Premier League

Antes do (provável) último duelo, Mourinho abaixa a guarda e esbanja respeito por Wenger

Arsène Wenger e José Mourinho passaram anos discutindo. Trocando indiretas pela imprensa, palpitando no trabalho do outro e, às vezes, deixando a sutileza de lado. O português chamou o adversário de “especialista em fracasso” e um “vouyer que gosta de ver as outras pessoas”. O francês, geralmente mais reativo nessas brigas, descreveu o rival como um “pessoa estúpida”. Chegaram quase às vias de fato em 2014. Mas, nas entrelinhas do que muitas vezes soou como puro desprezo, também houve respeito.

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O provável último duelo entre eles será no próximo domingo. A partida do próximo domingo pode ser o último encontro entre rivais. Wenger ainda não deixou claro se continuará a carreira em outro clube. Mas certamente será o último com o francês no comando do Arsenal. E antes da bola rolar, Mourinho abaixou a guarda e elogiou bastante o adversário. 

Mourinho disse, depois de receber a notícia de que Wenger está de saída do Arsenal, que sua postura combativa em relação ao adversário foi motivada pelo reconhecimento de que ali havia um rival a ser derrotado. “Vocês não sabem o quanto respeitamos um ao outro, mesmo se de vez em quando parece que não. Jogadores recebem cartões vermelhos por ações agressivas entre eles. Xingamentos entre treinadores durante a carreira são a mesma coisa. No fim, provavelmente são os que se respeitam os que mais têm problemas entre si. É poder contra poder. Qualidade contra qualidade. É ambição contra ambição”, disse. 

Mourinho até mesmo elogiou o trabalho de Wenger durante os anos de restrição financeira por causa da construção do estádio, quando o Arsenal colecionou anos sem conquistas, um jejum que foi muitas vezes motivo de piada para o português. “Eu sei o que significa vencer três edições da Premier League, sete Copas da Inglaterra e não foi apenas isso. O que ele fez no Japão e na França, o que deu ao Arsenal, mesmo no período sem títulos, toda a transição do clube de um estádio para o outro. Nós sabemos o que ele fez”, afirmou. 

Em outra entrevista, antes de mais um duelo contra Wenger, Mourinho admitiu que, quando chegou ao Chelsea, em 2004, fez de tudo para roubar o título do francês. “Se ele me respeitar 50% do que eu o respeito, podemos até ser amigos no futuro”, disse Mourinho. “Eu tenho muito respeito por ele. Mas a realidade é que ele estava no Arsenal, era campeão, e eu cheguei ao país em 2004 e queria roubar o título dele. Isso é futebol. Mas, no fim das contas, eu o respeito bastante. Eu tentei mostrar isso nos últimos anos. Não houve problemas entre nós em um estágio diferente da minha carreira, com um perfil diferente. Eu sinto muito que, após Alex Ferguson, o outro grande, o outro icônico treinador está deixando a Premier League”. 

Chegou até mesmo a esboçar arrependimento pelas brigas com Wenger. “Há pequenas coisas que obviamente seria melhor se não tivessem existido, alguns gestos, algumas palavras. Quando cheguei à Inglaterra, o Arsenal era o campeão com o famoso time invencível. E nos anos seguintes, tinha um excelente time, então obrigado por isso – eles nos pressionaram ao limite. Arrependimentos? Por pequenos episódios negativos, sim, eu tenho. E provavelmente ele também tem”, afirmou. 

Antes mesmo do anúncio da saída de Wenger, é possível encontrar, com uma lupa, declarações em que Mourinho demonstra respeito ao adversário. Em 2015, no comando do Chelsea, disse que não via o francês como um rival maior do que outros treinadores que comandam equipes da mesma cidade que a dele. “Eu não sinto isso. Ele é um treinador de um grande clube na mesma cidade em que trabalho e vivo. Um grande clube com os mesmos objetivos nas competições que disputamos. Quero que Chelsea, Arsenal e os árbitros estejam no topo da forma. Eu respeito todo mundo”, afirmou. 

Dois anos depois, já no comando do Manchester United, Mourinho disse que não gostaria de ver Wenger ser forçado a deixar o Arsenal. “Eu espero que ele mantenha o emprego dele. Eu realmente espero. Espero que o clube confie nele para melhorar as coisas. Eu acho que Arsène é o último exemplo de um treinador que traz estabilidade para o clube ao longo de tanto tempo. Sir Alex fez a mesma coisa no United e conseguiu sair quando soube que era o momento de sair. Espero que o mesmo aconteça com Wenger. Quando você está em um clube há 20 anos, é impossível ter sucesso todos os anos. Até Sir Alex dirá isso”, lembrou. 

Em 2015, horas antes de o Chelsea anunciar que demitiria Mourinho pela segunda vez, Wenger foi questionado, na sua entrevista coletiva, se acreditava que os Blues, apenas um ponto acima da zona de rebaixamento, brigariam para não cair. Respondeu categoricamente que não, “por causa da qualidade da equipe”. Os repórteres, então, perguntaram: “E do técnico?”. E a resposta foi: “Também”. Pressionado sobre o assunto, preferiu se esquivar: “Já dei uma boa resposta para vocês”. 

Em termos gerais, Wenger também apoiou Mourinho, quando o português estava balançando no cargo do United, depois da eliminação para o Sevilla, na Champions League. “Eu apoio todo mundo que sofre. O trabalho da imprensa é fazer todo mundo sofrer. Nosso trabalho é fazer com que o mínimo de pessoas possível sofra. Eu quero que todo mundo seja feliz. Não quero falar sobre a situação do Manchester United porque meu trabalho é cuidar do Arsenal. E, no geral, quero que o futebol inglês se dê bem e quero que todo treinador seja feliz”, contou. 

Por baixo das trocas de farpas, é possível encontrar respeito entre os dois treinadores. Dá para acreditar que Mourinho realmente pegou tanto no pé de Wenger por identificar ali um adversário de valor, mesmo nos momentos difíceis do Arsenal? Talvez. O português é conhecido como o mestre dos jogos mentais, e se os direcionou tantas vezes ao francês, foi por achar necessário. Agora que Wenger está prestes a ir embora, não há mais motivo para isso, e tudo que saiu da boca do português foram palavras de respeito e admiração. 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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