Premier League

Chris Wilder deixa o Sheffield United à beira da queda, mas com uma das histórias mais legais do futebol inglês nos últimos anos

Neste sábado, o Sheffield United oficializou a notícia que era dada como certa por diversos veículos de imprensa ingleses: Chris Wilder não é mais seu treinador. A saída do comandante acaba por ser melancólica, numa campanha que quebra recordes negativos na Premier League, ainda que tenha melhorado um pouquinho nos últimos meses. De um retorno marcante à primeira divisão, dificilmente as Blades escaparão do descenso. Apesar de tudo, o trabalho fica marcado positivamente na história do clube. Wilder reforçou sua identificação em Bramall Lane e fez milagre, dentro das limitações. No fim, paga o preço por elevar demais o sarrafo. Paul Heckingbottom, técnico do sub-23, comandará o time principal até o fim da temporada.

Antes de mais nada, Wilder é torcedor do Sheffield United e também foi gandula do clube na infância. Sua carreira como jogador profissional, aliás, começou por lá. O antigo lateral direito passou por Bramall Lane de 1986 a 1992, tempos em que o clube figurava nas divisões de acesso. Ainda voltaria mais para o fim da carreira, em 1999. Já o reencontro na casamata aconteceu em 2016, depois que as Blades fizeram uma campanha de meio de tabela na League One, a terceira divisão. A partir de então, iniciariam uma ascensão meteórica.

Logo na primeira temporada, Chris Wilder conseguiu levar o Sheffield United não apenas ao acesso, como também ao título na League One. As Blades estavam em sua sexta temporada consecutiva na terceirona, em três delas sucumbindo nos playoffs. O desempenho do clube foi massivo naquela campanha, chegando aos 100 pontos depois de 46 rodadas, com nada menos que 30 vitórias. O ataque marcou expressivos 92 gols. Era um sinal de força, que se reproduziria também na Championship. Por mais que o ídolo Billy Sharp aparecesse como protagonista, era um time pautado na força coletiva, que fazia muito pinçando jogadores sem grande badalação.

Na temporada de retorno à segundona, o Sheffield United passou longe do descenso, na décima posição. A estabilidade era importante e anteciparia o novo acesso em 2018/19. Desta vez a promoção não veio com o título, e sim com o vice na Championship. De qualquer maneira, impressionou a consistência das Blades tanto fora quanto em casa. Numa campanha em que o Leeds United murchou, o time de Chris Wilder se destacou desta vez por uma defesa funcional e por mais recursos táticos. Chegava com menos cartaz que o Norwich City à Premier League, mas já era um feito e tanto após 12 anos longe da elite.

O Sheffield United era um dos principais candidatos a cair na Premier League 2019/20. Passou longe disso, com uma campanha que rendeu a nona colocação e que permitiu até mesmo que as Blades flertassem com a vaga nas copas europeias. O clube não cometeria loucuras no mercado de transferências e, mesmo com um elenco relativamente modesto, baseado em jogadores das divisões de acesso, faria o seu milagre. Chris Wilder tinha muito dedo nisso, especialmente por suas inventivas ideias à beira do campo. Seu 3-5-2 mantinha uma visão dinâmica de futebol, com destaque às subidas de um dos zagueiros no apoio ao ataque, além do enorme espírito de luta. A qualidade era evidente, e muito por dedo do treinador. Venceu adversários badalados, mesmo com a menor folha de pagamentos da liga ao seu elenco.

O sucesso do Sheffield United não se repetiria em 2020/21. Mesmo mantendo sua base principal e garantindo alguns reforços, as Blades estiveram distantes de repetir o mesmo nível. A defesa, sobretudo, não conseguiu estabelecer a mesma confiabilidade com a saída do goleiro Dean Henderson e a lesão do zagueiro Jack O’Connell – além de outras perdas pontuais por contusão com o passar dos meses. Mais do que isso, a maioria dos novos contratados não emplacou. Também não se pode negar o peso das arquibancadas vazias em Bramall Lane, bem como do calendário apertado que passou a exigir mais de um plantel curto. Se a equipe já tinha sentido bastante a nova realidade ao voltar da paralisação na temporada passada, degringolaria definitivamente nesta. E a sequência sem uma mísera vitória no primeiro turno afundava aos poucos o clube, indicando que a recuperação não seria possível.

Nas primeiras 17 rodadas, foram apenas dois empates e 15 derrotas ao Sheffield United, batendo marcas inéditas nos mais de 130 anos de história do Campeonato Inglês. Apesar dos recordes negativos, as Blades não eram exatamente um saco de pancadas, com muitas derrotas pela diferença mínima e um ataque que também estava distante de corresponder satisfatoriamente. A primeira vitória só aconteceu em janeiro, contra o Newcastle. Desde então, foram quatro triunfos no total, um deles contra o Manchester United. Apesar do espírito de luta maior, o clube ainda está a 14 pontos de escapar da zona de rebaixamento e somente reconhecimento pelo passado mantinha Chris Wilder no cargo.

A saída de Wilder não acontece necessariamente pelos resultados mais recentes, mas por uma relação que se degradou nos bastidores, como conta a BBC Sport. Wilder tinha sido contratado por Kevin McCabe, antigo dono do Sheffield United, que entrou em conflito com o Príncipe Abdullah, o atual mandatário. McCabe ainda tinha 50% das ações quando o treinador chegou, mas saiu ao alegar que o príncipe saudita não tinha o dinheiro prometido no investimento inicial – em disputa que foi parar na justiça. Wilder perdeu um pouco do respaldo que tinha quando Abdullah tomou o controle total e possuía atritos com a direção pela falta de investimento, o que resultou no fim da relação neste sábado.

Obviamente, o Sheffield United tinha problemas em campo, não só nos bastidores. Algumas das primeiras derrotas aconteceram quando o time ainda jogava razoavelmente bem e isso pareceu minar a confiança na sequência do primeiro turno. Até por isso, Wilder queria reforços, mas não foi correspondido na janela de transferências de janeiro, com a diretoria já admitindo a queda e fechando as torneiras para a Championship. Sem o apoio necessário nos corredores de Bramall Lane, o treinador sai de cena. E deixa incertezas. Afinal, muitos torcedores ainda confiavam no comandante, mesmo com a iminente queda.

Wilder desfrutava de apoio na torcida não apenas pelo impacto na Premier League. Com boas ideias, o treinador tirou o Sheffield United do desterro na terceirona e não precisava dar mais provas de seu talento. O comandante também era querido pela ótima relação que mantinha na cidade, com entrevistas francas e uma relação íntima de quem saía para beber com os jogadores antes da pandemia. Era um homem da casa, ele também um torcedor, que não ia deixar as Blades na mão. As dúvidas se tornam maiores agora exatamente por isso: a torcida sabe que não será mais um dos seus por trás desse sucesso. Talvez a estadia na Championship seja longa.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo