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Crystal Palace reivindica nova data de fundação para ser o clube profissional mais antigo do mundo

Não são apenas os dirigentes brasileiros que se dispõem a reescrever a história do futebol através de revisionismos. Nesta terça-feira, o Crystal Palace lançou uma reivindicação para ser reconhecido como o clube profissional mais antigo do mundo. Os londrinos foram oficialmente fundados em 1905, mas uma pesquisa recente aponta a ligações com outro time, surgido em 1861 e membro da Football Association em seus primórdios. Assim, as Águias aguardam o reconhecimento de sua “nova idade”.

Primeiro clube criado para a prática de futebol, o Sheffield FC surgiu em 1857. No entanto, nunca aderiu ao profissionalismo. A equipe mais antiga que já fez parte da Football League é o Notts County, atualmente na quinta divisão, fundado em 1862 – um ano antes da unificação das regras, em 1863, marco inicial da “criação” do futebol. O Crystal Palace deseja tomar este posto do Notts County e ser considerado o mais velho entre aqueles que atuam profissionalmente.

A nova pesquisa afirma que o Crystal Palace possui suas origens a partir de outro clube fundado em sua vizinhança. Em 1851, os britânicos inauguraram o chamado Palácio de Cristal, um suntuoso prédio de vidro e ferro fundido construído para a Grande Exibição – evento que abrigaria 14 mil expositores de diversas partes do mundo, dispostos a apresentar inovações tecnológicas. Um ano depois da feira, uma companhia foi estabelecida para gerenciar a estrutura. A instalação seria transferida em 1854 do Hyde Park para outro parque na região de Sydenham, no sul de Londres – em localidade conhecida a partir de então como Crystal Palace.

No local, seria criado pela Crystal Palace Company um campo de críquete, que levou à formação do Crystal Palace Club pela companhia administrativa. Como era comum na época, os jogadores de críquete costumavam praticar futebol durante o inverno para manter a forma e esses atletas do Crystal Palace Club fundaram um time de futebol em 1861. A primeira partida aconteceu em março de 1862, contra o Forest FC.

Membro do Crystal Palace Club, Frank Day compareceu à famosa reunião que deu origem à Football League em 1863, levando à elaboração das regras do futebol. O clube apoiava a criação de um regulamento específico à modalidade, diferente do praticado na Escola de Rúgbi, e mandou mais representantes do que qualquer outro clube aos encontros seguintes da FA naquele período inicial. O Crystal Palace Club também cedeu três jogadores ao primeiro jogo disputado oficialmente sob as regras da associação, em janeiro de 1864.

Essa parte da história não é exatamente nova. O Crystal Palace Club já era reconhecido desde então – mas como uma agremiação diferente do atual Crystal Palace. Aquele time, inclusive, participou ativamente das primeiras edições da FA Cup. Seu capitão, Douglas Allport, esteve envolvido no processo de criação da Copa da Inglaterra e propôs o comitê que elaborou regras específicas à competição. Ele também foi um dos responsáveis por comprar o primeiro troféu. O Crystal Palace original disputou as cinco primeiras edições do torneio e alcançou as semifinais na primeira delas.

Todavia, o Crystal Palace deixou de atuar em 1875. Segundo os relatos da época, o futebol estava “estragando” o campo de críquete e o time suspendeu suas atividades. A partir de 1876, não existiam mais registros históricos sobre a equipe de futebol. Já o Crystal Palace Club continuou na ativa para a prática do críquete até 1900, quando a agremiação se fundiu com o London County Cricket Club.

Antes dessa fusão, o parque onde ficava o Palácio de Cristal já tinha construído seu próprio campo de futebol. O estádio substituiu o lendário The Oval e passou a sediar as finais da FA Cup a partir de 1895. Com a inauguração do local, na década de 1890, também ressurgiu um time amador para a prática do futebol por ali. A equipe disputava apenas amistosos e fez sua estreia em novembro de 1895, enfrentando o Aston Villa – já um dos principais clubes profissionais do país e campeão da própria Copa da Inglaterra meses antes.

Diante do potencial de investimento, a companhia que administrava o Palácio de Cristal (e tinha iniciado o Crystal Palace Club) resolveu também montar seu time de futebol profissional. A Football Association era contrária à ideia de que os administradores do estádio da final da FA Cup também possuíssem sua própria equipe. Diretor esportivo da Crystal Palace Company e também célebre jogador de críquete, W. G. Grace estava envolvido diretamente no projeto.

Neste ponto, se encontra o elo que a nova pesquisa descobriu. O Crystal Palace Football Club surgiu à parte da companhia e iniciou suas atividades profissionais em 1905. No entanto, em uma manobra administrativa, a Crystal Palace Company comprou 1,7 mil ações e tinha o controle do clube por outras vias. Assim, o historiador Peter Manning defende que o antigo Crystal Palace Club deva ser considerado embrionário ao Crystal Palace Football Club, por terem os mesmos donos, apesar do hiato. Em seu documento original para se inscrever nas ligas regionais, inclusive, os dirigentes do novo Crystal Palace Football Club mencionaram os nomes de antigos jogadores do Crystal Palace Club que foram convocados à seleção inglesa na década de 1870. A percepção de que os dois clubes eram um só existia já naquela época.

O interesse do Crystal Palace neste momento, mais do que reescrever sua própria história (na qual, a bem da verdade, não há mudanças muito drásticas além do ano em si) e entender sua identidade, está em estabelecer um rótulo. Dizer que é o clube profissional mais antigo do mundo rende, além do orgulho, também um chamariz para atender seus interesses comerciais.

Resta saber como será a recepção dos ingleses à nova reivindicação. Há semelhanças com a trajetória de outros clubes que se repaginaram em seus primórdios, a exemplo do Manchester United (originalmente chamado de Newton Heath), embora o hiato de décadas seja o principal ponto contra a teoria dos londrinos. E o próprio Crystal Palace terá que rever seus símbolos: seu escudo atual traz a inscrição do ano “1905” dentro da imagem do antigo Palácio de Cristal, destruído por um incêndio em 1936.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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