Gols, inteligência e mentalidade determinada: Bruno Fernandes tem muito do que o Manchester United precisa
Um dos jogadores mais badalados nas últimas janelas de transferência finalmente mudou de clube. Bruno Fernandes deixou o Sporting por € 55 milhões e ruma para o Manchester United, onde tentará brilhar na Premier League, segundo anunciado pelos dois clubes. Aos 25 anos, ele atinge o nível que esperava desde que estava na Serie B da Itália, aos 17 anos. Um jogador de imenso potencial, tem muitas qualidades e é incensado como um dos grandes nomes do mercado. O Manchester United consegue levar o jogador e, ao que parece, o jogador se encaixa bem no que o time precisa para os próximos anos.
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Muita técnica, mas o principal não está visível à primeira vista: a sua mentalidade. E isso se une a outro aspecto dele que o torna um jogador importante e perigoso: a inteligência. “Eu trabalho como diretor esportivo há 15 anos e eu nunca conheci alguém mais inteligente. Eu nunca encontrei alguém como ele”, disse Cristiane Giaretta, que o contratou do Boavista para o Novara, na Itália, em 2012, ao site The Athletic.
Criado em Maia, na região metropolitana do Porto, o jogador não passou pelo caminho mais óbvio de um claro talento desde muito cedo. Em vez de ir para a base do Porto, foi para o Boavista. Não que o Porto não quisesse o jogador. Só que o Boavista convenceu Bruno e a família com algo simples, mas fundamental: um ônibus que o pegava e trazia do treino. Isso era algo importante porque os pais de Bruno não podiam dirigir para levá-lo aos treinamentos.
Embora seja um meio-campista desde o começo da sua carreira na base, chegou a jogar como zagueiro. Sua boa técnica e toque de bola fazia com que ele fosse uma arma para sair jogando com qualidade de trás. O jogador nunca gostou de jogar na zaga, mas isso o ajudou a ter uma visão de como buscar o jogo para sair jogando com a bola. Com alta capacidade de drible e passe, ele tinha um defeito, porém: seu chute. Foi isso que ele precisou trabalhar para melhorar.
Sua carreira tomou um caminho curioso. Depois de oito anos pelo Boavista (desde que chegou, na base), ele foi para um destino pouco usual: o Novara, na Serie B italiana, em agosto de 2012. Isso porque o seu agente conseguiu convencer Cristiano Giaretta, diretor esportivo do clube italiano, a olhar o seu jogador. Gostou, contratou e o levou para um time de meio de tabela na Itália. Segundo relatou ao The Athletic, o que o dirigente viu aquele dia foi um jogador muito bom no um contra um e também na tomada de decisão.
Com apenas 17 anos, a adaptação à Itália foi complicada. Só melhorou quando a sua namorada (que se tornou sua esposa, tempos depois) decidiu ir morar com ele. Decidiu aprender o italiano e usava uma técnica básica, mas muito eficiente: colocava post-its em todos os objetos com o nome das coisas em italiano. Em um mês, conta Giaretta, ele já falava um italiano básico. Em um ano no país, já falava muito bem a língua.
Do Novara, onde os torcedores o chamavam de “O Maradona de Novara”, ele foi para a Udinese por € 2,5 milhões, em julho de 2013. Sua habilidade era notável e foi elogiado pela estrela do time, Antonio Di Natale, então o grande artilheiro da equipe, que também o criticou por se desligar do jogo por vezes. Sua irregularidade o tornou um jogador negociável. Assim, foi emprestado para a Sampdoria. Vestiu a camisa 10, teve espaço, mas novamente, não conseguiu brilhar como esperado.
A Sampdoria mesmo assim o comprou por € 6 milhões, mas só porque já se sabia que o Sporting estava disposto a contratá-lo. No dia seguinte à sua compra, a Sampdoria o vendeu para o Sporting por € 9,69 milhões e Bruno Fernandes então voltou para Portugal, em julho de 2017. Deixou a Itália com 130 jogos por Udinese e Sampdoria, com 16 gols e 16 assistências. Regular, mas nada que chamasse tanto a atenção.
Um personagem muito conhecido foi o responsável por levá-lo de volta ao seu país natal: Jorge Jesus. O técnico, atualmente no Flamengo, foi quem pediu pessoalmente para o presidente do clube lisboeta para contratar o meio-campista. Não por acaso, o técnico português o colocou no centro do seu projeto de time. Valorizado, jogando mais, com a confiança do técnico e dos torcedores, ele cresceu em influência no jogo. Passou a ser um jogador que participa mais do jogo, e não aquele que desaparece em porções da partida, como Di Natale dizia que acontecia na Udinese.
Lembra quando, ainda na base do Boavista, foi apontado que ele tinha um problema no seu chute? Bom, foi no Sporting que ele definitivamente mudou isso. Treinava muito bolas paradas e tornou-se um especialista em pênaltis. Nenhum segredo, só treinamento: repetia quase diariamente as práticas de treinamento de chutes, inclusive especificamente pênaltis.
Na sua primeira temporada em Alvalade, foram 16 gols marcados em 56 jogos, além de 20 assistências. Chegou ao mesmo número de gols que fez em todo o seu período na Serie A em apenas uma temporada. Havia algo diferente. Na temporada seguinte, porém, foi o momento da sua explosão. Em 53 jogos, marcou 32 gols, algo notável para um meio-campista, e fez outras 18 assistências.
Seu sucesso despertou diversos clubes a procurarem o Sporting por sua contratação, mas nada aconteceu. O Tottenham foi quem mais chegou perto de tirá-lo novamente de Portugal. Foi o clube que Bruno Fernandes se animou em jogar quando chegou proposta por ele, na janela de agosto de 2019. Os Spurs queriam o português e ofereceram € 60 milhões para contratá-lo. O Sporting bateu o pé e não aceitava menos de € 70 milhões. Depois de algumas rodadas de negociação, nenhum dos dois lados cedeu e a negociação não aconteceu. Ao final da janela de agosto de 2019, ele continuava no Sporting.
Só que desta vez ele não terminaria a temporada. Depois de 28 jogos disputados, com 15 gols marcados e 14 assistências, ele acertou a sua transferência para a Inglaterra. Parecia iminente que isso aconteceria. O jogador, com personalidade e temperamento forte, teve alguns episódios de fúrias nesta temporada. Quebrou a porta de um vestiário ao ser expulso em partida contra o Boavista.
Também teve um áudio vazado em que ele criticava o elenco e a atitude de alguns jogadores. Ele não se preocupou com o vazamento. Ao ser questionado, disse: “Não foi nada que eu não tenha dito no vestiário depois da partida”, ele disse à Record. Sua personalidade forte é algo que fica notável em todos que convivem com ele. Não tem pudor em falar com quem quer que seja, do técnico ao presidente. Não é por acaso que se tornou capitão do Sporting.
O Manchester United foi quem aceitou as condições do Sporting e paga € 55 milhões pelo jogador, com outros bônus que aumentam o valor a cada meta alcançada: € 5 milhões por jogos disputados; € 5 milhões se classificar à Champions League; € 5 milhões se ele vencer a Bola de Ouro; € 5 milhões se o time vencer a Premier League; € 5 milhões se o Manchester United vencer a Champions League. Convenhamos que a única meta realista, ao menos a curto prazo, é a meta de jogos.
A personalidade e a mentalidade que Bruno Fernandes carrega parece serem exatamente o que o Manchester United precisa. A técnica também, claro, mas vimos muitos jogadores de técnica alta esmaecerem em um clube que parece embebido em mediocridade. Bruno Fernandes passa longe de ser um jogador que se conforma.
A busca pelo espaço, a movimentação e a personalidade tornam Bruno Fernandes um jogador que pode fazer muita diferença. Os torcedores esperam que não só ele possa levar tudo isso a Old Trafford, mas quem sabe consiga transmitir isso aos companheiros. Olhando para quem é Bruno Fernandes, é difícil imaginar que ele passe sem fazer barulho no Manchester United. Seja pelo que faz em campo, seja pela forma como pensa e se comporta.



