Premier League

CEO do Liverpool explica sucesso do clube: “Perguntamo-nos ‘O que Bill Shankly faria?'”

Depois de anos de insucesso, o Liverpool, devagar e consistentemente, se reergueu novamente como uma das maiores forças da Inglaterra e da Europa. Parte dessa reconstrução passou pela contratação de Jürgen Klopp. Outra parte se deu a partir do sistema de observação de jogadores implementado pela administração atual. Mas, por fim, o aspecto que permeou toda a cultura de transformação veio de um tempo distante, influenciado pelo socialismo de Bill Shankly. É o que garante o diretor executivo do clube, Peter Moore.

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Em entrevista ao jornal espanhol El País, Moore tentou explicar o sucesso do Liverpool. O dirigente, nascido em Liverpool, construiu sua fama fora do futebol antes de chegar para o quadro de executivos dos Reds. Foi presidente da SEGA nos Estados Unidos, vice-presidente sênior de marketing na Reebok, VP da divisão de entretenimento interativo da Microsoft, à frente dos projetos do Xbox e do Xbox 360, e, por fim, diretor de operações da Electronic Arts e líder da divisão de jogos da EA Sports. Os anos de carreira lhe permitiram chegar com muitas credenciais ao time de sua cidade, quando se tornou o CEO do Liverpool, em fevereiro de 2017. E ele tinha um desafio: entender o que significava o clube.

“Como especialista em marketing, queria saber exatamente o que (o Liverpool) significava. Dizer que o Liverpool é único não significa muito. Real Madrid e Barcelona, Dortmund e Bayern também são especiais. Então, como destilamos isso?”

Moore aponta então para o passado, para uma das figuras mais emblemáticas da história da instituição: Bill Shankly. O técnico dos Reds entre 1959 e 1974 foi responsável por tirá-los da segunda divisão, quebrar um jejum de 17 anos sem títulos ingleses e conquistar a primeira Copa da Inglaterra e o primeiro título europeu da história do clube – a Copa da Uefa de 1973. Mais do que isso, Shankly foi a força motriz por trás da modernização das infraestruturas e estabeleceu métodos de treinamento e princípios que permeariam o sucesso do Liverpool até o final da década de oitenta.

“Tivemos esta incrível figura histórica: Bill Shankly, um socialista da Escócia que construiu as fundações. Ainda hoje, quando falamos de negócios, nos perguntamos: ‘O que Shankly faria? O que diria Bill nesta situação?’ Ele era um verdadeiro socialista que acreditava que o futebol era sobre trabalhar juntos. No departamento de marketing, nos reunimos e dissemos: ‘Vamos colocar isso em palavras’. A conclusão foi que a ideia essencial do Liverpool é que isso significa mais. Mais do que ganhar ou perder. Mais do que ir ao futebol, nos reunirmos no bar e ir para casa”, definiu.

Moore afirma que, para alcançar a dimensão de mito, os clubes precisam de uma cultura de sucesso. E que, no caso do Liverpool, a que Shankly incutira havia sido o que ele definia como socialismo – “mas não num sentido político, mas, sim, num sentido de solidariedade”, acrescenta.

“Há uma faixa na Kop que diz: “A união faz a força”. Liverpool é uma cidade socialista, de tradição operária, muito próxima do porto. Já foi o porto mais movimentado do planeta. Isso mudou, mas o sentido de unidade e insularidade permanece, até certo ponto. As pessoas muitas vezes se veem como liverpuldianas, não necessariamente como inglesas. É estranho.”

Basicamente, diz Moore, a cultura é fortalecida por um sentimento que Shankly expressou na ideia de trabalhar em conjunto no campo, sob a máxima de tocar a bola e se movimentar no gramado. “Tem uma música da torcida há 60 anos que descreve esse estilo como ‘poesia em movimento’. Não é exatamente o tiki-taka. Mas acontece quando o jogo flui livremente, com contra-ataques muito rápidos. É a nossa marca”, contextualiza o CEO.

Nada melhor para essa cultura socialista de Shankly nos Reds, então, do que ter um técnico socialista como Jürgen Klopp. “Ele já é um clássico de Liverpool. Ele se inclina mais para a esquerda do que para a direita. Shankly disse uma vez: ‘Fui feito para o Liverpool, e o Liverpool foi feito para mim’. Klopp pode dizer exatamente a mesma coisa”, crava Moore.

O dirigente vê que Klopp sabe perfeitamente o papel que o futebol tem na cidade. Se antes o símbolo dela eram os Beatles, hoje é o esporte praticado em Anfield, avalia. “Ele entende perfeitamente os elementos socialistas que permeiam o clube e a cidade, os desafios que empolgam e o que o clube significa para muitas pessoas que não tiveram a oportunidade de ter algo melhor na vida do que seu amor pelo clube.”

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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