Premier League

A década perdida do Liverpool

Dominante até os anos 1980, Liverpool viu a sua história mudar na era Premier League nos anos 1990, com erros seguidos e problemas que afastaram o time da disputa pelo título

Pela primeira vez desde o surgimento da Premier League, em 1992, o Liverpool parece disputar o Campeonato Inglês com chances reais de conquistar o título. A mudança nos padrões da liga da Inglaterra coincidiu com um dos momentos mais apagados da história do clube: a década de 1990.

Para entender um pouco o “apagão” do Liverpool nos anos 90 é preciso voltar à década anterior, quando os Reds dominavam o cenário inglês e eram um dos clubes mais temidos de toda a Europa.

O primeiro forte baque que o Liverpool sentiu em seu reinado aconteceu em 1985, quando o clube viajou à Bélgica para disputar a final da Copa dos Campeões contra a Juventus. Em 29 de maio, os Reds foram derrotados por 1 a 0 na final do principal campeonato de clubes da Europa, mas o resultado em campo foi o menos importante naquele dia.

Aproximadamente uma hora antes do apito inicial, torcedores do Liverpool iniciaram um tumulto no estádio Heysel que culminou com a morte de 39 torcedores, a maioria italianos. Como conseqüência, os clubes ingleses foram banidos das competições européias.

O Liverpool sentiu o golpe de não poder mais disputar a Copa dos Campeões, torneio que tinha conquistado por quatro vezes nos anos anteriores, mas conseguiu manter a hegemonia na Inglaterra, pelo menos até outro grande desastre manchar de sangue sua história quatro anos depois.

No dia 19 de abril de 1989, o clube de Merseyside enfrentaria o Nottingham Forest pela semifinal da FA Cup, no estádio Hillsborough, em Sheffield. Antes do início da partida, uma série de falhas na segurança – aliada a um tumulto provocado por torcedores que tentavam entrar no estádio – ocasionou a morte de 96 pessoas, todas torcedoras dos Reds.

O Liverpool entrou nos anos 90 com uma grande ferida aberta pela tragédia de Hillsborough, e um dos que a sentiu com mais intensidade foi o técnico Kenny Dalglish, um dos maiores ídolos do clube e que havia vencido por três vezes o Campeonato Inglês nos anos anteriores, incluindo 1990.

Depois de levar os Reds a seu último triunfo na Liga, Dalglish anunciou sua aposentadoria alegando que o cargo estava prejudicando gravemente sua saúde. Seu substituto no comando do Liverpool foi o escocês Graeme Souness, que treinava o Rangers.

Souness assumiu o Liverpool em abril de 1991 e, ignorando a máxima do futebol de que “em time que está ganhando não se mexe”, decidiu realizar algumas mudanças significativas no clube.

A primeira delas foi uma das mais criticadas com o passar do tempo. O novo treinador optou por um programa físico exaustivo durante a pré-temporada, o que fez com que vários jogadores se lesionassem antes mesmo do início do Campeonato Inglês.

O atacante Ian Rush, um dos principais ídolos da história do clube, perdeu 20 jogos da temporada por causa de lesões geradas pela forte pré-temporada. Em sua autobiografia, o jogador afirmou que Souness era o culpado pela série de contusões.

“A pré-temporada provocou uma série incrível de lesões em todos nós, antes mesmo que pelo menos uma bola tivesse sido chutada”, disse Rush.

Além disso, após a chegada de Souness o Liverpool perdeu vários jogadores importantes como Beardsley, McMahon, Venison e Houghton, e contratou outros visivelmente menos talentosos, como Walters, Kozma, Dicks e Clough.

O erro de Souness

A temporada 1991/92 começou de maneira dramática até para Souness, que ficou afastado nos meses de abril e maio devido a uma complicada cirurgia no coração. O alívio para o treinador e os torcedores veio com a conquista da Copa da Liga Inglesa, com uma vitória por 2 a 0 sobre o Sunderland em Wembley.

No entanto, no meio de abril, justamente no mês em que se completava o aniversário da tragédia de Hillsborough, Souness cometeu seu pior erro no comando do Liverpool: contar ao jornal “The Sun” a história de seu problema cardíaco.

Desde os incidentes em Hillsborough, os moradores e os revendedores de jornal de Liverpool boicotavam o tablóide, que logo após a tragédia publicou em sua capa a manchete “A verdade”, afirmando que torcedores dos Reds roubaram dos mortos e atrapalharam as equipes de resgate no atendimento aos feridos.

Ignorar a existência do “Sun” passou a ser uma questão de honra para os moradores de Merseyside, com exceção de Souness, que nunca foi perdoado pela torcida do Liverpool.

Depois de um conturbado ano, o Liverpool iniciou a temporada 1992/1993 com seu pior desempenho num começo de Campeonato Inglês em 39 anos. O clube não ameaçou em qualquer momento se aproximar dos líderes, e muitos já apostavam que Souness não continuaria no emprego no ano seguinte.

No entanto, a diretoria decidiu manter o treinador, e apontou Roy Evans, que tinha construído sua carreira em Anfield, como auxiliar-técnico. A indicação foi uma clara mensagem a Souness de que seu emprego estava em risco.

O Liverpool começou a temporada 1993/94 com três vitórias consecutivas, mas em seguida perdeu outras três partidas, colocando mais uma vez o cargo de Souness em risco. Os Reds então foram enfrentar o modesto Bristol City pela terceira rodada da FA Cup. Um empate em 1 a 1 na partida de ida e a surpreendente derrota por 1 a 0 em Anfield acabaram selando a demissão do escocês.

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Os anos Evans

Evans foi então indicado como seu substituto, e tudo apontava que o passado glorioso poderia finalmente voltar a Merseyside. Depois de um breve período como jogador e de passar 28 anos trabalhando no clube, o novo treinador era uma unanimidade entre torcida e diretoria.

Além disso, Evans tinha a sua disposição uma nova e brilhante geração de jovens jogadores, liderada por Robbie Fowler e Steve McManaman. Em sua primeira temporada completa, o Liverpool dava sinais de que finalmente retomaria o caminho de glórias do passado.

Na virada de 1994 para 95, os Reds acumulavam 45 pontos em 23 partidas, e ocupavam a terceira posição da Premier League, apenas 1 ponto atrás do Manchester United, vice-líder. Além disso, o clube de Merseyside conquistou pela quinta vez a Copa da Liga Inglesa, seu primeiro título em três anos, ao bater o Bolton por 2 a 1 na final em Wembley.

Pela primeira vez desde o início da década, o Liverpool jogava um futebol atraente e de alto nível. Antes do fim da temporada, o clube contratou Stan Collymore para formar dupla com Fowler no ataque, uma parceria que prometia ser a mais temida do futebol inglês.

No entanto, com o passar da temporada a equipe começou a mostrar muita irregularidade, e acabou perdendo fôlego na disputa pelo título inglês. O fato de o Liverpool alternar apresentações memoráveis com outras em que os jogadores pareciam não entrar em campo começou a pesar contra Evans, considerado por parte da torcida um homem “bom demais com seus jogadores para ser um treinador de sucesso”.

A maior chance do Liverpool de voltar a conquistar o título inglês aconteceu na temporada 1996/97. Depois de uma surpreendente derrota do Manchester United para o Derby County em Old Trafford no mês de abril, os Reds assumiriam a ponta da Premier League com uma vitória sobre o modesto Coventry em Anfield. Os comandados de Evans saíram na frente, mas acabaram cedendo a virada nos minutos finais. Mais uma derrota em casa no jogo seguinte, desta vez para o rival direto na briga pelo título, acabou custando o sonho do 19º Campeonato Inglês.

No período em que Roy Evans estava no comando, o Liverpool apresentou seu melhor futebol na década de 1990, mas terminar a Premier League entre os cinco primeiros era muito pouco para o clube com mais títulos na Inglaterra. Antes do início da temporada 1997/98, os Reds anunciaram que Evans dividiria o comando do clube com o francês Gerard Houllier, uma parceria que estava fadada a durar pouco tempo.

Depois de 34 anos a serviço do Liverpool, Evans anunciou que estava deixando o clube no dia 12 de novembro de 1998. Em uma emocionada coletiva de imprensa, ele afirmou que tinha tomado essa decisão porque não gostaria de ser “um fantasma em uma parede de Anfield”.

Com Houllier, coleção de copas

A era Houllier no Liverpool começou com uma derrota em casa para o Leeds United, a terceira em apenas uma semana em Anfield Road. Em seguida, os Reds foram eliminados pelo Manchester United em Old Trafford, depois de permanecer por toda a partida na liderança do placar e de sofrer a virada nos acréscimos.

A sorte do francês no comando do clube começou a mudar somente na temporada seguinte. As contratações de Sami Hyypia e Stephane Henchoz reforçaram consideravelmente o sistema defensivo, enquanto a chegada de Smicer e a promoção de Gerrard à equipe principal deram mais qualidade ao meio-campo.

Para a temporada seguinte, outros nomes de peso desembarcaram em Anfield, como Babbel e McAllister. O Liverpool então passou a ter uma equipe mais equilibrada, e os resultados em campo mostravam que Houllier estava no caminho certo.

A “década negra” do Liverpool acabou na temporada 2000/01. Apesar de não conquistar a Premier League, os Reds ficaram com os títulos das três copas que disputaram.

A primeira conquista veio na Copa da Liga Inglesa, no dia 25 de fevereiro de 2001. Depois de um empate em 1 a 1 contra o Birmingham, no Millennium Stadium, em Cardiff, o Liverpool levantou a taça após o triunfo por 5 a 4, nos pênaltis.

No dia 12 de maio, os Reds voltaram a Cardiff para disputar a final da FA Cup contra o Arsenal. Depois de um primeiro tempo sem gols, Fredrik Ljungberg abriu o placar aos 27 min da etapa complementar para a equipe londrina.

O Liverpool reagiu apenas nos minutos finais. O herói da conquista foi o atacante Michael Owen, que empatou a partida aos 38 min e marcou o gol do título aos 43 min.

Com os títulos das duas copas locais garantidos e a vaga na Champions League da temporada seguinte assegurada, os Reds viajaram a Dortmund, na Alemanha, para a decisão da Copa da Uefa contra o Alavés, da Espanha, no dia 16 de maio.

Depois de um emocionante 4 a 4 no tempo regulamentar, com gols de Babbel, Gerrard, McAllister e Fowler para o Liverpool, o título foi confirmado graças a um gol de ouro contra do meia Geli, da equipe espanhola.

A chegada do novo milênio ainda não tinha colocado o Liverpool novamente entre os principais clubes da Europa, mas a conquista do “treble” em 2001 mostrou a todos que um dos gigantes do futebol estava finalmente despertando.

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Equipe Trivela

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