem ferramentas para aceitar períodos de “trocação”.

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O Manchester City de Maresca já sabe onde quer levar o jogo

A primeira grande mudança do Manchester City nesta temporada não está necessariamente no desenho inicial, mas na maneira como a equipe ocupa o campo. Maresca parte de um 4-2-3-1, mas transforma a estrutura com a bola. O time pode formar uma primeira linha de três, organizar dois jogadores atrás da linha da bola e ocupar os cinco corredores ofensivos. A ideia é criar superioridades desde a saída e, depois, encontrar os jogadores entre as linhas.

Não por acaso, os primeiros jogos mostram um City extremamente dominante em posse. Contra o Bournemouth, foram 66,1%; contra o Crystal Palace, 72,3%; diante do Coventry, 77,6%. A vitória por 1 a 0 sobre o Coventry foi ilustrativa. O City terminou com 78% de posse e 15 finalizações. Mesmo assim, a equipe de Maresca permitiu 12 chutes e 1,23 de xG ao recém-promovido, um sinal de que o controle territorial ainda não significa necessariamente controle absoluto das transições. 

Maresca, técnico do Manchester City. Foto: IMAGO / News Images

Esse talvez seja o ponto mais interessante para o clássico. O City vai passar longos períodos com a bola. Isso parece inevitável. A questão é onde o United conseguirá recuperá-la. Maresca quer que seus jogadores estejam próximos o suficiente para construir e pressionar imediatamente após a perda. O objetivo é impedir que o adversário consiga sair.

Quando funciona, o City transforma a própria posse em mecanismo defensivo: recupera rapidamente e reinicia o ataque. Quando não funciona, porém, o espaço às costas dos jogadores mais avançados pode aparecer. E é exatamente aí que o United pode encontrar seu melhor caminho.

O Manchester United não precisa disputar a posse, mas os espaços

O 4-2-3-1 de Carrick parece simples no papel, mas tem uma lógica bastante diferente da estrutura de Maresca. O United quer construir com calma, mas também tem liberdade para acelerar. A estrutura pode formar uma espécie de 2-3-5 com a bola, enquanto os jogadores de meio-campo alternam posições para criar linhas de passe e permitir que os pontas recebam em condições de atacar.

Bruno Fernandes continua sendo o cérebro do time. À sua frente, Matheus Cunha pode sair da referência para participar da construção, enquanto Bryan Mbeumo e Marcus Rashford oferecem velocidade pelos lados. É um quarteto que ainda está procurando automatismos — contra o Everton, por exemplo, houve bons momentos de combinação, mas também sobreposição de funções entre Bruno e Cunha. 

O dado mais importante para entender esse United, porém, aparece nas transições. Nas três primeiras rodadas, a equipe marcou sete gols, teve 68 finalizações, maior número da Premier League, e acumulou 7,3 de xG, o segundo melhor índice da competição.

Não será suficiente perguntar quanto tempo o United terá a bola. A questão será o que acontecerá nos cinco ou dez segundos depois de uma recuperação. Se Bruno Fernandes conseguir receber de frente, Mbeumo puder atacar o espaço atrás do lateral e Rashford tiver campo para correr, o United terá condições de transformar uma partida de domínio territorial do City em um jogo muito mais equilibrado.

A fragilidade que o City pode atacar

Se o United tem uma arma clara na transição, também possui uma vulnerabilidade igualmente evidente. Foram seis gols sofridos nas três primeiras rodadas. Mais significativo: esses gols vieram de apenas 4,1 de xG cedidos. Ou seja, o United está permitindo que adversários transformem oportunidades relativamente pouco perigosas em gols, como chutes de fora da área ou finalizações de ângulos mais fechados, por exemplo.  

E o começo das partidas é outro problema. Três dos seis gols sofridos aconteceram nos primeiros 15 minutos. Contra um Manchester City que costuma tentar instalar-se rapidamente no campo adversário, isso pode ser perigoso.

O City também possui uma arma óbvia para explorar a área: Haaland. O norueguês já marcou três vezes na Premier League e chegou a 300 gols em sua carreira de clubes na vitória sobre o Coventry. Contra o United, o retrospecto também é expressivo: são oito gols em sete jogos de Premier League, embora apenas dois tenham acontecido em Old Trafford.

O mais perigoso para Carrick será permitir que o City consiga movimentar sua última linha antes de encontrar o centroavante. Se os jogadores de Maresca conseguirem receber entre lateral e zagueiro, ou se Haaland conseguir atacar o espaço criado pelas movimentações de Cherki, Foden e companhia, o United será obrigado a defender sua própria área correndo para trás.

Michael Carrick, técnico do Manchester United
Michael Carrick, técnico do Manchester United. Foto: IMAGO / NurPhoto

De outro lado, Rayan Cherki começou a temporada em alto nível: dois gols e duas assistências nas duas primeiras rodadas, desempenho que o colocou entre os jogadores mais produtivos da equipe no início da era Maresca. A característica de Cherki acrescenta algo importante ao City: capacidade de receber entre linhas e, em vez de apenas circular a bola, acelerar a jogada com um passe vertical ou uma condução.

Se Carrick colocar seus dois volantes muito próximos dos zagueiros para impedir a entrada de Haaland e Bruno Fernandes, Cherki pode encontrar espaço na frente deles. Se um volante sair para pressioná-lo, outros jogadores do City poderão atacar o espaço criado.

O City provavelmente terminará a partida com mais posse, mais passes e mais presença no campo de ataque. Contra o Porto, na terça-feira, terminou com 64% e 20 finalizações.  Mas isso não significa que o City terá o controle de todas as ações perigosas.

O United tem uma característica que pode incomodar justamente a partir daquilo que o adversário faz melhor. Quanto mais Maresca empurrar seus laterais e interiores para frente, maior será a necessidade de uma reação perfeita após a perda.

Carrick pode aceitar isso. O United não precisa impedir o City de construir, mas impedir que o City construa com jogadores livres nas zonas decisivas. E, quando recuperar, precisa ser rápido.

Isso também explica por que a ausência de frescor físico pode ser relevante. O United jogará na quinta-feira (10), enquanto o City atuou na terça. São dois dias adicionais de recuperação para o time de Maresca, além da possibilidade de administrar minutos durante o jogo contra o Porto.

Carrick disse que não está preocupado com a situação, mas admitiu que o calendário “não é o ideal”. Em um jogo que pode ser decidido por intensidade, pressão e velocidade de transição, essa diferença não é irrelevante.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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