Premier League

A volta de Rooney ao Everton deve ser uma volta às origens também em sua posição em campo

“Que gol brilhante! Lembrem deste nome: Wayne Rooney”. Foram as palavras de Clive Tydesley, narrador britânico que descreveu desta forma o gol da vitória do Everton por 2 a 1 sobre o Arsenal, no dia 19 de outubro de 2002. Um garoto de 16 anos e nove meses entrava para a história naquele dia.

“Ele deveria ter 16 anos. [Michel] Owen é um atacante completo, mas eu não o vi jogar aos 16 anos. Nessa idade, Rooney já é um jogador completo. O garoto pode jogar. Ele é o melhor jogador sub-20 da Inglaterra que eu vi desde que cheguei aqui [1996]. Ele é inteligente e natural, construído como um Gascoine com um baixo centro de gravidade. E ele pode driblar – eu gosto de atacantes que podem driblar”. Estas palavras foram de Arsène Wenger na coletiva de imprensa após o jogo com o Everton, naquele outubro de 2002.

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Passados 15 anos, dos quais 13 ele passou no Manchester United, Rooney está de volta ao Everton para retomar a sua história. Uma aposta do time de Ronald Koeman em um jogador que mostrou pouco nos últimos anos, mas tem só 31 anos e parece, ao menos, longe da aposentadoria. Com o seu desempenho em nível tão baixo nos últimos dois anos, pelo menos, seria difícil imaginar o que o Everton quer com Rooney. Mas segundo o próprio atacante, quem foi decisivo na sua volta foi o técnico Ronald Koeman.

“Não vim para me aposentar”, afirmou Rooney”. “Eu vim para jogar, ganhar e ter sucesso. Eu me sinto bem. Não estou em forma no momento, mas isso será construído nas próximas semanas. Eu estou empolgado. Eu acho que é o momento certo e estou pronto para isso”, declarou Rooney em entrevista coletiva da sua apresentação, nesta segunda-feira.

O jogador foi perguntado sobre seleção inglesa, da qual ele deixou de ser convocado. E ele mostrou vontade. “Eu estou focado no Everton, em jogar bem pelo Everton”, disse o atacante. “Se eu fizer isso, Gareth Southgate terá uma decisão a tomar, se me coloca de volta no elenco ou não. Espero que meu desempenho seja bom o bastante para o Everton e ele não possa me ignorar se as atuações forem boas”, analisou.

A volta ao Everton é muito emotiva para Rooney e isso ficou claro na entrevista do jogador ao site do clube. “É uma ótima sensação estar de volta. Estou empolgado, eu mal posso esperar para encontrar os rapazes, ir para o campo de treino e entrar em campo para jogar. Estou extasiado, eu mal posso esperar para voltar a jogar”, continuou o novo camisa 10 dos Evertonians.

“O primeiro jogo de volta será um dia emocionante e eu estou ansioso por isso. Eu não estou voltando porque é o time que eu torço, o time que eu cresci jogando. Eu estou voltando porque eu sinto que o clube pode se mover adiante e ser bem sucedido. Eu quero ser parte disso. Haverá pressão em mim para ter bom desempenho, mas eu estou pronto. Eu acredito que posso ajudar a mover esse clube adiante e ser mais bem sucedido em campo”, declarou o jogador.

“Com o novo estádio em planejamento, é empolgante ser um jogador do Everton, ser torcedor do Everton. Fica sobre nós, jogadores, de fazer estes tempos ainda mais empolgantes em dar a eles bons desempenhos e tentar ajudá-los a serem bem sucedidos e trazer títulos para o clube”, disse.

Wayne Rooney comemora gol pelo Everton em 2003 (Photo by Michael Steele/Getty Images)
Wayne Rooney comemora gol pelo Everton em 2003 (Photo by Michael Steele/Getty Images)
Papel decisivo de Koeman

Segundo Rooney, a manifestação do técnico sobre o desejo de vê-lo de novo jogando pelo Everton foi fundamental na sua decisão. “Ronald Koeman teve muita influência na minha vinda para cá”, disse Rooney. “Quando ficou óbvio que eu sairia do Manchester United neste verão, Ronaldo falou comigo algumas vezes e disse o quanto ele me queria no clube e isso teve um impacto imenso em mim. Havia outras opções para mim, mas uma vez que soube que o Everton me queria de volta, então era a única opção para mim”, declarou ainda o jogador. “Quando falei com Ronald e vi nos seus olhos que ele queria que eu fizesse parte do time, nem precisei pensar este era o único lugar que eu viria”.

A paixão de Rooney pelo Everton é algo inquestionável. Ele revelou algo curioso na sua primeira entrevista à Everton TV, após o anúncio da sua contratação. “Me sinto ótimo [em vestir a camisa do Everton mais uma vez]. Para ser honesto, eu mantive em segredo nos últimos 13 anos, mas eu visto pijamas do Everton em casa com os meus filhos. Eu tinha que manter isso em silêncio”, disse, rindo, o jogador. “É ótimo. [Vestir a camisa] é especial como era há 13 anos e estou ansioso para entrar em campo com ela”.

“Goodison sempre foi um lugar especial, mesmo quando eu estive aqui pelo time adversário”, afirmou o jogador. “Sempre sinto algo especial quando ando pelo túnel, então fazer isso de novo com a camisa do Everton será um momento especial para mim”, declarou ainda Rooney.

“Eu firmemente acredito que nós temos o potencial para ter sucesso na liga e há as Copas. Nós certamente somos capazes de ganhar uma desas Copas. Você tem que ir passo a passo. É um conjunto difícil de jogos para começar a temporada, então temos que garantir que tenhamos uma boa pré-temporada para termos capacidade de começar bem”, analisou Rooney.

“Ao longo do verão, eu estive trabalhando em para onde eu iria. Eu falei com meu empresário e disse: ‘Escute, você precisa falar com o Everton, ver se pode acontecer’. Ele disse que poderia, então eu falei para ele conversar com o clube e fechar o mais rapidamente possível. Então aconteceu, estou muito feliz e pronto para começar”, contou ainda o jogador.

“Wayne me mostrou aquela ambição que precisamos e aquela mentalidade vencedora. Ele sabe como ganhar títulos e eu estou realmente feliz que ele decidiu vir para casa”, afirmou Koeman. “Ele ama o Everton e está muito ansioso para voltar. Ele ainda tem 31 anos e eu não tenho nenhuma dúvida sobre as suas qualidades. É fantástico tê-lo aqui”, declarou ainda o treinador holandês. E a grande questão para Koeman será justamente onde colocar Rooney em campo.

Wayne Rooney voltou a vestir a camisa do Everton (Foto: Everton FC/divulgação)
Wayne Rooney voltou a vestir a camisa do Everton (Foto: Everton FC/divulgação)
Posição de Rooney em campo no Everton

Rooney é a sexta contratação de Koeman na temporada. O Everton já trouxe Jordan Pickford (€ 28,5 milhões, do Sunderland), Michael Keane (€ 28,5 milhões, do Burnley), Davy Klaassen (€ 27 milhões, do Ajax), Henry Onyekuru (€8 milhões, do Eupen) e Sandro Ramírez (€ 6 milhões, do Málaga). Um elenco forte para tentar voltar à Champions League, um sonho duríssimo para uma liga tão competitiva e milionária como a Premier League.

Existe uma dúvida sobre onde colocar Rooney. Ele irá vestir a camisa 10 do Everton, mas ele irá atuar como um? Com Ross Barkley (que ainda pode deixar o clube, depois de ter rejeitado renovar o contrato no fim da temporada passada) e Davy Klaassen, não deve ser ali que Rooney será aproveitado. Considerando o jeito de jogar de Koeman, faria menos sentido ainda que ele fosse aproveitado pelos lados do campo. Então, é bem possível que vejamos Rooney voltar às origens também no modo de jogar: como um centroavante, como era o antigo camisa 10, Romelu Lukaku, que fez o caminho inverno em direção a Old Trafford.

Quando surgiu, Rooney era um atacante. Rápido, habilidoso e bom finalizador, se tornou o camisa 9 da seleção inglesa pouco tempo depois. Depois de vestir a camisa 8 quando chegou ao United, herdou a 10 de um centroavante, Ruud van Nistelrooy, quando o holandês foi para o Real Madrid, na temporada 2007/08. Nos últimos anos, ainda com Alex Ferguson no comando do Manchester United, Rooney passou a ser escalado mais atrás, inclusive como meio-campista central, ao lado dos volantes, como Michael Carrick. Seu rendimento também passou a oscilar muito mais. A posição que, em tese, era a de Rooney era de meia ofensivo, pelo centro, atrás de um centroavante.

Na coletiva desta segunda-feira, o técnico afirmou que pretende utilizar Rooney em uma posição no ataque. Ele descreveu que pode usar o jogador nas funções de camisa 10, camisa 9, camisa 7 ou mesmo em uma posição livre vinda da esquerda. Considerando as opções de ataque do time no momento, quem mais poderia fazer a função de referência do ataque seria Sandro Ramírez, mas Rooney é uma opção mais confiável.

Só que o time terá que se adaptar, porque Rooney é um jogador completamente diferente de Lukaku. Não só não é um artilheiro como o belga nos dias atuais, mas também pela sua movimentação e suas qualidades. Lukaku é um jogador que briga pelo alto, é forte, se impõe fisicamente e tem um chute muito forte. Rooney é um jogador de mais movimentação, chute de precisão e tem também um bom passe. Será preciso dividir mais os gols e não depender tanto dos gols do centroavante – Lukaku, sozinho, marcou 25 gols na Premier League.

Será que Rooney estará preparado? Veremos em campo. Provavelmente com Rooney sendo escalado como atacante, como era no tempo que vestia a camisa 18 do Everton e deixava os adversários impressionados com a sua capacidade.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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