Premier League

City quis mais e venceu o dérbi de Manchester

Quando o Manchester City perdeu para o Arsenal, pela 32ª rodada do Campeonato Inglês, ficando oito pontos atrás do rival United, várias toalhas azuis foram atiradas ao chão. Eu mesmo decretei aqui no blog que o time de Mancini havia perdido o jogo e o título. Quem acreditaria que um time experiente, vencedor, comandado por uma lenda como Sir Alex Ferguson poderia deixar escapar a taça com a vantagem obtida?

Quatro rodadas depois, os rivais se encontraram no clássico mais decisivo da cidade na história da Premier League. Vitórias sobre West Brom, Norwich e Wolves deixaram o City a três pontos do United, que perdeu para o Wigan e cedeu empate ao Everton neste período. O dérbi pode ter definido o campeão.

Roberto Mancini evitou perder a boa forma e manteve a equipe intacta, com a formação favorita da temporada, o 4-2-3-1.

A espinha dorsal é a mesma desde o início da competição, com algumas variações nas laterais e no ataque. Durante a suspensão de Balotelli, Carlos Tévez assumiu como parceiro de Agüero na frente. Silva começou aberto na esquerda, Nasri na direita. Yaya Touré é o compasso da equipe, tendo funções vitais tanto no desarme quanto na transição ofensiva.

Função de Tévez é importante para Silva

A posição de Tévez nos últimos três jogos é um ponto que vem gerando debate. Ao contrário de Balotelli, que por vezes era usado aberto na esquerda, o argentino tem jogado centralizado. Muitos analistas consideram que esse posicionamento caracteriza o 4-4-2, mas eu discordo.

Para não perder o potencial de Silva na criação de jogadas, Mancini se recusa a fixá-lo por um lado do campo. O espanhol tem liberdade para mover-se por onde queira quando de posse da bola. No 4-4-2 em duas linhas, com marcação zonal e pressão na bola, o meia tem função defensiva muito mais ativa, enquanto a liberdade maior fica com os atacantes. Mancini tem orientado os meias a trocar de posição constantemente e a recomposição imediata é feita por setor e conveniência. Ou seja, quem estiver mais perto, marca por aquele lado. Diversas vezes, Tévez foi visto marcando a saída dos laterais ou do volante. Na maioria entretanto, ficava centralizado, na posição ideal para tabelar com Agüero. Típico do 4-2-3-1.

Além disso, a própria participação de Tévez no jogo denota a sua função. O StatsZone, da revista inglesa FourFourTwo, mostra que das 32 tentativas de passe de Carlitos, apenas três foram de dentro da área. Apenas 17 tentativas de passe foram no último terço ofensivo do campo. Sequer tentou um chute a gol.

Do outro lado, Sir Alex Ferguson preferiu optar por uma estratégia que ele mesmo definiu certa vez como a dos “grandes jogos”. Rooney foi posicionado como único atacante. Nani aberto na direita, era pra ser a válvula de escape. Carrick, Scholes, Giggs e Park com o dever de povoar o meio. Uma espécie assimétrica de 4-4-1-1.

Os Diabos Vermelhos ditaram o ritmo dos primeiros dez minutos do jogo. A escalação de Park já era um indício de que o time marcaria por pressão bastante alta e foi o que aconteceu de cara. O sul-coreano começou atrapalhando bastante a saída do City pelo meio, principalmente de Yaya Touré. Nani fechou em Clichy, enquanto Scholes, Giggs e Carrick davam o suporte por trás. Quando o City passava a linha central, o United recompunha de imediato, ficando com oito e até nove jogadores atrás da linha da bola.

O isolamento de Rooney

O ímpeto inicial do visitante acabou passando uma impressão errada do que foi o jogo. A marcação alta acabou ficando cada vez mais rara a partir do momento em que o City encontrou a solução para manter a posse de bola. O time vermelho também não conseguia conectar contra-ataques eficazes, devido à falta de aproximação dos meias com Rooney.

Park e Nani, preocupados em compactar o meio, acompanhando respectivamente Touré e Clichy, quase nunca estavam próximos ao atacante para uma tabela ou uma jogada de pivô. Todas as vezes que a “estratégia dos grandes jogos” funcionou, Rooney tinha companheiros que se aproveitavam do espaço deixado por sua movimentação, saindo dos zagueiros para o espaço atrás dos volantes, como “falso 9”. Isolado, Rooney não conseguiu evoluir, nas poucas vezes que ganhou as divididas de Kompany ou Lescott. A partir dos 20 minutos do primeiro tempo, o domínio do City ficou evidente.

Idade pesou no lado esquerdo do United

Sabedor de que o City é um time rápido e que tem muitos condutores de bola, Sir Alex resolveu posicionar os meio-campistas de forma bastante estreita.

A ideia deveria ser bloquear a troca de passes e as infiltrações pela faixa central, diminuindo os espaços para as arrancadas de Yaya Touré e para a articulação do trio Silva-Tévez-Nasri. E nesse aspecto funcionou por grande parte do primeiro tempo. No entanto, com o meio-campo muito estreito, a equipe que defende fica vulnerável às inversões de jogo, a não ser que o balanço seja muito eficiente. Coisa que Giggs (38) e Scholes (37) já não fazem tão bem.

Zabaleta começou a ter bastante liberdade para apoiar e transformou o lado direito do City na principal arma de ataque. Na imagem acima, Nasri recebe livre enquanto Evra marca Zabaleta. Barry e Silva rapidamente se aproximam e Giggs recém vai chegando ao setor. Quatro azuis contra dois vermelhos. Esse lance gerou uma chance de gol desperdiçada por Agüero e outras quatro jogadas de perigo, incluindo a que gerou o escanteio do gol da vitória.

Sir Alex demora pra mexer; Mancini reage rápido

O gol veio nos acréscimos da primeira etapa. Silva cobrou escanteio de pé trocado para a entrada da pequena área. Smalling cometeu erro infantil ao permitir desmarque de Kompany que fuzilou de cabeça um mal posicionado De Gea. Nem parecia gol sofrido pelo Manchester United. Vidic deve ter quebrado a televisão em sua casa.

Correndo atrás no placar, e por consequência na liderança, se esperava que o United voltasse com outra postura e com mudanças. No entanto, Ferguson desperdiçou ainda 13 minutos da etapa final vendo os mesmos jogadores cometerem os mesmos erros. Welbeck foi escolhido para entrar na vaga de Park, levando o time ao seu habitat natural. Rooney passou a operar logo atrás do atacante, com mais liberdade, na função que mais gosta.

Isso obrigou Barry a jogar mais preso, gerando menos pressão nos volantes do United e empobrecendo a saída de jogo de seu time. Os dez minutos em que as equipes jogaram assim foram de alguma superioridade do United, mas ainda sem finalização.

Sem interesse em pagar para ver, Mancini chamou De Jong, sacou Tévez e tomou conta do jogo. O holandês se encarregou de marcar Rooney, enquanto Barry voltou a sua função original. Yaya Touré passou a atuar mais à frente e transformou-se no craque do jogo. O marfinense é um jogador completo e, na função de meia, atinge um nível de atuação muito alto. Volante de origem, ele tem ótimo combate e saída, e ainda soma velocidade na condução da bola, passe qualificado e arremate forte. Com ele ao lado de Silva e Nasri, o City controlou completamente o jogo e só não ampliou por azar.

Foi intrigante tentar entender porque Valencia não entrou na equipe com mais de 12 minutos para jogar. O equatoriano faz ótima temporada, em melhor forma que Nani. Sua entrada antes teria mais chance de surtir efeito. Quatro minutos depois, Young entrou na vaga do português, deixando o time fresco e ofensivo. Ao mesmo tempo, Mancini promoveu o ingresso de Richards, sacou Silva e passou ao 5-4-1. Bloqueou os dois lados, segurou a bola na frente com Yaya e Nasri e esperou o fim do jogo. O Manchester United terminou sem ter finalizado nenhuma bola no arco defendido por Hart.

A goleada em Old Trafford foi decisiva

O 1 a 0 final deixou as equipes com a mesma pontuação, mas o City com oito gols de vantagem no saldo. Por curiosidade, essa diferença está diretamente ligada ao 6 a 1 inédito do primeiro turno, em Old Trafford. Se o City tivesse vencido por 2-1 naquele dia, o saldo de ambos seria quatro e o United seria líder com dois gols marcados a mais.

Os dois dérbis resumem bem o espírito das duas equipes frente ao Campeonato Inglês. O City quis vencer sempre, mas foi irregular. O United não foi sombra dele mesmo e poderia ter tido muito mais ambição ao longo da competição. Aprendi a lição, nenhum cavalo ganha a corrida antes do disco final. 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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