Premier League

Como Ndombélé deu a volta por cima para ir de renegado a destaque do Tottenham

Após passar uma temporada inteira sem fazer contratações, e chegar à final da Champions League mesmo assim, o Tottenham abriu os cofres para reforçar o elenco do ainda treinador Mauricio Pochettino. O maior investimento foi feito em Tanguy Ndombélé, e era bem a cara dos Spurs, quando os desentendimentos entre o francês e José Mourinho chegaram a público, que o jogador mais caro da sua história parecesse com um pé para fora da porta em menos de um ano. A situação, porém, mudou. Melhorou. O golaço anotado na vitória sobre o Sheffield United, por 3 a 1, no último fim de semana, foi a culminação de um processo, muitas vezes tortuoso, de adaptação e evolução de Ndombélé.

José Mourinho tem suas estratégias de motivação. Já funcionaram melhor, mas não foi a primeira vez que ele pegou para Cristo um jogador que ele acredita que não está fazendo tudo que pode para alcançar o ápice físico ou técnico. No Manchester United, o alvo favorito era Luke Shaw. Atualmente, é Dele Alli. Com Ndombélé, a relação pareceu ter chegado a um ponto sem volta entre março, quando o treinador levou o problema ao público, e junho, quando saiu notícia de que o francês estava decidido a nunca mais jogar por Mourinho.

Segundo uma reportagem da ESPN, Ndombélé teve muitas dificuldades para se adaptar ao regime de treinamentos da Inglaterra e consequentemente ao ritmo mais intenso das partidas. Afirma que as exigências no Amiens e no Lyon eram muito mais relaxada. Ele poderia “ir aos treinos alguns dias e não ir em outros, e os treinadores estavam ok com isso”. O resultado foi uma primeira temporada cheia de pequenas lesões e longe de onde deveria estar fisicamente para aguentar o calendário inglês.

Uma fonte próxima ao jogador afirmou à ESPN que ele “amadureceu” e lembrou que sua ascensão foi muito rápida: uma temporada pelo Amiens, duas no Lyon, uma transferência milionária ao Tottenham, “uma troca de treinador em quatro meses, uma nova liga, um novo país, uma nova língua. Ele teve que lidar com mudanças muito rápidas, muitas expectativas e era tudo novo para ele, ainda jovem”.

Antes de ser demitido, Pochettino avisou que, apesar de um começo promissor, Ndombélé, 24 anos, precisaria de tempo para se adaptar à Inglaterra. Lembrou que Son demorou dois ou três anos para começar a ter um rendimento alto. A utilização do meia foi condizente com um novo reforço: alguns jogos como titular, outros saindo do banco de reservas, mas atuando com frequência para se aclimatar ao novo país. Mourinho é mais adepto da política do choque. Entre sua chegada e o empate por 1 a 1 contra o Burnley, em março, deu apenas 322 minutos a Ndombélé em oito das 16 rodadas de Premier League que o Tottenham disputou no período.

Aquele jogo contra o Burnley foi quando Mourinho perdeu a paciência. Ndombélé começou como titular e foi substituído no intervalo. O Tottenham conseguiu o empate no segundo tempo e, analisando a partida, o português deixou bem claro quem ele considerou o principal problema. “No primeiro tempo, não tivemos meio-campo”, disse. “Claro que não estou falando de (Oliver) Skipp (também substituído no intervalo) porque ele é uma criança de 19 anos que jogou duas horas nos últimos dias. Eu não o critico, mas não fugirei e tenho que dizer que ele (Ndombélé) teve tempo suficiente para estar em um nível diferente. Eu sei que a Premier League é difícil, e alguns jogadores levam muito tempo para se adaptar a uma liga diferente. Mas o jogador com o potencial dele tem que nos dar mais do que ele está dando, especialmente quando você vê como Lucas, Lo Celso e esses jogadores estão jogando. Eu esperava mais dele no primeiro tempo”.

O futebol foi paralisado pouco depois por causa da pandemia. A pausa poderia ter servido para esfriar a história, mas Mourinho foi flagrado quebrando os protocolos da quarentena ao conduzir um treino ao ar livre em um parque com alguns jogadores, Ndombélé entre eles. O português admitiu que foi errado e pediu desculpas. E, quando o futebol se preparava para voltar, ainda havia uma equipe da Amazon registrando os bastidores.

O último episódio da temporada da série do Tottenham na plataforma de streaming mostra duas conversas importantes de Ndombélé. Em um bate-papo com Serge Aurier e Moussa Sissoko, ele relata o quanto o seu primeiro ano na Inglaterra tinha sido complicado. “Tive várias lesões. Tenho tido que me adaptar, mas está tudo bem, vocês estão me ajudando. É complicado quando mudamos de país. Deixei a França e minha família para vir para cá. Não é fácil trocar de ambiente. O treinamento tem outra intensidade, até mesmo as partidas”, admitiu.

Em seguida, Ndombélé comparece a uma reunião com o chefão dos Spurs, Daniel Levy, e espero que a verdadeira conversa tenha acontecido com as câmeras desligadas porque o que foi compartilhado com o público não chega a ser… eficiente? Por exemplo: Levy conta que quando tinha 16 anos, a professora aconselhou que ele saísse da escola, mas ele se recusou a ser derrotado, estudou, se esforçou, tirou apenas notas 10 e entrou na faculdade. Foi com essa história tocante de superação que o dirigente tentou inspirar Ndombélé a dar a volta por cima.

Enfim, entre platitudes e histórias bobas, duas declarações de Ndombélé foram importantes. Ele começou a conversa dizendo que treinou bastante “durante três meses”, mais ou menos o período em que o futebol ficou parado, “e todos dizem que me saí bem, mas ainda não jogo, deve haver algo mais”. Em um segundo momento, o francês admitiu que não estava “concentrado como deveria” e que não estava se dedicando “100%”.

Mais ou menos na mesma época em que essa reunião aconteceu, no final de junho, após ele ficar no banco de reservas das duas primeiras partidas do Tottenham pós-quarentena, a ESPN britânica publicou uma notícia com fontes anônimas dizendo que Ndombélé havia decidido nunca mais atuar com José Mourinho. A reportagem relatou que houve um conflito entre os dois durante uma sessão de treinamentos. O francês estaria frustrado porque achou que teria um novo começo ao perder peso e treinar duro durante a paralisação, mas seguia sem entrar em campo, o que condiz com a reunião com Levy. Ele atuou apenas 64 minutos em dois jogos na retomada da Premier League entre junho e julho.

Com o fim da temporada, surgiram os rumores de transferência. Internazionale, Barcelona e Paris Saint-Germain apareceram como supostos interessados, mas, sob condições econômicas pandêmicas, ninguém toparia fazer um alto investimento por um jogador que agora traria consigo uma série de pontos de interrogação. E não é nem um pouco do feitio de Levy assumir o prejuízo do jogador mais caro que comprou para o Tottenham depois de apenas um ano complicado. Não o venderia por muito menos do que os € 60 milhões que pagou ao Lyon.

Logo, Ndombélé ganhou uma nova chance. E dessa vez também em campo. Atuou em todas as dez primeiras rodadas da Premier League, sete como titular, embora nunca tenha completado os 90 minutos. Em outubro, abriu o jogo sobre as declarações de Mourinho. “Suas palavras não me machucaram. Elas não necessariamente me motivaram também. Foi apenas algo que eu assimilei. Claro que não é algo que você quer ouvir, mas aquilo foi a última temporada e estamos olhando para o futuro. Eu não acho que vimos o melhor de Tanguy Ndombélé ainda. Estou no caminho certo, mas ainda há muita coisa por vir”, disse, replicando o que o diretor de mediação de jogadores, Roberto Balbontin, havia lhe dito na reunião com Levy: o passado é o passado, a melhor coisa a fazer é olhar para a frente.

Foi o que ele fez. No fim de dezembro, já era elogiado por Mourinho publicamente. “Estamos felizes, com exceção de algumas partidas em que ele não jogou bem. No geral, houve uma grande evolução. Ele está jogando muito bem. Ele está se adaptando a uma liga que não é nova, nova, nova para ele, mas vamos esquecer a temporada passada, quando ele não jogou muito e teve muitas lesões. Nesta temporada, eu acredito que jogar com essa intensidade e dar ao time o que ele precisa sem a bola durante 90 minutos não é fácil para ele. Jogar com essa intensidade e durar os 90 minutos é mais um passo”, afirmou. A primeira vez que completou 90 minutos na Premier League desta temporada foi no último fim de semana contra o Sheffield United.

Embora os números não sejam muito diferentes em relação à temporada passada, e ele ter apenas três gols e uma assistência na Premier League, a melhora de Ndombélé é visível. De rejeitado, virou o décimo jogador com mais minutos em campo nesta temporada, oitavo contando apenas a Premier League. Não está mais acima nessa lista porque tem sido substituído com frequência, como Mourinho explicou, mas tem sido titular regularmente em um meio-campo que encontrou um bom equilíbrio. O recém-chegado Hojbjerg caiu como uma luva como primeiro volante, dando liberdade para Sissoko, como segundo homem de meio-campo, e Ndombélé, mais avançado, se aproximando dos atacantes e com liberdade para influenciar no ataque, uma das suas especialidades.

É possível olhar a situação de duas maneiras. Mourinho sabia o que estava fazendo ao jogar Ndombélé aos leões e conseguiu a reação que esperava, embora ela tenha demorado um pouco para aparecer. Essa hipótese perde força porque outras tentativas parecidas em sua carreira recente não deram tão certo. Ou foi Ndombélé quem teve força mental suficiente para dar a volta por cima, superar as dificuldades, entrar em forma e agora começa a colher os frutos. É provavelmente um pouco dos dois. E também o fato de que ninguém era capaz de bancá-lo no último mercado e a única solução foi encontrar um jeito de fazer a parceria funcionar.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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