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Liverpool deixou o Manchester United atordoado em Anfield e conseguiu a maior goleada da história do clássico

Gakpo, Núñez e Salah marcaram duas vezes cada, e Firmino fechou um placar histórico que era muito difícil de imaginar antes da partida começar

Clássicos são confrontos independentes. O momento dos times nem sempre entra em campo. A rivalidade iguala as forças. Mas mesmo nesse universo especial, era impossível imaginar o que aconteceria neste domingo em Anfield. O Manchester United estava embalado. Quebrou jejum de títulos no último domingo e conseguiu uma ótima virada sobre o West Ham no meio de semana. O Liverpool estava em ligeira recuperação e o prognóstico mais preciso seria um jogo equilibrado, com ligeiro favoritismo aos visitantes. Não foi bem isso que aconteceu: Cody Gakpo, Darwin Núñez e Mohamed Salah marcaram duas vezes cada, e Roberto Firmino saiu do banco reservas para fechar a maior goleada da história centenária do maior clássico da Inglaterra. O Liverpool venceu o Manchester United por 7 a 0.

O placar mais amplo do duelo entre os dois gigantes do noroeste do país havia acontecido em outubro de 1895, um 7 a 1, também em Anfield. Foi pela segunda divisão, e o Manchester United ainda se chamava Newton Heath. Segundo a Opta, foi a maior derrota do clube em uma partida oficial, ao lado de goleadas para Wolverhampton (1931), Aston Villa (1930) e Blackburn (1926). O United não concedia sete gols em uma partida de liga inglesa desde que perdeu por 7 a 3 para o Newcastle em 2 de janeiro de 1960, de acordo com o Misterchip. Esses números dão a medida do que aconteceu em perspectiva histórica.

Para efeitos imediatos, ainda é impossível medir o impacto que um resultado desse tamanho pode ter. O Liverpool estava dando sinais de recuperação. Havia ganhado três das últimas quatro rodadas da Premier League, sem sofrer gols, o que era um ótimo sinal para uma defesa que teve tantos problemas nos últimos meses. A derrota para o Real Madrid pela Champions League impediu que houvesse muita empolgação, mas…. bom, agora ela é inevitável. Pode ser um divisor de águas principalmente no aspecto psicológico, e não apenas porque jogadores contestados, como Cody Gakpo e Darwin Núñez, foram essenciais na construção do placar.

E porque Mohamed Salah voltou a parecer o Mohamed Salah que encantou as arquibancadas de Anfield. Marcou duas vezes e chegou a 129 gols em partidas de Premier League pelo Liverpool, batendo o recorde da era moderna do futebol inglês que pertencia a Robbie Fowler. Também deixou Lisandro Martínez na saudade antes de dar a assistência para Gakpo fazer o terceiro gol. O Liverpool como um todo pareceu uma equipe reenergizada, correndo até o fim por todas as bolas, pressionando e contra-atacando em velocidade, como se acostumou a fazer durante a era Jürgen Klopp.

Ao Manchester United, será difícil ter a visão mais ampla da temporada porque foi um golpe duro ao seu orgulho. Ele estava ferido pelas duas goleadas sofridas para o Liverpool na edição passada da Premier League e a vitória em Old Trafford no último mês de agosto teve um gostinho especial. Estava embalado, após conquistar a Copa da Liga Inglesa, confortável dentro do G4 e começava a sonhar com uma briga pelo título. A maneira como ficou atordoado diante da atuação avassaladora do Liverpool e não conseguiu reagir ou estancar a sangria não é tão preocupante quanto os efeitos que essa derrota pode ter ao moral do vestiário daqui para a frente.

Porque a derrota histórica não pode apagar o que foi construído por Erik ten Hag nos últimos meses. O Manchester United continua no caminho certo, continua tendo uma identidade e um time muito forte que ainda pode conquistar a Copa da Inglaterra e a Liga Europa, além da vaga na próxima Champions League, se conseguir deixar para trás uma tarde de domingo desastrosa em Anfield. É óbvio que a diferença entre os dois rivais não é tão grande quanto o placar mostra. Sequer existe neste momento, mas o Liverpool era um time mordido que reencontrou a sua velha forma no momento certo e parece ter surpreendido um United que vinha em uma maratona de jogos decisivos.

À tabela, o resultado foi essencial para a candidatura do Liverpool ao quarto lugar. Tottenham e Newcastle perderam no fim de semana, e agora os Reds estão em quinto lugar, à frente dos Magpies (que têm um jogo a menos) e a apenas três pontos dos Spurs (que têm um jogo a mais). E o United, em terceiro lugar, finalmente aparece no horizonte. Estacionou em 49 pontos e tem apenas sete de vantagem para o seu grande rival nacional.

Escalações

Finalmente livre da maioria dos seus problemas físicos, Jürgen Klopp conseguiu escalar o que parece ser força máxima neste momento, considerando lesões mais sérias de Thiago e Luis Díaz. Konaté continuou fazendo dupla de zaga com Virgil Van Dijk, Harvey Elliott formou o meio-campo com Fabinho e Jordan Henderson, e o ataque teve Mohamed Salah, Cody Gakpo e Darwin Núñez. Erik ten Hag também não inventou. Teve a defesa habitual, com Fred e Casemiro como volantes, e um setor ofensivo com Antony, Wout Weghorst, Bruno Fernandes e Marcus Rashford.

Primeiro tempo

O Liverpool começou melhor. Dominou aproximadamente os primeiros 25 minutos, mas estava um pouco perfeccionista demais nas finalizações. A primeira chegada foi com Elliott, que encontrou espaço na entrada da área e parou na defesa do United. Mesmo nesse período, os visitantes encaixavam algumas esticadas, como a que terminou com um chute colocado de Antony que Alisson foi buscar no canto. Após uma finalização travada de Henderson, aos 18 minutos, a bola sobrou para Salah, Elliott e Núñez pela direita da grande área. O uruguaio foi quem recolheu e mandou para fora.

Robertson pareceu animado desde o início. Recebeu o passe de Alexander-Arnold em transição, aos 22, invadiu a área e abriu à perna direita. Também parou em um bloqueio do United. Depois, tabelou com Elliott e cruzou para o meio da área, onde Núñez conseguiu o desvio, mas foi travado na hora certa por Lisandro Martínez. Foi o último lance de perigo antes de o Manchester United conseguir devolver alguns socos com mais frequência.

A melhor chance antes do gol foi criada aos 26 minutos, em um cruzamento de Diogo Dalot. Bruno Fernandes apareceu nas costas de Arnold e cabeceou cruzado, de peixinho, bem perto da trave esquerda de Alisson. No minuto seguinte, Rashford encontrou um lançamento entre os marcadores e chegou batendo de chapa de primeira. Não pegou em cheio e facilitou a defesa de Alisson. Dalot também mandou nas mãos do goleiro brasileiro, e o United começava a se encontrar em campo.

Chegou a botar a bola nas redes, com uma cabeçada de Casemiro, que estava um oceano e meio impedido em uma cobrança de falta. O gol foi anulado. Logo depois, Alisson lançou na esquerda para Robertson, que dominou e levou para dentro. Brecou e esperou a hora certa de enfiar, no contrapé de Fred, para a projeção de Gakpo. O holandês dominou abrindo para a perna direita e tirando Varane, antes de bater colocado no outro canto e levar o Liverpool ao intervalo em vantagem.

Segundo tempo

E aí, o velho Liverpool voltou a aparecer.

Em seu auge, o time de Jürgen Klopp teve várias facetas, mas a pressão e o contra-ataque sempre foram as situações em que mais conseguia ser devastador. Logo no primeiro minuto do segundo tempo, Elliott interceptou um passe de Shaw. Fabinho mandou para o meio, Henderson brigou, Fabinho brigou, todo mundo brigou, até o brasileiro dar o passe por elevação para Salah. O cruzamento parou em Shaw e voltou para Elliott. O novo centro, à meia-altura, encontrou a cabeça de Núñez para o 2 a 0.

E logo em seguida, um daqueles contra-ataques típicos, que começam no campo de defesa. Gakpo lançou Salah na ponta direita. O egípcio ficou no mano a mano com Martínez, que fazia boa partida, e faz grande temporada, e fez uma ótima Copa do Mundo, e ficou com o bumbum no chão diante do rápido jogo de pés do adversário que terminou com o passe rasteiro para Gakpo. Sem ângulo, o holandês tocou por cima na saída de De Gea fez o terceiro gol do Liverpool.

A vitória, em si, estava bem encaminhada. Mas um time que sofreu tantos desagravos nesta temporada não quis tirar o pé do acelerador. Gakpo fez um brilhante trabalho de pivô na marca do pênalti antes de rolar para Robertson chegar batendo de perna direita, para fora. Em cobrança de escanteio, Konaté desviou muito perto do pé da trave. O Manchester United estava atordoado. Ficou visível em algumas ações defensivas precipitadas e nervosas.

E o Liverpool continuava com sangue nos olhos. Aos 20 minutos, outro contra-ataque. Núñez recebeu pela esquerda e tentou o passe pelo centro. A bola voltou para ele que emendou com Salah que, do meio da grande área, encheu o pé de perna direita e ainda acertou o travessão antes de fazer o quarto gol do Liverpool e igualar Robbie Fowler como o maior artilheiro dos Reds na era Premier League.

O United conseguiu estancar um pouquinho a sangria, por alguns instantes, lançando Rashford na cara do gol duas vezes. A primeira seria anulada por impedimento, embora tenha havido uma recuperação fantástica de Arnold para desarmá-lo que ilustrou a determinação com que o Liverpool entrou em campo, e a segunda terminou com um chute no pé da trave, após driblar Alisson. Mas o Liverpool não estava satisfeito e, após uma cobrança de falta de Arnold, Henderson foi buscar na ponta esquerda e cruzou com precisão para Núñez desviar de cabeça e marcar o quinto.

Mas o Liverpool ainda não estava satisfeito. Elliott recebeu bom passe de Milner e apareceu livre na ponta direita. Ele acionou Roberto Firmino, que havia entrado no lugar de Gakpo. O brasileiro perdeu o controle, a bola seguiu viva e Jota o carimbou com uma bicuda. A sobra ficou com Salah, que apenas empurrou ás redes. Ainda dava tempo de fazer história.

E é legal que tenha acontecido pelos pés de Firmino, um jogador tão importante do Liverpool que, segundo relatos da imprensa publicados nesta semana, não renovará o seu contrato, em busca de novas aventuras. Ainda retornando após um período afastado por problemas físicos, o brasileiro recebeu o passe de Salah no meio da área, dominou perdendo um pouco o ângulo, e conseguiu bater cruzado e rasteiro para vencer De Gea e dar números finais ao placar.

E nunca, em uma história de mais de 100 anos, os números finais de um placar entre os dois maiores clubes da Inglaterra foram tão amplos quanto os deste domingo.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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