Premier League

Guia da Premier League 2020/21 – Burnley: O horror de apenas existir

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Cidade: Burnley
Estádio: Turf Moor (22.000 pessoas)
Técnico: Sean Dyche
Posição em 2019/20: 10º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Will Norris (Wolverhampton)
Principais saídas: Jeff Hendrick (Newcastle), Joe Hart (Tottenham), Aaron Lennon (Kayserispor-TUR)

Há poucas sensações piores no futebol do que a de estar empacado. O esporte é essencialmente entretenimento e emoção, e eles podem vir em lutas desesperadas nas partes de cima ou de baixo da tabela. Por mais importante que seja uma administração consciente das suas limitações, sustentável, sóbria, exemplar, é natural que bata um comichão quando sua equipe está presa no meio do caminho. Esse comichão parece ter chegado a Sean Dyche na última temporada, sua oitava no comando do Burnley, a quarta seguida do clube na Premier League.

Com a queda do Bournemouth e a saída de Eddie Howe, Dyche é o treinador mais longevo da elite inglesa. Conseguiu duas campanhas entre os dez primeiros, incluindo um sétimo lugar com vaga na Liga Europa. Feito notável para um clube que praticamente não gasta. O saldo do mercado de transferências nesses quatro anos é de menos € 60 milhões. Entre os clubes que disputarão a próxima edição do Campeonato Inglês, balanço semelhante ao do Crystal Palace e apenas Newcastle e Southampton gastaram menos. Estabelecer-se entre o meio e a parte de cima da tabela da liga mais rica do mundo investindo € 15 milhões por ano não é fácil.

Dyche conseguiu porque consistentemente faz com que o Burnley seja, coletivamente, um produto melhor do que as suas partes individuais. Tem uma cultura rígida de trabalho duro, espírito de grupo e determinação, e um estilo de jogo que é muito bem definido, eficiente e terrivelmente simples: todo mundo defende com afinco, todo mundo corre bastante, bola longa para os dois atacantes altos e fortes sempre que puder e não há vergonha nenhuma em cobrar faltas da linha do meio-campo direto para a área.

Por um lado, casou perfeitamente com o modelo de negócios comedido do Burnley. Por outro, representa um teto. Até onde pode chegar um time que atua dessa maneira e recebe tão poucos investimentos? O sétimo lugar parece realmente o limite e há uma cruel contradição no fato de a Liga Europa, que poderia ser um objetivo concreto e uma experiência divertida para o clube, tenha se tornado um estorvo que criou um risco real rebaixamento, por causa do excesso de partidas. E se a conclusão é que disputar a Liga Europa mais atrapalha do que ajuda, qual o sentido da vida para um clube como o Burnley?

Dyche talvez tenha feito essa reflexão. Os cargos aos quais mais foi relacionado nos últimos anos parecem preenchidos em médio prazo – Everton, com Carlo Ancelotti, e Leicester, com Brendan Rodgers. O seu estilo não é atraente para o top seis, com cobrança não apenas por resultado, mas também por uma experiência mais plástica. Poderia tentar a sorte em clubes que estão esportivamente atrás do Burnley, como West Ham, Newcastle ou Aston Villa, mas, por serem de centros maiores, têm mais potencial de crescimento. Mas também não parece ser um cara que aceita mudanças com muita naturalidade. O que lhe restou fazer foi cobrar mais respaldo da diretoria, depois de cinco jogadores do seu time entrarem nos últimos 15 dias de seu contrato, em meio aos jogos da retomada da Premier League.

Uma declaração em especial naquele período foi reveladora: “O clube tem uma maneira de trabalhar há muito tempo. Estou dizendo há 18 meses que precisamos esticar nossas finanças sem quebrar a estrutura do clube. Estamos em uma posição muito forte financeiramente – mesmo com tudo que está acontecendo. O risco é que, se você não colocar dinheiro suficiente, pode ter problemas. Se colocar demais, também pode ter problemas. Encontrar o equilíbrio é complicado”.

Parte da insatisfação de Dyche é que a diretoria deixa os contratos expirarem, sem alinhar reposições, que frequentemente precisam ser buscadas na Championship. E mesmo quando não saem de graça, o Burnley não consegue fazer grandes vendas para dar um pouco mais de recursos a Dyche. Michael Keane foi a maior delas, mas € 28 milhões no mercado de hoje em dia é quase nada. Tom Heaton, Danny Ings, Kieran Trippier e Sam Vokes saíram por menos de € 10 milhões. Daqueles cinco jogadores citados acima, três foram embora de graça – Jeff Hendrick, Joe Hart e Aaron Lennon.

A cobrança de Dyche faz sentido. Construiu um Burnley muito regular, que perdeu dez jogos em 14 rodadas entre outubro e janeiro, não se desesperou e se recuperou para não apenas escapar do rebaixamento, como ainda terminar em décimo lugar. Se tivesse um pouco mais de condições, talvez pudesse fazer uma tentativa séria de entrar no top seis ou pelo menos ter elenco para poder desfrutar mais das copas, ou de uma eventual Liga Europa. A cobrança de Dyche também ainda não fez efeito. Na semana em que a nova temporada começa, apenas uma contratação foi feita: Will Norris para ser um dos reservas de Nick Pope no lugar de Hart, provavelmente atrás do jovem Bailey Peacock-Farrell.

O resto do time segue o mesmo, sem novidades. Pope é um dos goleiros mais confiáveis da Inglaterra. A defesa é sólida com Ben Mee e James Tarkowski. Phil Bardsley e Matthew Lowton dividem minutos na lateral direita. Charlie Taylor e Erik Pieters fazem o mesmo na esquerda. Ashley Westwood e Jack Cork seguram a bronca no meio-campo, e Dwight McNeil é a principal força criativa pelo lado esquerdo. As saídas de Aaron Lennon e Hendrick talvez abram mais espaço para Gudmundsson, pela direita. O ataque ideal tem Ashley Barnes e Chris Wood. Jay Rodríguez fez um bom trabalho quando precisou substituir Barnes, machucado. Sua última partida foi em janeiro, e o Burnley ter conseguido manter um alto nível mesmo sem seu melhor atacante é uma grande confirmação do trabalho de Dyche e da estabilidade do seu projeto.

Seres humanos, porém, são naturalmente ambiciosos. As cobranças de Dyche podem ser um primeiro sinal de que ele percebeu seu futuro em outro lugar. A posição da diretoria não é das melhores também. Há inúmeros exemplos na Premier League que tentaram dar um passo maior que a perna, tropeçaram e voltaram algumas casas. O próprio Bournemouth, com projeto similar, gastou mais, gastou errado e caiu em uma temporada cheia de problemas. Navegar entre a segurança de um projeto humilde e os altíssimos investimentos necessários para subir de patamar é o grande dilema do meio da tabela do futebol inglês. Como disse Dyche, há riscos nas duas abordagens, e o Burnley parece estar se aproximando de um momento de definição.

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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