Premier League

Guia da Premier League 2020/21 – Aston Villa: Contratar menos e melhor (e manter Grealish)

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Cidade: Birmingham
Estádio: Villa Park (42.600 pessoas)
Técnico: Dean Smith
Posição em 2019/20: 17º colocado
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Matty Cash (Nottingham Forest), Ollie Watkins (Brentford)
Principais saídas: Borja Bastón (Leganés-ESP), James Chester (Stoke City), Matija Sarkic (Wolverhampton), Rushian Hepburn-Murphy (Pafos- CYP)

Um novo game show. Por cinco reais em barras de ouro que valem mais do que dinheiro, quantas contratações feitas pelo Aston Villa na última temporada você lembra de cabeça? Quem acertar dez fez um bom trabalho porque foram 16 no total, contando as de janeiro que derivaram do pânico e de lesões de longo prazo de jogadores importantes. A questão antes da temporada passada era se o Villa “faria o Fulham”, ou seja, compraria reforços demais e acabaria rebaixado. Por mais que houvesse diferenças sensíveis na política de mercado dos dois clubes, o resultado acabou quase sendo o mesmo. O campeão europeu estava a quatro pontos da salvação a quatro rodadas do fim e há dez jogos sem vencer pela liga. De alguma maneira, arrancou dois empates e duas vitórias, uma contra o Arsenal, e respirou aliviado. Agora, tem a chance de construir em cima de uma base que ganhou experiência de Premier League.

Essa é a boa notícia. A má notícia é que essa base não é lá muito grande e pode ficar menor se nomes cobiçados no mercado como Douglas Luiz e Jack Grealish forem embora. O Villa tem uma boa dupla de zaga com Tyrone Mings e Ezri Konsa, embora haja margem para melhora, um meio-campo competente com Luiz, Grealish e John McGinn e… é isso aí. Todas as outras posições precisam de atenção, a começar pelo gol porque Tom Heaton não deve retornar antes de outubro. Orjan Nyland mostrou bons atributos, mas acabou preterido pela experiência de Pepe Reina, de volta à sua vocação de goleiro reserva na Lazio após retornar do empréstimo para o Milan. Matty Cash chegou do Nottingham Forest para começar a resolver os problemas nas laterais.

Os lados também são um problema no setor ofensivo porque Trezeguet e Anwar El Ghazi viveram apenas de lampejos. O Villa precisa de pontas que consigam criar com mais regularidade para aliviar o fardo sobre Grealish, artilheiro do time na temporada com dez gols e o principal assistente. Wesley começava a engrenar quando também sofreu uma lesão nos ligamentos do joelho e não se sabe em que forma voltará aos gramados. Há expectativa pelo garoto americano Indiana Vassilev, de 19 anos, e Mbwana Samatta chegou no inverno para substituí-lo, mas seria interessante ter um camisa 9 que faça mais de um gol a cada oito jogos.

Esse cara pode ser o reforço mais caro da história do Villa. Ollie Watkins fez três temporadas consecutivas com pelo menos dez gols na Championship e explodiu na última, com 25. Foi o artilheiro da competição pelo Brentford, que ficou muito próximo do acesso. Pode atuar também como ponta e se destaca pela presença de área e posicionamento. Reencontra-se com Dean Smith, que o treinou nas Abelhas até 2018.

A menos que faça uma contratação a cada dois dias até o fim da janela de transferências, será um mercado mais calmo do que o da temporada passada. Em parte porque ninguém mais tem muito dinheiro, embora o clube seja comandado por dois bilionários, em parte porque as necessidades são outras, e em parte porque mudou o homem que toma as decisões.

O diretor-esportivo Jesús García Pitarch foi quem pagou pela emoção exagerada na Premier League com o emprego. Foi substituído por Johan Lange, famoso no futebol europeu pelo seu trabalho no Copenhague. Especializou-se em contratar talentos baratos e revendê-los por um bom lucro em pouco tempo, sem deixar de ser competitivo no Campeonato Dinamarquês – três dos últimos cinco títulos – ou de participar dos torneios europeus. Chegou às quartas de final da última Liga Europa e deu trabalho ao Manchester United.

Qualquer clube com ambições e certo dinheiro para gastar precisa de uma política de transferências coesa para não cair na armadilha de pagar demais jogadores famosos em baixa, envelhecidos ou sem tanta fome, na ânsia de subir de patamar – alô, West Ham.

A estratégia de Lange de procurar valor no mercado, geralmente em jogadores jovens que buscam uma boa vitrine para se destacar, prometendo estabilidade, uma cultura vencedora e uma identidade clara, pode funcionar desde que o Aston Villa tenha estabilidade, uma cultura vencedora e uma identidade clara. Nesse sentido, não tanto quanto o fato de ele não ter sido demitido, a mudança na direção do futebol mostra que a diretoria quer insistir pelo menos mais um pouco com Dean Smith, apesar da fraca campanha recente.

Smith tem identificação muito forte com as arquibancadas do Villa Park por ser torcedor do clube e filho de um antigo fiscal do estádio, que morreu após contrair COVID-19, mas o histórico não o impediu de sofrer fortes críticas por um trabalho que ficou longe do ideal, apesar de quase € 160 milhões investidos em reforços. Em vez de mandá-lo embora, a tática foi reforçar os arredores, com as chegadas de Lange e também de Craig Shakespeare para a comissão técnica, outro torcedor do Villa que assumiu o Leicester interinamente após a demissão de Claudio Ranieri. Foi efetivado, sempre o primeiro passo para ser demitido, e esteve nas comissões técnicas de Sam Allardyce no Everton e Nigel Pearson no Watford.

Um pouco mais de experiência de alto nível nas tomadas de decisão e uma política mais clara de mercado que ainda precisa ser colocada em prática. Melhores reforços são apenas um passo, mas outras coisas precisam melhorar. O Villa foi um time lento, problema grave quando tentou jogar no contra-ataque, e teve a segunda pior defesa da Premier League. Dependeu demais de Grealish e da bola parada no setor ofensivo, problema grave quando tentou se lançar um pouco mais e assumir certa iniciativa. Apesar do excelente clima do Villa Park, teve apenas a 14ª campanha como mandante, com sete vitórias, cinco a mais do que quando precisou viajar, e não terá torcida pelo menos no começo. Outro problema grave.

E precisa resistir às investidas de clubes como Tottenham ou Manchester United pelos serviços de Grealish. Caso perca seu craque e capitão, maior artilheiro e melhor garçom, símbolo, líder e bandeira do clube, o problema não será apenas grave, mas existencial.

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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