Premier League

Boxing Day: preparador físico do Fulham conta como treina jogadores para maratona de fim de ano

Três rodadas intensas em seis dias marcará o inicio do secular ‘Boxing Day’, o futebol de 26 de dezembro, que é o período mais estafante da Premier League. Para abordar os bastidores da preparação de uma equipe nesta empolgante etapa da liga mais rica do mundo, falamos com o conceituado Preparador Físico, Andrew Young, do Fulham e da seleção australiana.

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Extremamente simpático, ‘Andy’ explicou os procedimentos adotados para qualificar os jogadores e encarar a maratona de partidas que acontecem entre o Natal e o Ano Novo na Velha Albion. O ‘Boxing Day’ tem raízes históricas e religiosas e como disse o ex-astro Gary Lineker “É a oportunidade de sair de casa farto de aguentar as sogras, tomar uma cerveja e ver futebol. O paraíso deve ser uma coisa assim”. Confira!

Esse período entre o Natal e o Ano Novo é um dos mais difíceis da Premier League, pois a maratona de jogos é sufocante. Existe a tradição secular do ‘Boxing Day’, que são os jogos pós-natalinos no dia 26 de dezembro. Conte-nos como é a atmosfera das partidas nessa fase?

O período do Natal é muito corrido, mas também é um momento especial. Esse ano, em cerca de dez dias, enfrentaremos Wigan, Tottenham, Birmingham, Chelsea e Bristol (pela FA Cup). Nós treinaremos na manhã de Natal para o jogo contra o Tottenham no ‘Boxing Day’. Existe uma atmosfera muito especial entre os torcedores nesta data e é uma tradição fantástica. Apesar deste período ser bastante desgastante, todos os jogadores apreciam a atmosfera que envolve essas partidas. A recuperação dos futebolistas (de um jogo para outro) é uma parte muito importante deste período.

Então como é a preparação de uma equipe antes, durante e depois desta fase? O que é mais difícil nessas etapas?

Durante esse período nós temos um ou outro jogador se recuperando de um jogo, o que envolve sessões de recuperação na piscina ou na bicicleta. Além de boa nutrição, bom sono e hidratação. Nós monitoramos atentamente o desempenho físico dos nossos jogadores durante este período, incluindo o uso de telemetria (monitorização cardíaca e GPS) durante a formação. Nós também tomamos medidas regulares de sua potência, no ginásio, para acompanhar sua recuperação.

Treinamento preparatório para os jogos envolve uma carga de treinos leves e sessões de curta duração com somente uma pequena parte de trabalho intensivo. Esse também é um período difícil para os clubes que possuem elencos menores, sendo que lesões e suspensões podem ter um alto efeito negativo na performance dessas equipes. Os grandes clubes tem elencos maiores e estão mais aptos para encarar essa maratona de jogos.

Qual é o tipo de lesão mais comum durante essa maratona de jogos?

No futebol inglês as lesões mais comuns tendem a ser leves fisgadas, torções e lesões no músculo da virilha. Nosso ‘Staff’ gasta muito tempo preparando jogadores com exercícios para ajudar a prevenir lesões. Esse programa vem tendo muito sucesso. Fadigas e baixa performance dos nossos jogadores é provavelmente um problema maior do que lesões durante esse período.

O que você se recorda do último ‘Boxing Day’, em 2006?

Na última temporada nós não jogamos exatamente no ‘Boxing Day’, como a maioria dos times. Mas nós jogamos no dia seguinte (27/12) contra o Charlton. Empatamos em 2 a 2. Conseguimos marcar o gol de empate no finalzinho. Esse jogo foi até transmitido ao vivo. O Fulham teve um bom período de Natal, em 2006, pois não perdemos nenhum jogo, apesar de nós termos empatado muitas partidas. O último ano foi bom e nós não treinamos no Natal (gargalhadas).

A Premier League é apontada como uma competição muito forte fisicamente. Como é a Preparação na Pré-Temporada?

É uma competição muito rápida e física, e essa é uma das razões que a tornou tão popular com elevados índices de audiência nas TVs mundiais. Jogadores como Cristiano Ronaldo ou Thierry Henry, que jogou muito tempo aqui, possuem uma habilidade técnica maravilhosa. Eles são super atletas com grande vigor, poder e agilidade. Estudos comprovam que os jogadores que atuam na Premier League Inglesa correm 1 quilômetro a mais que os sul-americanos durante um jogo. Claro, o fato de correrem mais não significa que sejam melhores.

Na Pré-temporada temos seis semanas de trabalho antes de iniciar a Liga. É um período muito curto para preparar os jogadores. A maior parte deste tempo, nós gastamos construindo uma base física para melhorar a capacidade aeróbica dos jogadores. Além de força e resistência. Uma vez que a temporada começa, é muito difícil adicionar algo mais na capacidade física dos atletas. Como são muitos jogos, quando estamos treinando, gastamos muito tempo recuperando e preparando os jogadores para o próximo jogo.

José Mourinho está fazendo falta à Liga?

Eu me envolvi em quatro jogos onde o Fulham jogou contra o Chelsea quando José Mourinho era o treinador. Minhas impressões ao me encontrar com ele foi de que ele não é um homem arrogante como todos dizem. Apesar de ter sido um contato muito breve. Para mim, ele me pareceu muito confiante e polido.

Os jogadores do Chelsea aparentam gostar muito dele e trabalham duro por ele. Eu acho que talvez ele projeta uma imagem de um homem arrogante para a imprensa para distrair a atenção para fora dos seus jogadores, que podem se preparar para os jogos tranquilamente. Eu pessoalmente estou muito desapontado por ele não ter trabalhado por mais tempo aqui na Inglaterra.

Você foi um jogador que teve muitos problemas com contusões, por isso, você decidiu se tornar Fisioterapeuta e Preparador Físico. Como foi esse processo?

Quando era jovem eu treinava no Instituto Australiano de Esportes (AIS), em uma academia para futebolistas com menos de 18 anos. Grandes jogadores como Mark Viduka (Newcastle), Lucas Neill (West Ham) e Brett Emerton (Blackburn Rovers) também passaram por este programa.

Enquanto eu estive lá, eu tive incontáveis lesões e passava muito tempo com os fisioterapeutas se reabilitando. Eu passei a me interessar por medicina esportiva. Então, quando eu ainda estava jogando na Austrália, paralelamente, estudava Fisioterapia na Universidade de Sydney. Foram quatro anos. Hoje sou Mestre em Ciência Esportiva.

Como é esse trabalho paralelo que você faz entre o Fulham e a Seleção da Austrália?

Eu estou no Fulham há três temporadas. Ao final da última temporada (2006/7), durante o intervalo, eu aceitei trabalhar com a Seleção Australiana por cinco semanas na Copa da Ásia. Após isso, eu retornei ao Fulham para gerir os treinos na Pré-temporada. Eu ainda trabalho na Seleção Australiana quando eu posso.

Trabalhando com a seleção australiana na última Copa da Ásia 2007, quais as impressões que você teve de Omã, Tailândia, Japão e o campeão Iraque, que foram os adversário da Austrália? Eles tem potencial para progredir?

A Copa da Ásia foi uma competição muito difícil para a Austrália. Os jogadores tinham acabado de sair de uma longa temporada e pela primeira vez nas suas carreiras foram jogar em condições quentes e úmidas ao mesmo tempo. Mas devo dizer que os times que nós enfrentamos são todos muito bons. Talvez, muitos deles não possuem jogadores que são tecnicamente brilhantes, mas eles são todos muito rápidos e ágeis e muito bem organizados.

Não existe uma explicação do porque de alguns daqueles jogadores não poderem fazer sucesso na Europa, como Nakamura (Celtic-ESC), por exemplo. Eu sou um grande fã dos jogadores asiáticos e aqui no Fulham, eu trabalho com um maravilhoso jogador da Coréia do Sul chamado Seol Ki-Hyeon. Ele marcou um dos gols que tiraram a Itália da Copa do Mundo de 2002. Eu julgo que é muito bom para Austrália estar jogando na Ásia agora, mas não será fácil se classificar para a próxima Copa, em 2010.

Quais os jogadores da seleção australiana que mais te impressionaram nos treinos físicos?

Os jogadores australianos são conhecidos pela sua capacidade física e força mental. Jogadores como Brett Emerton e Tim Cahill (Everton) são extremamente resistentes. Entretanto, o nível técnico dos nossos jogadores está melhorando também. Jogadores como Mark Viduka e Harry Kewell (Liverpool) são muito habilidosos. Muitos deles passaram pelo programa da academia de jovens do Instituto Australiano de Esportes (AIS), que tem uma grande influência sul-americana. As equipes da AIS viajaram regularmente para a Argentina e para o Brasil, no passado, como parte do nosso processo de educação dos nossos jovens.

Rob Baan parece ser um dos homens mais importantes no desenvolvimento do futebol australiano, não?

Sim, ele agora é o Diretor Técnico da seleção. Depois da saída do técnico Guus Hiddink, ele atuou como treinador, recentemente, em um jogo amistoso contra a Nigéria, em Londres, onde perdemos por 1 a 0. Agora nosso técnico será Pim Verbeek , que trabalhou com Hiddink, e tem grande experiência no futebol asiático.

No momento, existe uma grande influência holandesa no futebol australiano e eu sinto que isso é muito bom. Rob Baan retornou para o seu papel primário de Diretor Técnico e ele, atualmente, está implantando um plano que enfatiza o desenvolvimento do futebol com crianças. Entretanto, como Preparador Físico, eu acredito que o tempo técnico com a bola é a coisa mais importante para desenvolver jovens jogadores.

Tem alguma ambição pessoal para o futuro?

Não particularmente, eu estou concentrado apenas nesta temporada com o Fulham. Eu também tenho esperança de ver a Austrália classificada para mais uma Copa do Mundo, em 2010. Eu adoraria voltar ao Brasil também.

Quando eu tinha 12 anos, minha família morou no Rio de Janeiro por dois anos e desde então eu sempre visito o país. Ir ao Maracanã e escutar os jogos no rádio são as grandes lembranças que tenho daquele tempo. Para o futuro, a coisa mais importante é estar feliz com minha família.

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