Hoje treinador, Steven Gerrard faz um ótimo trabalho à frente do Rangers, que lidera o Campeonato Escocês com 16 pontos de vantagem sobre o vice-líder Celtic, ainda que com três jogos a mais. O clube se encaminha para seu primeiro título desde 2011, tendo passado por uma falência em 2012, sendo rebaixado para a quarta divisão como consequência e subindo lentamente de volta à elite. No comando do Rangers desde 2018, este é o primeiro trabalho de Gerrard como técnico, e seu crescimento nesses anos derradeiros faz com que uma pergunta específica se torne cada vez mais constante: veremos Stevie G de volta ao Liverpool?

Em entrevista a Alan Shearer para o site The Athletic, Gerrard reconheceu que este é um sonho seu, mas que ainda o vê distante, já que hoje o clube é comandado por aquele que o ídolo dos Reds vê como um dos melhores treinadores do mundo, se não o melhor: Jürgen Klopp.

“Recebo bastante essa pergunta, e, para mim, o que será será. Se eu amaria ser o técnico do Liverpool um dia, se é um sonho? É claro. É um clube que significa tudo para mim, mas nós temos um dos melhores treinadores do mundo, se não o melhor, que tem sido absolutamente incrível desde que chegou, e o sucesso que ele entregou nos últimos dois anos colocou o Liverpool em um lugar fantástico. Que isso continue por muito tempo”, torceu.

Ainda que um futuro retorno de Gerrard ao clube em que marcou época como atleta pareça um daqueles cenários meio que inevitáveis, o ex-jogador não vê um caminho reto para isso. Mesmo quando chegar o momento em que o cargo hoje ocupado por Klopp estiver vago, Stevie G prevê uma forte concorrência pelo posto, além de não acreditar que sua história pelo Liverpool seja suficiente para lhe garantir a chance.

“É muito difícil prever o futuro. Só porque eu fui um bom jogador pelo Liverpool e tive a carreira que tive lá, isso não significa necessariamente que eu sou o próximo na fila para ser o técnico. Você sabe disso e eu sei disso. Se um dia o cargo estiver disponível, haverá uma fila de um quilômetro, cheia de treinadores de primeira classe. (O passado pelo clube) Não significa que você seja a melhor pessoa para o cargo.”

Ainda em sua época de atleta, Gerrard se interessava pelos aspectos mais profundos do futebol e costumava pensar no esporte com constância. Imaginava que isso o prepararia para um futuro como treinador. Hoje vivendo sua segunda carreira no jogo, vê que estava ligeiramente enganado. Mesmo alguém como ele sente o impacto da transição, tendo que viver futebol o tempo todo.

“A quantidade de pensamentos que você tem (como treinador) em comparação com quando você é jogador é inacreditável, e eu era alguém que costumava levar o futebol comigo para casa. Esse negócio de treinador é dia e noite. É como se você fosse para a cama cansado e acordasse extremamente cansado. Seu cérebro simplesmente não para”, descreveu.

“Você rapidamente entende por que os treinadores envelhecem e ganham fios brancos tão cedo. Por volta dos meus 30 anos, aprendi a lidar com resultados muito melhor, mas parece que tudo voltou agora que sou treinador, porque os resultados são por minha conta. É muito difícil desligar de tudo quando você está nesta posição”, contou.

O trabalho de um técnico, no entanto, vai além da preparação de treinos, da elaboração de soluções táticas para diferentes problemas e de suportar a pressão. Para ser bem-sucedido no ramo, é preciso ter um bom trato humano e saber lidar com seus comandados, e Gerrard afirma ter uma abordagem individualizada para tirar o melhor de cada um de seus jogadores.

“Tudo que eu queria como jogador era honestidade e respeito da parte dos treinadores. O que eu tento fazer é conhecer o jogador pessoalmente e descobrir o que é que tira o melhor dele, julgando quando ele precisa de um ombro de apoio ou de algumas verdades. Você trata as pessoas de maneira diferente para tirar o melhor delas. Algumas preferem ser pressionadas, querem mais agressividade em termos de honestidade, e outras preferem amor e apoio. Trata-se de descobrir o que mexe com cada um”, explicou.

Para sua sorte, neste início de carreira, Gerrard tem contado com uma boa rede de suporte, figuras do futebol a quem pode consultar para trocar ideias e possivelmente encontrar soluções em que não havia pensado. Curiosamente, Klopp, atual técnico dos Reds, é uma dessas pessoas.

“O Jürgen Klopp está sempre a uma ligação de distância. Se ligo para ele e digo: ‘O que você acha sobre isso ou aquilo’, sei que vou ter uma opinião sincera. Não porque sou o Steven Gerrard, mas porque ele, genuinamente, quer ser um apoio para mim, e isso é ótimo.”

Quase sempre que se senta para uma entrevista mais longa, um assunto não foge a Gerrard: o escorregão contra o Chelsea em 2014 e a consequente perda do título da Premier League para o City, mesmo tendo aberto uma distância de cinco pontos com três jogos restantes no torneio. O ídolo dos Reds admitiu que aquele fim de temporada lhe serve até hoje como combustível para conquistar coisas como treinador.

“Sim, é definitivamente uma motivação. Que aquilo tenha acontecido, da maneira como aconteceu, no fim da minha carreira no Liverpool, foi um ponto brutalmente baixo para mim. Como grupo, time e clube, foi uma grande decepção, porque chegamos tão perto”, lamentou.

A conquista do Liverpool na temporada passada, dando fim a um jejum de 30 anos, ajudou a aliviar o fardo, mas não completamente. E Gerrard sabe do que precisa para continuar seu processo de cicatrização: glórias na nova carreira.

“O fato de que eles ganharam o título desde então e são os atuais campeões – o que é fantástico de ver, para mim – certamente ajudou no processo de cura. Porém, de um ponto de vista pessoal, ter um grande ponto alto como técnico certamente contribuiria para esse processo de cura também.”