Premier League

Em dia de protestos pela Superliga, Liverpool ficou mais longe de vaga na competição que não quer mais jogar

Foi o primeiro jogo de um dos fundadores da Superliga desde o anúncio do último domingo

A situação é um pouco bizarra. Com a derrota do West Ham parece o Newcastle, o Liverpool ganhou a chance de entrar na zona de classificação para a próxima Champions League no dia seguinte em que se tornou o fundador de um campeonato que na prática aniquila aquele para o qual tem lutado tanto para se classificar. Não conseguiu, empatou por 1 a 1, o que é bastante emblemático, como o foi a derrota da Juventus para a Atalanta ou o empate do Real Madrid com o Getafe no fim de semana.

Mas no momento em que o futuro é tão incerto, sem saber quando a primeira edição da Superliga será realizada, ou se ela será mesmo realizada, as consequências do resultado à tabela da Premier League são menores do que seriam, por exemplo, no último sábado, antes da implosão do futebol europeu.

O mais importante por enquanto é que foi o primeiro jogo de um dos fundadores da Superliga desde o anúncio oficial no último domingo, e invariavelmente haveria repercussões. Ainda mais por ter sido contra um clube como o Leeds, treinado por um personagem como Marcelo Bielsa e com perfil apegado às raízes do futebol, como representante da comunidade e forte relação com seus torcedores locais. O que, aliás, o Liverpool também propagandeava que era.

O ônibus do Liverpool foi recebido com vaias em Ellan Road, e jogadores do Leeds usaram uma camisa de protesto – e provocação. A parte de trás dizia que o “futebol é para os torcedores”. Na frente, havia o logotipo da Champions League com a mensagem: “Faça por merecer”.

Uma das principais críticas à ideia da Superliga é que os clubes mais ricos do mundo querem criar um clubinho fechado para o qual não precisarão se classificar por mérito esportivo, ao contrário do que acontece neste momento com a Champions League, e ganha ainda mais força na temporada em que o Liverpool, atual campeão inglês, tem precisado suar sangue para voltar ao G4.

Os protestos não se restringiram ao campo do jogo, nem aos torcedores do Leeds. Anfield acordou com faixas de protestos. “Torcedores do Liverpool contra a Superliga Europeia” e “Que vergonha! Descanse em paz, Liverpool Football Club, 1892 – 2021” entre elas. Também houve pedidos pela saída do Fenway Sports Group, empresa do dono John Henry que toca as operações do clube.

Protestos em Anfield (Foto: Peter Byrne/Imago/One Football)

Além disso, grupos de torcedores como o Spion Kop 1906 e Spirit of Shankly decidiram retirar as bandeiras de apoio que haviam colocado nas arquibancadas de Anfield desde a retomada do futebol inglês, sem torcedores, no meio do ano passado. “Nós, junto com outros grupos envolvidos com as bandeiras, vamos removê-las da Kop (principal arquibancada do estádio)”, escreveu o Spion Kop, no Twitter. “Sentimos que não podemos mais dar o nosso apoio ao clube que coloca a ganância financeira acima da integridade do jogo”.

Outra expectativa era pelas palavras de Jürgen Klopp, que havia criticado a ideia da Superliga em 2019, quando disse que esperava que “a Superliga nunca acontecesse”. Questionado se mudou de ideia, Klopp respondeu: “Minha opinião não mudou. É difícil. As pessoas não estão felizes e eu posso entender isso, mas não posso dizer muito mais porque não fomos envolvidos no processo. Nem os jogadores, nem eu. Não sabíamos de nada. Os fatos são públicos e agora temos que esperar para ver como se desenvolvem”.

“Eu tenho 53 anos e desde que era jogador profissional, a Champions League estava lá. Eu obviamente não tenho problemas com a Champions League. Eu gosto da competitividade do futebol. Eu gosto do fato de que o West Ham pode jogar a Champions League ano que vem. Eu não quero que eles joguem, para ser honesto, porque nós queremos jogar, mas eu gosto que eles tenham a chance”, completou.

Klopp tentou distanciar os seus jogadores das decisões tomadas nas salas da diretoria e afirmou que não se pode perder de vista o que torna um clube importante. “O que eu não gosto é que o Liverpool é muito mais do que algumas decisões. A parte mais importante do futebol são os torcedores e o time. Nós temos que garantir que nada fique entre isso. Eu ouvi que colocamos (provavelmente se referindo à torcida, não ao clube) faixas em Anfield. Eu não entendo isso porque os jogadores não fizeram nada errado. Não vencemos todos os jogos, mas fomos com tudo e queremos nos classificar para a Champions League do ano que vem. Temos que ficar juntos”, disse.

“Não gosto também quando os torcedores de outros clubes usam nosso hino contra nós. Podemos mostrar que ninguém precisa caminhar sozinho nesses momentos. Há coisas que precisamos resolver, mas elas nada têm a ver com o futebol e a relação entre torcedores e o time. Isso para mim é realmente importante. Em momentos difíceis, você tem que mostrar união. Isso não significa concordar com tudo, mas, novamente, os rapazes (do time) não fizeram nada errado além de não ganhar todos os jogos de futebol. Eu quero mesmo que todos saibam disso”, acrescentou.

Klopp fez questão de enfatizar que, embora ele seja contra a Superliga, não significa que acha que não há problemas no atual modelo liderado pro entidades como Uefa e Fifa. “Eu não sei exatamente por que os 12 clubes fizeram isso. Eu sei que algumas coisas mudarão no futebol no futuro e algumas coisas têm que mudar no futebol. Isso é certo – onde está o poder e coisas assim. A Uefa não pode também simplesmente decidir as coisas. A Fifa não pode também simplesmente decidir as coisas. Todos planejam novas competições. A Uefa quer a Champions League. Eles mostraram para mim. Eu disse: ‘Tem mais jogos, então eu não gosto’. Isso foi meses atrás e eles foram em frente do mesmo jeito. Eu não espero que eles não façam porque eu não gosto, mas eles me mostraram e aconteceu do mesmo jeito. É sempre mais jogos e mais jogos”.

“Se você me disser que os clubes se importam com dinheiro, com o que vocês acham que a Uefa se importa? A Fifa quer um Mundial de Clubes. É sobre dinheiro e mais nada. Não são apenas os clubes. Algumas coisas vão mudar e algumas coisas precisam mudar. Geralmente, você tem que preparar esse tipo de coisa, precisa de tempo para convencer, mas uma coisa que eu posso entender que as pessoas pensam que não é certo é a competitividade. Eu entendo isso. Eu não gosto que talvez não estejamos na Champions League, mas, se merecermos, queremos estar lá como todos os outros”, disse.

Por fim, Klopp ficou um pouco irritado com o protesto do Leeds e principalmente a indicação de que foram convidados a participar dele. “Eu ouvi que há camisas para o aquecimento. Não vamos usá-las. Não podemos usá-las. E se alguém pensa que precisa nos lembrar que precisamos merecer chegar à Champions League, então é só uma piada. Uma piada mesmo e me deixa bravo. Se eles colocam no nosso vestiário e foi uma ideia do Leeds? Muito obrigado. Ninguém precisa nos lembrar. Talvez eles precisem se lembrar”, encerrou.

Sadio Mané abriu o placar no primeiro tempo, com passe de Alexander-Arnold após um bonito lançamento de Diogo Jota. O Liverpool dominou a etapa inicial, mas foi engolido pelo Leeds depois do intervalo, e o gol de empate, marcado por Diego Llorente, de cabeça, aos 42 minutos, estava anunciado há muito tempo.

O Liverpool ficou em sexto lugar, perdeu a chance de superar o West Ham e pode ver o Chelsea abrir quatro pontos de vantagem na quarta posição. A gente só não sabe ainda exatamente o quanto isso importa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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