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Leicester e outros clubes aproveitam os 80 anos de Guernica para abraçar refugiados

Foram cerca de três anos de Guerra Civil Espanhola. Três anos em que as forças aéreas alemã e italiana, aliadas a Francisco Franco, quem operava a tentativa de golpe de estado que veio a acontecer no final do conflito, bombardearam diversas cidades da Espanha como tática militar. O episódio mais conhecido é o de Guernica, que virou um dos principais objetos de estudo sobre a guerra e foi retratado por Pablo Picasso em uma das pinturas mais emblemáticas de sua carreira e da arte do século XX. A cidade da província de Biscaia, no País Basco, ficou em chamas e foi completamente devastada pelo ataque, com pesquisas espanholas recentes apontando o número de mortos como 126. Nesta quarta, completam-se 80 anos desde o bombardeio à Guernica, e alguns clubes ingleses, como o Leicester, estão aproveitando a data para homenagear refugiados que se instalaram no Reino Unido.

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A Inglaterra era o destino menos lógico para os exilados espanhóis que apoiavam a causa republicana naquela época, uma vez que o governo de Stanley Baldwin era a favor de Franco no poder da Espanha. Mesmo assim, muitas pessoas fugiram do cenário bélico e da represália do regime franquista, instaurado ao final da guerra, em 1939. Durante o conflito, o governo britânico não quis oferecer abrigo aos civis, a princípio. Mas o clamor popular na Inglaterra foi tamanho, que Baldwin acabou cedendo e tendo compaixão para com os refugiados. Um mês após o bombardeio à Guernica, o navio La Habana partiu da cidade de Bilbao carregando mais de 4 mil crianças e adolescentes bascos em direção a Southampton, na costa sul inglesa, e o primeiro-ministro permitiu que elas crianças ficassem em um acampamento temporário em Hampshire.

As crianças cresceram no Reino Unido e muitas delas voltaram para onde a Espanha quando acharam seguro o fazer. Ou seja, quando o período autoritário na Espanha teve um fim. Mas muitas também fizeram decidiram fazer da Inglaterra seu lar para valer, e optaram por não voltar. Alguns adolescentes até lutaram no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Seis desses bascos que se abrigaram em solo inglês acabaram se tornaram jogadores de futebol profissionais de clubes como Wolverhampton Wanderers, Brentford e Coventry City. Isso sem mencionar os adultos que fugiram do franquismo. A maior parte deles era composta por pessoas de alto nível profissional. Médicos renomados, políticos republicanos, literatos, professores de Direito, de Engenharia, de Filosofia e etc fugiram para a Inglaterra na época.

Os ingleses vêem esse fluxo migratório até hoje como algo muito positivo, porque esses civis que detinham certo status de conhecimento ajudaram no desenvolvimento do país de alguma forma. As próprias crianças também o fizeram, representando o Reino Unido durante a Segunda Guerra e outras coisas. É pela contribuição que refugiados fizeram e podem continuar fazendo à Grã-Bretanha que clubes de futebol estão destacando a data de aniversário do bombardeio à Guernica. E este destaque inclui desde promover atividades voltadas para jovens refugiados até dar ingressos para algum jogo do time. É isso que o Leicester, o Queens Park Rangers e outros clubes de divisões inferiores estão fazendo, e o que outras agremiações inglesas, como o Stoke City, por exemplo, estão interessados em fazer também.

Essa homenagem aos refugiados espanhóis e forma de abraçar os imigrantes que hoje tentam um recomeço no país é um braço da campanha Football Welcomes, coordenada pela Anistia Internacional e apoiada por diversos clubes, incluindo da liga feminina de futebol da Inglaterra. Clubes como o Arsenal, o Everton e o Hull City também têm se mostrado solidários e promovido atividades para os refugiados nos últimos tempos. O Leicester vem trabalhando desde o ano passado em nome da causa de apoiar essa integração desses imigrantes, com diversos projetos relacionados a isso. “É um jeito de ajudar os não-refugiados a entenderem que refugiados não estão aqui para causar problemas, mas porque aqui é um lugar seguro”, explicou ao Guardian James Lowbridge, que trabalha no setor social do Leicester.

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Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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