Premier League

Dono do Newcastle chega a um acordo e venda do clube se encaminha por £310 milhões

Dirigente mais odiado da Premier League, Mike Ashley deve sair de cena nas próximas semanas. As negociações sobre a venda do Newcastle se desenrolam há um bom tempo, diante do interesse do consórcio PCP Capital Partners, encabeçado pela empresária Amanda Staveley – e apoiado pelo dinheiro público do governo saudita. Embora as duas partes não encontrassem um valor comum à transação, a crise gerada pela COVID-19 parece ter acelerado as urgências de Ashley e o magnata aceitou reduzir suas pedidas para selar o acordo. Segundo diferentes veículos de imprensa no Reino Unido, incluindo os jornais The Guardian e The Telegraph, a venda foi alinhada e a documentação tramita para oficializar o negócio.

As pedidas iniciais de Mike Ashley giravam ao redor de £380 milhões, pela cessão de 100% das ações do Newcastle. No entanto, o inglês reduziu seu teto para £340 milhões e, agora, teria concordado com a venda por £310 milhões. O consórcio de Amanda Staveley assumiria empréstimos realizados por Ashley, garantindo a compra imediata e permitindo a devolução do dinheiro em parcelas. A questão é chave para acelerar o processo.

Mike Ashley comanda o Newcastle há 13 anos e, ao longo das últimas três temporadas, as conversas com Amanda Staveley se arrastam. As primeiras tentativas de transação não se concretizaram. A empresária representa interesses no Reino Unido, sobretudo da Reuben Brothers, que possui negócios imobiliários na cidade de Newcastle. Além disso, Staveley faz a ponte com o Oriente Médio. Entre os interessados por trás do acerto está a Arábia Saudita, através de seu fundo público de investimentos.

Assim como ocorre no Manchester City e no Paris Saint-Germain, os sauditas estariam dispostos a transformar o Newcastle em uma ferramenta política. O governo da Arábia Saudita poderia adquirir 80% das ações totais dos Magpies, com mais 10% a Amanda Staveley e outros 10% à Reuben Brothers. O envolvimento do país, todavia, não é detalhado nos documentos publicados nesta terça. Anteriormente, Staveley participou da aquisição do Manchester City pelo Xeique Mansour e também de uma proposta pelo Liverpool que não se consumou.

Ainda que Mike Ashley e Amanda Staveley tenham chegado a um consenso, a venda do Newcastle depende de outros fatores. Inclusive, precisa da aprovação da Premier League, que iniciará os primeiros exames sobre a documentação, antes de confirmá-la. A participação da Arábia Saudita é o que gera maior controvérsia, sobretudo pelas violações aos direitos humanos promovidas pelo país. As entidades reguladoras podem questionar os interesses governamentais por trás da transação.

Mike Ashley comprou o Newcastle em 2007, por £133 milhões. A chegada do empresário gerou esperanças na torcida, diante das promessas de investimento na equipe, após 15 anos marcantes sob as ordens do magnata local Sir John Hall. No entanto, Ashley deixou muito a desejar e os Magpies, de um time constante nas copas europeias, precisaram lidar com dois rebaixamentos e passaram a conviver com as campanhas modestas na Premier League. O dono chegou a declarar publicamente seu “arrependimento” pela aquisição.

As receitas do Newcastle caíram significantemente nestes 13 anos com Mike Ashley, assim como as dívidas aumentaram. As contratações no mercado de transferências estão distantes dos astros dos tempos de Sir John Hall. E a gestão esportiva do presidente aumentou os problemas, com decisões precipitadas e rusgas com ídolos – a exemplo da dispensa de Jonás Gutiérrez, após se recuperar de um câncer e salvar o clube do rebaixamento. A tentativa de vender os naming rights de St. James’ Park, o uso do Newcastle para impulsionar negócios pessoais e os contratos com patrocinadores controversos aumentaram a insatisfação da torcida. As manifestações públicas contra Ashley foram recorrentes.

Nas últimas semanas, Ashley deixou claras as dificuldades financeiras enfrentadas durante a crise – inclusive com novas ações contestadas. O Newcastle foi um dos clubes que solicitou a ajuda do programa governamental para bancar salários de parte de seus funcionários. Além disso, dono de uma grande rede de lojas esportivas, Ashley insistiu que seus empregados seguissem trabalhando em meio às ordens de isolamento social e tentou manter em funcionamento um comércio não essencial. Depois, perceberia o erro e pediria desculpas. A venda do Newcastle, neste cenário, seria uma forma de aliviar seus prejuízos.

Segundo o Guardian, os trâmites realizados pela Premier League para confirmar a venda devem levar até um mês, diante das restrições causadas pela pandemia. Yasir al-Ramayyan, responsável pelo fundo público de investimentos da Arábia Saudita, deve se tornar o novo presidente do Newcastle. A Reuben Brothers deve ocupar uma cadeira na diretoria, enquanto Amanda Staveley também tende a assumir um posto executivo na agremiação.

Príncipe-herdeiro saudita e real governante do país, Mohammed bin Salman realizou diferentes reformas nas políticas públicas durante os últimos anos. O esporte, neste sentido, se torna um caminho aos seus interesses diplomáticos e também uma contribuição à imagem internacional da Arábia Saudita. Mas, apesar de aberturas recentes à população e da diversificação econômica, a nação segue com graves acusações de violações aos direitos humanos (incluindo na guerra civil ocorrida no Iêmen) e perseguição à oposição. É o grande e pertinente questionamento sobre a venda do Newcastle, por mais problemas que Mike Ashley tenha.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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