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Havertz no Arsenal: híbrido de camisa 9 e 10 que dá opções para Arteta

Contratado como potencial estrela em 2020 pelo Chelsea, Havertz não entregou o que se esperava e chega ao Arsenal com a oportunidade de mostrar que pode florescer

Era uma transferência falada há semanas, mas nesta quarta-feira o Arsenal enfim oficializou a contratação de Kai Havertz, do Chelsea. O atacante, de 24 anos, chega por £65 milhões (€75 milhões), sendo £62 milhões pagos inicialmente e outros £3 milhões em cláusulas adicionais de desempenho. Ele assinou contrato até 2028 com os Gunners. Ele vestirá a camisa 29, o mesmo número usado no Chelsea e no Bayer Leverkusen.

O acordo já tinha sido fechado na última semana e ficaram pendentes os exames médicos do jogador, que aconteceram no fim de semana. Assim, o anúncio foi realizado nesta quarta-feira e já era muito esperado pelos torcedores.

“A mentalidade aqui no elenco do Arsenal é muito alta e você pode sentir isso”, afirmou Havertz. “Essa foi uma das razões de por que tem sido tão difícil jogar contra o Arsenal recentemente”.

“O objetivo é ganhar títulos e darei tudo para fazer isso pelos torcedores e por todo mundo no clube. Estou ansioso para encontrar todos os jogadores e a comissão técnica quando voltarmos para a pré-temporada”, disse ainda Havertz.

“Kai é um jogador de qualidade alta”, afirmou Mikel Arteta, técnico do Arsenal. “Ele tem grande versatilidade e é um jogador inteligente. Ele trará uma grande quantidade de força extra para o nosso meio-campo e variar o nosso estilo de jogo”.

A contratação de Havertz pode surpreender por ele chegar do Chelsea, mas era um jogador monitorado pelo Arsenal desde muito cedo, antes mesmo dele estrear no Bayer Leverkusen, aos 17 anos. O jogador era promissor desde as categorias de base e surgiu já como um fenômeno que se realizou no time principal do Leverkusen.

Decepção no Chelsea

  • Contratado por £75 milhões pelo Chelsea vindo do Bayer Leverkusen em 2020
  • Fez 139 jogos pelo Chelsea, com 32 gols e 15 assistências
  • Gols decisivos na final da Champions League e do Mundial de Clubes
  • Vai para o Arsenal por £65 milhões e a sensação que nunca foi o que se esperava dele

Contratado por um valor astronômico em 2020, £75 milhões, Havertz fez 139 jogos pelo Chelsea, marcou 32 gols e deu 15 assistências. Fez o gol do título da Champions League na temporada 2020/21, em uma final contra o Manchester City, e também marcou o gol do título do Mundial de Clubes, em 2022 (relativo à edição 2021).

Apesar desses gols decisivos, dá pra dizer com tranquilidade que Havertz ficou abaixo do que se esperava dele em Stamford Bridge. O jogador chegou como uma contratação para se tornar um dos melhores jogadores da liga e ser decisivo. Por mais que tenha ocupado uma posição de titular em basicamente toda a sua passagem pelos Blues, raras vezes conseguiu entregar o nível de futebol que se esperava dele.

É verdade que as circunstâncias não ajudaram tanto. Havertz chegou no mesmo mercado de Timo Werner, que era para ser o centroavante do time. O seu compatriota teve atuações fracas e nunca convenceu atuando no centro do ataque. Assim, foi Havertz o deslocado para atuar por ali, como já tinha feito no Bayer Leverkusen e também faz na seleção alemã.

A chegada de Romelu Lukaku em 2021 era para significa que Havertz voltaria à sua posição, de um meia-atacante, ou um segundo atacante. Só que Lukaku, tal qual Werner, nunca conseguiu entregar o desempenho esperado, teve lesões e no fim acabou no banco. Havertz novamente se tornou o titular da posição, mas sem render como se esperaria de alguém do seu nível.

Na última temporada, atuando primariamente como centroavante, marcou nove gols em 47 jogos em todas as competições. Uma temporada que o Chelsea foi muito mal e terminou no meio da tabela da Premier League, sem que quase ninguém se salvasse das péssimas atuações que a equipe teve ao longo do ano.

É o mesmo problema que Havertz vive na seleção alemã. Como centroavante, ele tem rendido muito pouco. Suas melhores atuações são quando ele tem a companhia de um camisa 9 mais típico, como Niclas Füllkrug (viu, Hansi Flick). Seu rendimento costuma ser melhor atuando mais livre, vindo com a bola dominada ou atacando espaços para entrar na área do que recebendo de costas para o gol, ainda que ele seja ótimo na bola aérea e possa disputar no físico.

Havertz deixa o Chelsea em uma posição curiosa. Será sempre lembrado pelo gol marcado no Estádio do Dragão, no Porto, quando cravou o título da Champions League diante do Manchester City. O gol na final do Mundial também é bem relevante. Só que há pouco a falar além disso e a sensação é que o jogador tinha muito mais potencial do que mostrou.

Há uma dúvida se ele simplesmente não era tão bom quanto parecia ou se o ambiente não permitiu que ele fosse tudo que se esperava. Uma dúvida que ajudará a ser respondida mudando o ambiente.

Onde Havertz se encaixa no Arsenal?

  • Híbrido de camisa 9 e camisa 10
  • Meio-campista que gosta de entrar na área
  • Pode atuar como centroavante, mas rendimento nessa posição não foi bom
  • Agilidade e velocidade combinam bem com Martinelli, Saka e Jesus

O técnico Thomas Tuchel, que trabalhou com Havertz no Chelsea, definia o jogador como um híbrido entre um camisa 9 e um camisa 10. “Mais ou menos, sou um meio-campista, mas gosto de entrar na área. Quando você tem a bola, você tem que se adaptar à sua posição e essa é a minha personalidade em campo”, afirmou o próprio jogador, em 2021.

Havertz tem jogado consistentemente como camisa 9, mas essa é claramente uma posição que ele não exerce o seu melhor. Ele é um jogador alto, com 1,93 metro, e tem muita qualidade técnica com a bola. É um jogador de bons passes, que consegue fazer boa movimentação, trocar passes, tabelas e chegar de frente na área.

Ele é um jogador que gosta de atacar espaços, o que é muito difícil como centroavante em uma equipe como o Chelsea, que normalmente encontra times que oferecem pouco espaço e se defendem bem mais atrás.

Isso faz com que Havertz possa operar tanto como um meia avançado, atrás de um centroavante – algo que ele gosta e que o ajuda a subir de rendimento – como quanto um segundo atacante. Com isso, o time pode variar de um 4-2-3-1 para um 4-4-2. No Chelsea, ele chegou a atuar em um ataque com três jogadores, sendo ele e João Félix mais recuados por dentro com Raheem Sterling mais avançado.

Evidentemente, Havertz também pode fazer o papel de centroavante na ausência de Gabriel Jesus, por exemplo, como aconteceu na última temporada da Premier League – e custou aos Gunners, que tiveram um esforçado Eddie Nketiah, mas que não entregava a mesma qualidade do brasileiro.

Havertz, embora muito alto, é um jogador ágil e rápido, que consegue atuar em passes em velocidade e tem capacidade de achar bons passes. Por isso, a sensação que dá é que ele pode se encaixar muito bem com os velozes pontas do Arsenal, Bukayo Saka e Gabriel Martinelli. Também deve se dar bem com Gabriel Jesus, um centroavante móvel e que consegue cair pelos lados do campo e abrir espaços – que ele mesmo pode aproveitar na área.

Sua condução de bola em velocidade, com muita qualidade técnica no pé esquerdo, pode ajudar o Arsenal a fazer transições mais rápidas da defesa para o ataque e também abrir espaços reduzidos nas defesas adversárias. Isso, claro, pensando nas situações ideais. Pode ser um jogador que substitua tanto Martin Odegaard quanto Gabriel Jesus, ou mesmo ajude a dar uma flexibilidade tática maior para Mikel Arteta, que atuou a Premier League toda no mesmo esquema tático.

Independentemente da posição que ele pode atuar, Havertz traz profundidade ao elenco do Arsenal, algo que ficou evidente que faltava para o time ao longo da disputa com o Manchester City. Enquanto o time de Pep Guardiola podia mudar o seu elenco com tranquilidade, dando muitos minutos para jogadores diferentes, o Arsenal sentia muito as mudanças no time titular, porque os reservas não estavam à altura.

Com a flexibilidade de Havertz, o time ganha opções para a escalação em muitos jogos que não terá algum dos seus jogadores. O Arsenal foi o time que mais repetiu escalações na última edição da Premier League, 13. Foi o time, em média, que menos mudou de um jogo para outro. O Manchester City não repetiu escalações de um jogo para outro nenhuma vez em toda a Premier League, uma demonstração que o elenco de Guardiola era mais encorpado e mais capaz.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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