Premier League

Arteta é uma escolha que pede paciência, mas que precisará lidar com o fogo das urgências no Arsenal

Desde que Unai Emery deixou o Arsenal, o nome de Mikel Arteta se tornou um dos favoritos para assumir o clube. A escolha do espanhol logicamente não se atrelaria ao currículo, de quem nunca havia trabalhado como treinador principal, mas sim a uma visão um tanto quanto idealizada sobre filosofia de jogo e sobre o potencial do antigo capitão na nova função. Arteta encabeçou o meio-campo de Arsène Wenger por cinco temporadas, antes que as lesões abreviassem sua carreira, e logo se tornou o braço direito de Pep Guardiola, auxiliar do Manchester City desde 2016. Aos 37 anos, o ex-volante volta ao Estádio Emirates. Anunciado oficialmente nesta sexta, Arteta assume uma bomba, quando na realidade precisará de tempo para desenvolver suas ideias. O contrato será de três anos e meio.

O cenário do Arsenal na atual temporada é desalentador. Os Gunners possuem um elenco com potencial para brigar pelo G-4 da Premier League, ainda que existam evidentes carências. Entretanto, o rendimento com Unai Emery não satisfazia e a saída do treinador indicou que os jogadores não estavam fazendo apenas corpo mole para derrubá-lo. O inexperiente Freddie Ljungberg não conseguiu tomar as rédeas da equipe nas últimas semanas, alternando tropeços risíveis com atuações impotentes. A maneira como o time foi dominado pelo Manchester City na rodada anterior deixou bem clara a necessidade de alguém que organize as coisas. Arteta assistiu a tudo isso de camarote e, mesmo assim, não desistiu da oferta.

Até especulou-se que algum medalhão pudesse assumir o Arsenal nesta urgência. Não aconteceu. E, num momento em que a pressão é enorme, a diretoria confia num treinador que precisará de paciência. É um contrassenso à situação e uma fogueira a Arteta. De qualquer maneira, o espanhol preferiu segurar a bucha e tentar reinventar os Gunners com o bonde andando. A um time com apenas cinco vitórias em 17 rodadas da Premier League, a sete pontos do G-4 e a sete pontos do Z-3, a cobrança por resultados será grande. O novato precisará fazer mágica nestes primeiros meses e contar com respaldo da diretoria.

“É uma grande honra. O Arsenal é um dos maiores clubes do mundo. Precisamos competir pelos principais troféus e isso ficou muito claro nas minhas discussões com os dirigentes do clube. Sabemos que há muito trabalho a ser feito para atingir isso, mas estou confiante de que conseguiremos. Sou realista o suficiente para saber que não acontecerá do dia para a noite, mas o elenco atual tem muito talento e há uma ótima geração de jovens surgindo da base”, declarou Arteta, em sua apresentação.

Arteta recebeu propostas recentes para assumir a equipe principal do Newcastle e do Lyon. Preferiu recusar por não achar que era o momento certo. Desta vez, o Arsenal realizou uma oferta boa demais para virar a cara, apesar de todos os pesares. Segundo a Sky Sports, Guardiola e o City ainda tentaram convencê-lo a ficar, o que não funcionou. Prevaleceu a ligação do espanhol com o antigo clube e com a torcida, para dar o próximo passo em sua carreira.

Chefe de futebol do Arsenal, Raul Sanllehi deu as boas-vindas a Arteta: “Conversamos com vários candidatos de primeiro nível e Mikel se destacou entre todos como a pessoa perfeita para nós. Mikel entende o Arsenal e o que o clube significa aos nossos torcedores. Estamos ansiosos para que ele comece a trabalhar e tire o melhor do nosso elenco, enquanto buscamos recolocar a temporada nos trilhos. Também devo agradecer a Ljungberg, por seu empenho e liderança. Junto com Mertesacker, ele fez um trabalho vital em circunstâncias difíceis. Freddie e Per são partes importantes da família do Arsenal e se preocupam profundamente com o clube”.

Não fosse o momento, Arteta poderia se sugerir uma escolha ótima ao Arsenal. O grande porém em seu currículo é mesmo a falta de experiência. Permanece como uma incógnita a maneira como domará a equipe, e o passado mostra como grandes assistentes não se transformam necessariamente em grandes treinadores principais. Ljungberg foi o primeiro tiro no escuro e não demorou a indicar que não tinha capacidade para segurar o fardo até o final da temporada. O espanhol tenta a sorte colocando em risco sua própria reputação nestes primórdios, por mais que também saiba que não faltarão oportunidades em clubes menores se fracassar.

Além da questão do rendimento em campo, Arteta precisará lidar com outras minúcias e novelas que se arrastam no Arsenal. A braçadeira de capitão é uma delas, após a revolta de Granit Xhaka nesta temporada. Outra questão a ser observada é a continuidade de Mesut Özil, que segue sem justificar o seu nome dentro do Emirates e recebe vaias da torcida. Há o próprio aproveitamento e o encaixe de jogadores que não atingiram todo o seu potencial em Londres, como Alexandre Lacazette e Nicolas Pépé. Em meio a isso, o técnico dosará os ânimos de um plantel que se desgastou com Emery.

O fato de conhecer o ambiente pesa a seu favor. Arteta não chegou ao Arsenal nos anos mais prolíficos do clube, mas pôde entender as ideias de Arsène Wenger e o espírito que regeu o time durante mais de duas décadas. Não à toa, acabou nomeado como capitão e se tornou uma liderança imediata, a ponto de mudar a forma como os companheiros se relacionavam nos vestiários. Também não demorou a se encaixar dentro de campo e que protagonizou algumas boas temporadas, a despeito de sua idade avançada. Neste sentido, parece uma tentativa de reconciliar os londrinos com o passado, sem representar uma quebra, como se ambicionou com Unai Emery. Afinal, neste momento sequer há um rumo claro à equipe.

Todavia, Arteta também carrega uma perspectiva de experimentar o novo. Os Gunners poderão se embeber de um bocado das ideias que orientam o trabalho de Pep Guardiola no Manchester City. A filosofia de jogo do treinador recém-contratado é uma incógnita, mas dá para imaginar que ele carregará conceitos com os quais lidava no Estádio Etihad. Resta saber o que conseguirá fazer com as peças que tem em mãos, sobretudo quando a principal razão de pesadelos é a segurança defensiva inexistente. Antes de pensar no ímpeto ofensivo e no “entretenimento”, o novato necessitará de pragmatismo para organizar a casa.

Por fim, há um componente importante na relação que Arteta poderá construir com os jogadores. É um cara que saiu das quatro linhas há pouquíssimo tempo e que possui alguns antigos companheiros no elenco. Sua liderança voltará a se inserir nos vestiários. Com o apoio de Per Mertesacker e Freddie Ljungberg (se este permanecer, especulado pelo Malmö), o espanhol terá que resgatar a ambição de um grupo que possui como melhor perspectiva atualmente o título da Liga Europa. O passado como jogador deve falar mais alto nessa construção inicial como treinador. Há um bloqueio mental que atravanca os Gunners, e o ex-volante conhece isso desde os tempos em que calçava chuteiras.

O Manchester City, ao menos, aponta que o Arsenal deverá contar com um ótimo profissional. Os celestes permitiram as conversas após a vitória no confronto direto e a própria saída do assistente foi bastante sentida, segundo os relatos, pela forma como ele se relacionava com o restante dos jogadores e colegas de comissão técnica. Ganhar a confiança de Guardiola tão cedo e se dar bem com um técnico de gênio tão forte sinaliza a competência de Arteta. Agora, é ele quem deverá apresentar sua credencial e sua personalidade.

Conforme o antigo chefe, por sua “ética de trabalho e seu conhecimento do jogo”, Arteta está pronto. Ele chegou ao Manchester City por sua boa relação com Guardiola, mas logo ampliou sua influência e deixou para trás a imagem de “aprendiz”. O conhecimento prévio que o ex-volante possuía sobre a Premier League se tornou um trunfo a Pep. Entre suas tarefas, estava a de lidar diretamente com os jogadores para sugerir mudanças no estilo e melhorar o rendimento individual. O crescimento de algumas estrelas celestes, como Raheem Sterling, passam pelas mãos do espanhol. Além disso, também trabalhou na adaptação de atletas a novas funções em campo. Tais virtudes serão também necessárias em Londres.

O grande dilema ao Arsenal, daqui pra frente, será o apoio que o clube oferecerá a Arteta. Está claro que nem tudo está perdido na atual temporada, mas as chances de passar o próximo semestre na seca são consideráveis se o encaixe do novo treinador não for imediato. A diretoria precisa estar plenamente consciente de que não fez uma aposta a curto prazo, e sim algo que pode render com o tempo. O tempo de contrato ressalta tal entendimento. Difícil será encontrar o equilíbrio ante o imediatismo de uma entidade que precisa manter suas contas lucrativas, sob o temor de registrar seus piores números em campo nas últimas décadas, e a incerteza do técnico que Arteta realmente se tornará. Apesar do incêndio ao redor, a escolha feita pede paciência.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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