Premier League

“Está na hora de colocar microfones nos árbitros”, afirma ex-atacante Chris Sutton

O uso do Video Assistant Referee, vulgo VAR, tem causado controvérsia no mundo todo. Embora o Brasil seja o melhor do mundo em usar mal a ferramenta, na Inglaterra há um debate quente sobre o assunto. O ex-atacante Chris Sutton comentou sobre a arbitragem no BBC Radio 5 e deu uma sugestão bem interessante: colocar microfones nos árbitros.

O comentário veio motivado pelas críticas aos árbitros Lee Mason e Stuart Attwell neste fim de semana. O primeiro atuou no jogo entre West Brom e Brighton e o segundo em Chelsea e Manchester United. As decisões dos árbitros foram questionadas e, para o ex-jogador, seria importante poder ouvir e vê-los explicando o que está acontecendo.

“Se eles explicassem o que estão vendo em tempo real, eles teriam mais simpatia. Isso iria esclarecer as coisas, os telespectadores poderiam ver por seus próprios olhos”, opinou Sutton. “Se eles estivessem com microfones e explicassem por que eles tomaram a decisão, haveria muito mais compreensão. Seria uma coisa boa e transformaria o jogo”.

O apresentador do Monday Night Club, também da BBC, questionou por que a imprensa tem acesso aos áudios do VAR na Inglaterra e esses áudios não podem ser tornados públicos pela liga. O ex-jogador Micah Richerds, porém, discordou da ideia de ter microfones que permitissem explicações do árbitro em tempo real – algo que vemos na NFL, por exemplo.

“Se todo mundo pudesse ouvir o que está sendo dito, isso os colocaria sob ainda mais pressão. Eu não acho que isso traria mais decisões corretas. Se nós formos colocar microfones nos árbitros, o nosso jogo está oficialmente acabado. Nós temos que dar a eles mais confiança que o VAR está lá para ajudá-lo. Ele não irá intervir em todo e qualquer cenário”, continuou o ex-jogador do Manchester City.

A discussão sobre ouvir os áudios dos árbitros é algo constante em vários lugares do mundo. A Conmebol, por exemplo, tem colocado os áudios à disposição do público depois dos jogos, uma surpreendente medida de transparência de uma entidade que não é conhecida por isso. A CBF tem sido pressionada a fazer o mesmo, mas só libera o áudio em situações muito específicas. Seria importante ter mesmo esse áudio de forma regular, de todos os jogos onde o VAR é utilizado. Traria mais transparência no processo de decisão.

A ideia de ter áudios em tempo real precisaria de fato ser bem analisada, porque poderia intervir muito no jogo, mas uma solução como da NFL poderia, sim, ser interessante. Até porque o árbitro não teria o seu áudio em tempo real, mas sim ligaria o microfone para avisar o que está acontecendo. É uma ideia a ser debatida, em seus pontos negativos e positivos, e talvez valha até um teste em competições menores, como os jogos de categoria de base, para ver como funcionaria.

A experiência aconteceu no futebol em 2019. Na época, Jarred Gillett usou um microfone em jogo da A-League, a liga australiana de futebol. Atualmente, o árbitro trabalha na Championship, a segunda divisão inglesa. Esse tipo de recurso também é usado com muito sucesso no rúgbi, um esporte de muito mais abrangência profissional que o futebol americano. As principais ligas de rúgbi no mundo usam esse tipo de recurso, como é possível ver nas grandes competições transmitidas, e o funcionamento torna tudo muito transparente.

A International Football Association Board (IFAB), responsável pelas mudanças nas regras do jogo, já comentou sobre isso em maio de 2014, quando provocada a respeito.

“Embora a IFAB compreenda o interessa das emissoras em oferecer ao público uma perspectiva adicionar do jogo (seja via áudio ou vídeo), o resultado claro das discussões nesta reunião foi que esses aparelhos não são permitidos, principalmente porque as gravações transmitidas pelas emissoras podem prejudicar a credibilidade e integridade dos árbitros, especialmente em situações críticas”, diz o comunicado.

“A principal razão para que os sistemas de comunicação sejam atualmente encriptados e não transmitidos publicamente é permitir que as equipes de arbitragem se comuniquem de forma rápida e franca um com o outro. Tornar essa comunicação pública iria forçar os árbitros a considerar o impacto do público em suas palavras antes de dizerem qualquer coisa, o que restringiria sua capacidade de funcionar como time”, continua a nota.

Esse entendimento de 2014, porém, já foi parcialmente superado, porque a própria Fifa liberou que as entidades gravem e divulguem o áudio, desde que após as partidas, e não em tempo real. A discussão sobre ter um áudio que possa ir para a transmissão quando o árbitro acionar o microfone poderia ser algo interessante, mas de fato causaria um impacto no jogo que precisa ser estudado e muito bem avaliado antes de ser aplicado.

De qualquer forma, é uma ideia e a transparência tem que ser um objetivo para a arbitragem e para os organizadores de campeonatos de futebol pelo mundo. No Brasil, a falta de transparência é tamanha que nem a imagem usada pelos árbitros para tomar as decisões no VAR são divulgadas algumas vezes. Mais do que isso, as imagens que são divulgadas nem sempre esclarecem as dúvidas. Falta muito para que a arbitragem tenha uma transparência que é importante para a credibilidade do jogo.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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