Quando olhamos para um jogador de futebol em uma grande equipe costumamos ver apenas o profissional bem-sucedido, bem de vida e fazendo aquilo que ama, mas mais vezes do que imaginamos aquela imagem pode estar escondendo sofrimentos bastante humanos. Em um exemplo claro desse tipo de situação, Denílson, meio-campista ex-Arsenal e São Paulo, revelou como seus anos na capital inglesa foram difíceis devido à solidão que enfrentou no período em que defendeu os Gunners.

Denílson transferiu-se para o Arsenal em 2006, com apenas 18 anos, e, diferentemente do que costuma acontecer hoje em dia, não levou consigo nenhum amigo ou familiar. Se por um lado realizava um sonho de infância ao defender um dos maiores clubes do mundo, por outro encontrava um pesadelo na vida pessoal sempre que se encerravam suas sessões de treino.

“Ir para casa depois dos treinamentos era tranquilo, mas depois de um jogo, em que eu havia jogado em frente de 60 mil pessoas torcendo por mim… Eu tomava banho no estádio e ia para casa, mas quando chega, estava sozinho. Eu entrava no MSN, esperando falar com alguém, para ver alguém havia visto meu jogo, mas não havia ninguém online”, revelou em entrevista à revista FourFourTwo.

O jogador, que hoje defende o Sliema Wanderers, de Malta, admitiu que a solidão teve um peso significativo sobre seus ombros, chamando atenção para o fato de que atletas de elite são pessoas como todas as outras.

“Esse tipo de coisa começou a me afetar, já que você começa a pensar consigo mesmo: ‘A partida acabou, quero falar com alguém, mas não tem ninguém por perto’. As pessoas nos veem apenas como profissionais, mas esquecem que somos seres humanos também.”

“Alguns dias, eu estava me sentindo bem e queria sair para uma caminhada de tarde, mas então você vê o tempo, é deprimente, e você desiste. Eu pensei: ‘Meu Deus, é essa a minha vida?’ Você não tem ninguém com quem conversar, ninguém online com quem falar e discutir outras coisas que não futebol”, descreveu.

A presença de Gilberto Silva no vestiário do Arsenal nos primeiros dois anos de Denílson na Inglaterra poderia ter ajudado o então garoto, mas ele se via em outro dilema que às vezes ignoramos em relação à diferença de idade entre atletas de uma mesma equipe.

“Eu tive muita dificuldade com isso, mas não falei para ninguém, guardei tudo para mim. Nunca disse isso ao Gilberto Silva, por exemplo. Ele frequentemente me convidava para sua casa, mas nunca me senti confortável. Eu pensava: ‘Ele tem a vida dele, sua esposa, seus filhos. Não quero ficar o incomodando’”, relembrou Denílson, que contou também ter passado um Natal sozinho após recusar um convite do ex-companheiro: “Fiquei trancado em casa, sozinho, porque não queria incomodá-lo”.

Cinco anos após sua chegada ao Arsenal, Denílson retornou ao Brasil para defender o São Paulo, clube que havia defendido antes de se mudar para a Inglaterra. Inicialmente, o meia passou dois anos no Tricolor por empréstimo, ampliando em 2015 sua passagem por mais dois anos após romper o contrato com o Arsenal. Após o São Paulo, jogou ainda por Al-Wahda, Cruzeiro e Botafogo de Ribeirão Preto, antes de fechar com o Sliema Wanderers em agosto de 2020.