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Os números às vezes mentem. Outras vezes, contam direitinho a história. Nos últimos dez jogos, Ilkay Gündogan participou diretamente de oito gols do Manchester City: fazendo sete e dando uma assistência. Exatamente a mesma contribuição que havia dado em suas 61 partidas anteriores. Não é que os chutes simplesmente começaram a entrar. O rendimento superior tem a ver com uma nova movimentação dentro de campo, um dos fatores para a sequência de 13 vitórias do City por todas as competições.

É um daqueles casos em que é essencial separar a posição da função. No papel, parece que ele continua sendo escalado no mesmo lugar, um segundo volante ao lado de Rodri, mas, durante os jogos, tem atuado mais : entre a esquerda e o meio do campo de ataque, com liberdade para entrar na área, como mostram estes mapas do The Athletic.

Gündogan já deu 20 chutes de dentro da área nesta temporada, mais do que em qualquer outra campanha completa pelo City, segundo Richard Jolly, um mago dos números do futebol inglês. Desde o empate por 1 a 1 com o West Brom, o último jogo que o City não venceu, o meia alemão não passou de 88 toques na bola. Naquela partida que deu início à arrancada, superou 100 toques (116) pela quinta vez.

Não está jogando como costumava. Como primeiro volante, na vaga de Fernandinho, ou compartilhando essa função lado a lado com Rodri. Virou um meia mais móvel que não precisa tocar tanto na bola para influenciar o jogo. Tenta atacar espaços e entrar na área na hora certa para fazer seus gols. E como tem dado certo: nenhum jogador marcou mais vezes pela Premier League desde aquele jogo contra o West Brom.

Ele está com um aproveitamento insustentável de 70% em finalizações certas e tem superado em muito o seu Expected Goals – estatística avançada que calcula a probabilidade de a bola entrar na rede a partir de onde o chute foi dado, o ângulo, a distância, se havia pressão, etc, etc. Segundo o XG, deveria ter marcado 3,90 gols em vez de sete, o que também ilustra a qualidade dos seus chutes.

“Gundo é um cara que tem um instinto incrível para o gol”, afirmou Guardiola após um simbólico 5 a 0 sobre o mesmo West Brom, com dois gols de Gündogan. “Não é apenas saber a hora certa de entrar na área. É o segundo exato. Isso é o mais difícil: não chegar um metro antes ou um metro depois, mas exatamente na hora certa, e Gundo tem essa noção. E não é apenas isso. Ele tem esse jeito de controlar a bola, desacelerar, tirar um segundo para se recompor e ver o que acontece. E ser preciso”.

A frieza de Gündogan foi destacada em uma outra declaração de Guardiola, que tem falado sobre a possibilidade de usá-lo também como um falso 9. Mais uma vez sem poder contar regularmente com Agüero, o treinador tem alternado entre usar Gabriel Jesus ou os seus meias ofensivos, como Mahrez e Bernardo Silva, em uma posição mais avançada do gramado. Ainda não o fez com o alemão.

“Como volante, a distância para entrar na área era difícil, mas ele tem uma noção especial para finalizar. Há jogadores que ficam de frente para o goleiro e conseguem tomar um café e ainda achar tempo para finalizar – e outros ficam nervosos. É uma qualidade em si. Os dois gols do jogo contra o West Brom explicam perfeitamente essa qualidade porque mostram como ele se mexe rapidamente e a qualidade do chute. Não é fácil encontrar isso”.

Contra o West Brom, Gündogan fez a corrida nas costas da defesa, encontrou o passe de João Cancelo na entrada da área, dominou, deixou a marcação passar e bateu cruzado para anotar o primeiro gol da partida. No terceiro, ele bateu a carteira da defesa, deu um drible seco e rapidamente emendou de canhota no canto de Johnstone.

Gündogan foi a primeira contratação de Guardiola no Manchester City. Conhecia-o dos tempos em que treinou o Bayern de Munique e o enfrentava defendendo o Borussia Dortmund. Foi um negócio de ocasião. Menos de € 30 milhões por um jogador de alta qualidade, experiente e que havia marcado em uma final de Champions League.

Sofreu muito com lesões em sua primeira temporada, com apenas 15 jogos como titular, e Guardiola encontrou um meio-campo ideal sem ele: Fernandinho, De Bruyne e David Silva. Em quatro anos, nunca passou de 30 jogos como titular entre Premier League e Champions League, quando o City costuma usar sua força máxima. Já está com 19 mais ou menos na metade da atual campanha. Isso porque perdeu as primeiras rodadas por ter contraído coronavírus e, mesmo recuperado, demorou algumas semanas para se reabilitar completamente.

Uma das questões do Manchester City era quem entraria no lugar de David Silva. O candidato mais natural era Phil Foden, mas o garoto ainda não está pronto e tem sido usado mais como ponta esquerda. A entrada de Gündogan parecia sinalizar uma certa cautela de Guardiola, uma formação de meio-campo com dois jogadores que geralmente atuam como primeiro volante, para compensar as deficiências defensivas que foram claras na temporada passada e se estenderam para o começo dessa.

No entanto, Guardiola, bom para caramba na sua profissão, conseguiu encontrar um equilíbrio. A virada de resultados começa justamente no momento em que ele dá mais liberdade para Gündogan, mas também com o estabelecimento de Rúben Dias e John Stones como dupla de zaga. Raramente é uma coisa só. Um time de futebol é um organismo vivo em que várias peças vão se movimentando até encontrarem suas posições ideais.

Justamente por isso, esta talvez seja a estatística mais enganosa e também a mais escandalosa: o City não perdeu nenhum dos 23 jogos que Gündogan disputou nesta temporada, sendo 16 pela Premier League e cinco na Champions League. São 20 vitórias e três empates com ele em campo.

Envelhecido, Fernandinho está sendo mais reserva que titular após um ano em que jogou praticamente apenas como zagueiro. David Silva foi embora e a lesão de De Bruyne deixou o Manchester City desesperado por mais produção no meio-campo, e Gündogan tem entregado a maior parte dela. Atingindo status de estrela e artilheiro e mostrando que às vezes a solução está bem debaixo do seu nariz, se você for tão bom quanto Guardiola para saber identificá-la.

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