A antologia de uma rixa: Os episódios que marcaram a rivalidade entre Manchester United e Newcastle nos áureos anos 1990
Manchester United e Newcastle foram concorrentes diretos pelo título da Premier League em temporadas seguidas, disputaram talentos no mercado de transferências e colecionaram entreveros na metade final da década de 1990
A Premier League teve rivalidades muito especiais nas suas primeiras temporadas. E uma das mais notáveis aconteceu entre Manchester United e Newcastle, dois clubes com certa proximidade geográfica, mas animosidade alimentada mesmo pelo campo. Eram dois times de filosofias bastante distintas, afinal. Os Red Devils de Sir Alex Ferguson tinham muita qualidade individual e uma geração ascendente, mas não se furtavam a doses de pragmatismo para vencer. Enquanto isso, os Magpies de Kevin Keegan abusavam do virtuosismo, num dos times mais vistosos de se ver na liga, embora nem sempre equilibrado. E foram diversos os embates históricos entre as equipes, especialmente quando eram concorrentes diretas pelo troféu. A temporada de 1995/96 é a mais famosa, quando o United tirou uma desvantagem de 12 pontos na tabela para superar os alvinegros e ser campeão. Mais do que isso, o enredo dessa disputa ainda inclui trocas de acusações na televisão, concorrência por talentos no mercado de transferências e uma rixa a cada reencontro que acontecia, inclusive em final de Copa da Inglaterra.
Neste domingo, uma parte dessa história se reaviva em Wembley, com o Manchester United x Newcastle pela final da Copa da Liga Inglesa. Assim, aproveitamos para relembrar o passado repleto de animosidade entre os dois clubes durante os anos 1990. Recontamos os grandes jogos, as campanhas paralelas e também os personagens que enriqueceram esse passado. Memórias que certamente voltarão à tona para muita gente que viveu aquele período.
Prólogo
Quando a temporada 1991/92 terminou, um abismo separava Manchester United e Newcastle. Mais precisamente, as duas equipes estavam a 40 posições de distância na pirâmide do Campeonato Inglês. Não foi uma temporada tão satisfatória assim para os Red Devils, que acabaram na segunda colocação da primeira divisão, quatro pontos atrás do Leeds United – mesmo com um prêmio de consolação na Copa da Liga Inglesa. Antes disso, Sir Alex Ferguson havia conquistado a Copa da Inglaterra que inaugurou sua série de troféus em 1990 e emendou depois um simbólico título da Recopa Europeia em 1991, justo na temporada que marcou a reabertura das competições continentais aos clubes ingleses após o banimento causado pelo Desastre de Heysel. Contudo, o Campeonato Inglês seguia como uma lacuna ao United, em seca que completava suas Bodas de Prata, com 25 anos desde a última glória com Sir Matt Busby. Do ponto de vista do Newcastle, ainda assim, aquela situação dos mancunianos soava como o paraíso.
O Newcastle amargava já 65 anos sem comemorar o Campeonato Inglês e 23 anos sem um troféu sequer. Se olhar para o passado doía, muito mais penoso era tentar vislumbrar o futuro e não enxergar absolutamente nada. Os Magpies tinham sido rebaixados da primeira divisão do Campeonato Inglês em 1988/89, num momento em que o clube parecia se esfarelar. A venda de Paul Gascoigne para o Tottenham era bastante custosa às pretensões dos alvinegros, ainda mais por se inserir num contexto em que outros enormes talentos saíam cedo de St. James’ Park, como Chris Waddle e Peter Beardsley. O Newcastle ficou a cinco pontos em sua tentativa de acesso em 1989/90, mas despencou para um modesto 11° lugar na segundona de 1990/91. O caos se tornou gradativamente maior, até que os nortistas flertassem com o rebaixamento para a terceirona em 1991/92. Durante a virada de 1991 para 1992, o time venceu apenas uma partida em 11 rodadas e não apenas o rebaixamento era palpável, como também o medo de falência.
A guinada do Newcastle teve dois nomes principais. Começa por Sir John Hall, filho de um mineiro que fez fortuna na construção civil, mas nunca se esqueceu do clube do coração. Diante de tamanhos problemas, o magnata resolveu botar a mão na massa e se tornou proprietário dos Magpies. Todavia, apenas a injeção de dinheiro não bastava. O presidente também buscou um homem de confiança para comandar o time à beira do campo. No início de fevereiro de 1992, Osvaldo Ardiles foi demitido como técnico do Newcastle. O escolhido de Sir John Hall foi alguém ligado ao clube desde o berço, como ele. Kevin Keegan torcia para o Doncaster Rovers durante a infância, mas cresceu na região e a família inteira era fanática pelos Magpies. Por isso mesmo, quando jogador, o atacante aceitou o desafio de se unir aos alvinegros em 1982. Fazia três anos que o craque havia faturado sua segunda Bola de Ouro e ele acabara de jogar uma Copa do Mundo, mas assinou com o clube na segunda divisão. Depois de dois anos, o ídolo conquistou o acesso e resolveu pendurar as chuteiras aos 33 anos. A maneira como criou uma sinergia com a torcida não se rompeu, mesmo depois da aposentadoria.

O futebol, contudo, deixou o dia a dia de Keegan quando ele se despediu dos gramados. O veterano preferiu se mudar com a família para a paradisíaca Marbella, na Espanha, enquanto dedicava seu tempo às filhas e ao golfe. Seu retorno à Inglaterra aconteceu depois de sete anos longe do país, a princípio para que as filhas estudassem por lá. Entretanto, quando Sir John Hall o procurou, ele não viraria as costas para o Newcastle. Keegan era conhecido como uma figura calorosa e contagiante. O proprietário dos Magpies o via como o nome ideal para uma guinada na segundona. “As duas pessoas que podem salvar o Newcastle estão falando neste exato momento. Você tem a paixão e eu tenho o dinheiro”, afirmou John Hall, segundo o próprio Keegan, em relato feito à FourFourTwo em 2019. Por todo o carinho que tinha com a torcida e também por acreditar numa reviravolta, o ex-atacante aceitou assumir a prancheta. “Estava empolgado com o potencial inexplorado do clube e como poderia ser o técnico a finalmente botar ordem na casa. Queria inspirar aqueles torcedores brilhantes e leais que abarrotavam St. James’ Park”, comentaria Keegan, anos depois, também à FourFourTwo.
Uma das primeiras atitudes de Keegan ao chegar no Newcastle foi tirar £6 mil do próprio bolso para promover uma reforma no centro de treinamentos do clube, que estava caindo aos pedaços. Foi sua forma também de oferecer um ambiente um pouco melhor aos seus jogadores. O resto, seu discurso fazia. Keegan não era exatamente um tático exímio, algo que ele mesmo reconhecia. Em compensação, tinha uma história nos gramados que falava por si e sabia como extrair o máximo de seus atletas – especialmente quando passaram a chegar os talentos que ele pedia. Em 1991/92, a salvação do rebaixamento veio. Por muito pouco, mas veio. O Newcastle venceu suas duas últimas partidas, incluindo um triunfo por 2 a 1 sobre o Leicester fora de casa na rodada final, graças a um gol contra no apagar das luzes. O time confirmou a permanência na segundona no 20° lugar, somente quatro pontos acima da zona de rebaixamento. Não seria desta vez que os alvinegros amargariam o inédito descenso à terceirona.
A temporada de 1992/93 demarcou uma revolução na Inglaterra, com a criação da Premier League. O Newcastle precisou ver tudo de fora, mas não demoraria a se juntar à festa. Com os reforços e a mentalidade ofensiva de Keegan, os Magpies deslancharam na segunda divisão. O time largou com 11 vitórias consecutivas e nadou de braçada no campeonato. O acesso veio com sobras, graças a uma vantagem de oito pontos na dianteira. As goleadas eram comuns e os alvinegros fecharam a campanha com um acachapante 7 a 1, contra o mesmo Leicester que encararam no ano anterior. Autor de uma tripleta naquela partida, e de 12 gols em 12 aparições pela segundona, Andy Cole era um dos heróis. O centroavante trazido em fevereiro, do Bristol City, se prometia como o mensageiro da bonança. Outro enorme destaque era o meio-campista Robert Lee, comprado junto ao Charlton e referência na ligação. Os Magpies queriam fazer barulho em seu retorno à primeira divisão, depois de quatro anos longe da elite.

O parâmetro dentro da Premier League era justamente o Manchester United, de Sir Alex Ferguson. Os 26 anos de espera pelo título inglês se encerraram em 1992/93. O treinador aprimorava o seu elenco entre homens de confiança e novatos que causavam impacto. Figuras como Steve Bruce, Denis Irwin, Gary Pallister, Paul Ince, Bryan Robson, Mark Hughes e Brian McClair ganharam já no ano anterior as companhias de reforços internacionais como Peter Schmeichel e Andrei Kanchelskis. Mais impactante ainda seria a contratação de Eric Cantona em novembro de 1992, após ser campeão com o Leeds United. Isso sem contar a geração de promessas da base que começava a despontar. Ryan Giggs já era uma revelação estabelecida, mas garotos como David Beckham, Nicky Butt e Gary Neville ganhavam suas primeiras chances. Com um elenco tão forte, não surpreendeu que os mancunianos tenham terminado o campeonato com uma vantagem de dez pontos na liderança sobre o Aston Villa, segundo colocado.
Naquele momento, o Manchester United era o time a ser batido. Kevin Keegan sabia disso. E o treinador do Newcastle não teve travas ao escrever um “se cuida, Alex, que queremos seu título” num programa de jogo distribuído em St. James’ Park na reestreia do Newcastle na primeira divisão. Eram outros tempos de Premier League, sem tantos abismos financeiros e com caminhos mais abertos a bons trabalhos de times em ascensão. Os Magpies, afinal, também tinham dinheiro e uma autoestima lá no alto. A ponto de tentarem tirar Roberto Baggio da Juventus naquele exato momento – num negócio que obviamente não vingou, às vésperas da conquista da Bola de Ouro pelo italiano. Mesmo assim, os alvinegros indicavam que não estavam a passeio nessa reaparição na elite.
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Episódio 1: Três dias, dois jogos decisivos
A promessa de Keegan ainda não se cumpriu na Premier League 1993/94. O Manchester United de novo sobrou na tabela. Sir Alex Ferguson pagou caro para levar Roy Keane ao seu meio-campo e o time ganhou mais consistência, especialmente quando tinha um Cantona em estado de graça no ataque. Com somente uma derrota na liga de janeiro a março, os Red Devils fecharam a campanha com oito pontos à frente do Blackburn. De quebra, conquistaram também a Copa da Inglaterra, em final contra o Chelsea. O Newcastle ficou 15 pontos atrás dos mancunianos, mas a terceira colocação era bastante honrosa para quem havia acabado de retornar. A recontratação de Peter Beardsley junto ao Everton foi uma das chaves para o sucesso, com uma série de outros reforços caros para readaptar a equipe à elite. Beardsley anotou 21 gols na Premier League e só não impressionou tanto porque Andy Cole empilhou absurdos 34 tentos, como artilheiro do torneio. Os alvinegros registraram o melhor ataque da competição e logo ganharam o apelido de “The Entertainers”, pelo entretenimento que o futebol agressivo proporcionava.
Os reencontros com o Manchester United foram parelhos. Em Old Trafford, as equipes empataram por 1 a 1, pela terceira rodada. Giggs abriu o placar com um golaço de falta e Andy Cole empatou no segundo tempo, numa oportunista escapada dentro da área. Já o reencontro em St. James’ Park também teve o repetido 1 a 1. Paul Ince assinalou o primeiro e de novo Andy Cole apareceu para deixar tudo igual. A posição dos times em 1993/94 deixava os reencontros mais promissores rumo a 1994/95. O Newcastle vinha fortalecido especialmente pela adição de Philippe Albert, presente em duas Copas do Mundo pela Bélgica, como novo líder da defesa. Já o Manchester United confiava na base bicampeã inglesa, mesmo que o veterano Bryan Robson tenha se despedido do clube no ocaso de sua carreira.
Aquela promessa de Keegan no programa de jogo, enfim, se concretizava. O Newcastle teve um início demolidor na Premier League. Foram nove vitórias e dois empates nas primeiras 11 rodadas de 1994/95, que obviamente elevaram os Magpies à liderança da competição. Em meio a essa bonança, o Manchester United apareceu no caminho duas vezes seguidas. Primeiro, pela Copa da Liga. Embora fosse uma partida válida apenas pelos 16-avos de final, o atrito entre os clubes crescia. No entanto, só os Magpies usaram sua base principal em St. James’ Park. Sir Alex Ferguson priorizou a liga e optou por escalar uma equipe recheadas de garotos – mesmo que alguns deles fossem do calibre de Beckham e Paul Scholes. A vitória por 2 a 0 dos anfitriões não surpreendeu, mas demorou a se confirmar.
Apesar das escalações limitadas, seria uma partida bastante animada. O Newcastle bombardeou a meta do Manchester United, mas não que os visitantes tenham apenas sofrido no primeiro tempo. Os anfitriões precisaram inclusive salvar uma bola em cima da linha para evitar o gol. A pressão dos Magpies no segundo tempo, entretanto, se tornou sufocante e o que se viu foi um monólogo dos alvinegros. O goleiro Gary Walsh ainda salvou os mancunianos um par de vezes, mas a insistência do Newcastle deu resultado nos minutos finais. Philippe Albert abriu o placar aos 38 minutos, ao se aventurar na área e desferir uma cabeçada firme após o cruzamento de Marc Hottiger. Já o segundo tento não tardou, num contragolpe fatal aos 43. Beardsley enfiou a bola e Paul Kitson ganhou na velocidade para dar um leve toque na saída do goleiro. O time de Kevin Keegan seguia em frente no certame.
A revanche de Sir Alex Ferguson não precisou esperar. O duelo pela Premier League aconteceu em Old Trafford e, na perseguição ao líder Newcastle, os Red Devils voltavam a acionar seus craques diante da torcida. O placar de 2 a 0 se repetiu, mas dessa vez invertendo o lado vitorioso. O United resolveu a parada de maneira muito mais rápida. O primeiro gol saiu aos 12 minutos, na bola parada. Giggs cobrou falta com perfeição e Pallister ganhou no alto para definir de cabeça. Os mancunianos seguiram com as melhores chances. No segundo tempo, quase Paul Ince anotou o gol da temporada, num foguete que explodiu no travessão. Já o tento que definiu o placar aconteceu aos 31 minutos. Keith Gillespie fez grande jogada individual pela ponta esquerda, balançou diante da marcação e bateu no canto. Dava até para ser mais, não fosse a atuação do goleiro Pavel Srnicek na meta alvinegra.
Aquela derrota teve seu preço ao Newcastle. Apesar da vitória sobre o QPR na rodada seguinte, a equipe entrou em espiral na Premier League. Nas 11 partidas seguintes, os Magpies conquistaram apenas uma vitória. A liderança escapou e o time ainda amargou a eliminação para o Manchester City nas oitavas de final da Copa da Liga. O ambiente em St. James’ Park não era dos melhores. Mas não que o Manchester United vivesse em céu de brigadeiro. Os Red Devils assumiram a primeira colocação da Premier League, mas por apenas uma rodada. Quem deslanchou naquele momento foi o Blackburn, dirigido por Kenny Dalglish e estrelado por Alan Shearer. Os Rovers emendaram uma sequência de 11 vitórias e um empate em 12 rodadas disputadas de outubro a janeiro, para fincar o pé na ponta.
Episódio 2: A transferência da discórdia
Aquele mês de janeiro mexeria bastante com Newcastle e Manchester United. E mexeria com os dois clubes juntos, num negócio de enorme impacto na Premier League. Andy Cole havia perdido um pouco de fôlego em relação à temporada anterior, mas seguia com bons números. Em 18 partidas pelo Campeonato Inglês, o centroavante anotou nove gols pelo Newcastle. Contudo, Kevin Keegan não sentia que seu artilheiro estava com o mesmo nível de comprometimento. Haviam surgido rumores sobre uma saída no início da temporada e o atacante parecia afetado com isso. Por mais que o Newcastle oferecesse ótimas perspectivas naquele momento, o matador podia capitalizar com seu sucesso, em busca de um contrato melhor. E os atritos se tornaram cada vez mais evidentes no dia a dia dos alvinegros, até que a bomba estourasse.
Durante um treinamento, Keegan e Cole bateram boca. “Eu me sentia tão cansado e não conseguia me animar. Keegan me perguntou se eu não estava gostando do treino e eu respondi que não. Então ele me disse para ir treinar sozinho e eu simplesmente fui embora”, relembrou Andy Cole, em entrevista à ITV, anos depois. Para o treinador, o melhor momento do centroavante tinha passado. Além disso, Keegan achava que o Newcastle ficava muito previsível com a presença do artilheiro, foco dos marcadores adversários, com muitas jogadas que acabavam nele. Se o atleta não queria mais se empenhar para mudar sua situação, o técnico preferiu abrir mão de seu principal destaque. Não se oporia se chegasse alguma oferta pelo inglês. O que logo aconteceu, quando na verdade era Keegan quem estava atrás de um reforço.

Keith Gillespie, ponta do Manchester United que marcara o segundo gol no duelo recente em Old Trafford, chamava atenção de Keegan. O treinador avaliava que seu encaixe na ponta seria ótimo para alimentar o ataque do Newcastle. Foi então que o comandante ligou para Sir Alex Ferguson, na intenção de negociar com o “manager” do Manchester United e trazer o jovem, prestes a completar 20 anos. Despretensiosamente, Fergie perguntou sobre a situação de Andy Cole. E o adversário aceitou envolvê-lo também na transferência. O United pagou £6 milhões pela compra de Cole e repassou Gillespie, avaliado em £1 milhão. Aquela era a transação mais cara da história até então a envolver um jogador inglês. Os Red Devils ganhavam um centroavante que fedia a gol, com 55 tentos em 70 partidas pelo Newcastle. Mas não que Keegan estivesse insatisfeito, ao levar uma promessa e se livrar de uma estrela que começava a causar problemas.
Nem todo mundo aceitou numa boa a transação, é claro. Ocorreram protestos em St. James’ Park e parecia incompreensível a muitos a perda do goleador do time exatamente para um concorrente na tabela. Keegan, em contrapartida, pedia para que seus torcedores confiassem no processo. Para quem tinha tirado os Magpies da segunda divisão duas vezes, como jogador e como treinador, sobravam créditos. Gillespie se tornou uma peça bastante funcional no 4-4-2 do Newcastle. Do outro lado, Cole conseguiu causar bom impacto e contribuiu com 12 gols em 18 aparições pela Premier League na metade final da temporada.
O duelo pelo segundo turno de 1994/95 aconteceu apenas dias depois da transferência, sem a presença dos negociados em campo. O Manchester United ocupava a segunda colocação da Premier League, enquanto o Newcastle era o quinto. Não foi um bom resultado para as equipes, com o empate por 1 a 1. O United abriu o placar rapidamente em St. James’ Park, com Mark Hughes, num lance que lesionou o veterano. O Newcastle insistiu, mas demorou a conseguir passar por Schmeichel. O gol saiu aos 22 minutos do segundo tempo, numa bobeira de Pallister que Kitson não perdoou. Os dois times tiveram boas chances de sair com a vitória no final, e os Red Devils lamentaram até mais, por desperdiçarem alguns contra-ataques abertos.
O Newcastle ficava fora do páreo pelo título da Premier League. E o Manchester United sofreu seu mais duro golpe naquela campanha duas rodadas depois, com a famosa voadora de Eric Cantona no torcedor do Crystal Palace, que resultou num gancho de nove meses ao craque. Os Red Devils até conseguiram alguns bons resultados, a exemplo dos históricos 9 a 0 sobre o Ipswich Town, com direito a cinco gols de Andy Cole. O problema é que os mancunianos não sustentaram a consistência e estava claro como a presença pontual de Cantona em alguns jogos amarrados poderia ter feito a diferença. O time chegou à última rodada com chances de título. Entretanto, empatou com o West Ham e permitiu que o Blackburn fosse campeão com um ponto a mais, mesmo com a derrota para o Liverpool no compromisso final. O último triunfo dos Rovers na campanha aconteceu contra o Newcastle, em Ewood Park, gol solitário de Shearer no placar de 1 a 0.
Episódio 3: O Natal incendiário
Por mais que o Blackburn entrasse na Premier League 1995/96 como atual campeão, não dava para descartar a força de Newcastle e Manchester United na briga pelo troféu. Os Magpies claramente estavam mais fortes. Sir John Hall gastou £16 milhões em reforços. A defesa ganhava o goleiro Shaka Hislop e o lateral Warren Barton, mas os grandes negócios estavam mais à frente. David Ginola era um dos melhores jogadores em atividade na França, mágico em seu período no Paris Saint-Germain. Vinha de um título recente na Ligue 1 e era um sinal enorme de ambição. Já a solução para o comando de ataque era Les Ferdinand, centroavante de excelente jogo aéreo e que destroçava defesas nos tempos de QPR. Keegan tinha motivos para ganhar confiança. Mantinha ainda outros talentos como Philippe Albert, Rob Lee, Keith Gillespie e Peter Beardsley.
O Manchester United, por outro lado, era visto sob desconfianças. De uma só vez, os Red Devils resolveram negociar três de seus principais jogadores: Paul Ince, Mark Hughes e Andrei Kanchelskis. Cantona permanecia suspenso durante as primeiras rodadas. E não que o clube tenha trazido reforços de peso para os lugares, num mercado apático dos mancunianos. A ideia de Sir Alex Ferguson era outra: preparar a geração talentosíssima que tinha em mãos e poderia, de fato, deslanchar a partir de então. É certo que uma base de nomes mais tarimbados estava mantida, como Peter Schmeichel, Denis Irwin, Steve Bruce, Roy Keane, Ryan Giggs e Andy Cole. O técnico, de qualquer maneira, acelerou a afirmação de garotos como David Beckham, Gary Neville, Phil Neville e Paul Scholes na equipe titular. A famosa “Classe de 92” teria a sua prova de fogo.

Uma frase que ecoou no início da temporada foi dita por Alan Hansen, lenda do Liverpool que trabalhava como comentarista no tradicional ‘Match of the Day’, o programa esportivo mais importante da Inglaterra, veiculado pela BBC. O veterano declarou que “não se pode ganhar campeonatos com garotos”. Botava em sérias dúvidas a capacidade do Manchester United em competir com a equipe que tinha. Sir Alex Ferguson iniciaria ali seus famosos “jogos mentais” para mexer com os brios de seus rapazes. Enquanto isso, o Newcastle reforçava a fama dos “Entertainers”. Os alvinegros chegavam ao ápice do futebol fluído e cheio de qualidade. Como relembraria Les Ferdinand, ao jornal The Independent: “Eu voltava para Londres e inevitavelmente alguém vinha até mim para dizer: ‘Não sou torcedor do Newcastle, mas sempre que vocês estão na televisão, eu paro para assistir, porque sei que sairão muitos gols’. Keegan fazia a gente se sentir invencível. Ele tentava entrar na mente das pessoas”.
Ou como Keegan definiria à FourFourTwo: “Nosso time era como um daqueles caleidoscópios, que você move uma peça e então tudo se torna brilhante no foco. Jogávamos um futebol ofensivo maravilhoso, e eu amava sentar no banco e assisti-los. De muitas maneiras, esse time foi um ato de egoísmo, porque criei uma equipe que queria assistir. Nunca conseguiria montar um time para empatar por 0 a 0, isso não é futebol. Os jogadores aproveitavam, havia uma positividade fluindo no clube, porque sabíamos que podíamos bater qualquer um. Demos aos jogadores liberdade, uma licença para jogar e serem eles mesmos. Nossa atitude era tudo sobre nós, sobre atacar”.
Desta forma, o Newcastle iniciou a Premier League de 1995/96 a galope. Os Magpies venceram as quatro primeiras partidas, antes de uma derrota para o Southampton. Depois, foram 11 jogos de invencibilidade e oito triunfos. Algumas atuações eram esplendorosas, como nos 3 a 1 sobre o Manchester City ou nos 6 a 1 diante do Wimbledon. Mesmo com uma derrota para o Chelsea no início de dezembro, os alvinegros dispararam na liderança. O Manchester United, por outro lado, dava razão aos críticos. Estreou com derrota para o Aston Villa. Até se recuperou com uma sequência invicta de dez partidas, sendo oito vitórias. Porém, novembro seria claudicante aos Red Devils. Os tropeços se acumulavam e nem mesmo a volta de Cantona resolvia, com o craque fora do melhor ritmo. Os mancunianos chegaram a atravessar uma sequência de cinco partidas sem ganhar até o Boxing Day. Foi então que pintou o primeiro confronto direto com o Newcastle, em Old Trafford, no dia 27 de dezembro de 1995.
O Newcastle sustentava uma vantagem de dez pontos sobre o Manchester United, mesmo que os Red Devils viessem na segunda colocação. Kevin Keegan contava com o time praticamente completo, com destaque a Gillespie e Ginola nas pontas, além de Beardsley e Les Ferdinand no ataque. Já o Manchester United confiava nos garotos, além de Cantona e Andy Cole na linha de frente. Certamente aquela foi a noite em que os Magpies mais lamentaram a saída de seu antigo artilheiro para os Red Devils. Ele seria instrumental para o triunfo dos oponentes por 2 a 0, o que reduzia as distâncias no topo da tabela para sete pontos. Não havia motivo para os alvinegros temerem ainda, mas não deixava de ser uma oportunidade desperdiçada.
Cole precisou de apenas seis minutos para inaugurar o placar. Os méritos, no entanto, são divididos com Giggs. O galês puxou o contragolpe e deu uma enfiada de bola excelente, para encontrar o centroavante com espaço no lado direito da área. Cole também foi muito inteligente e preciso, com uma finalização de primeira que entrou no cantinho. Do outro lado, quando Les Ferdinand escapou sozinho, Schmeichel se agigantou diante do atacante. O segundo tempo recomeçou melhor para o United. Giggs acertou o travessão logo de cara e, aos oito minutos, Roy Keane ampliou. Phil Neville inverteu uma bola perfeita e o meio-campista estava totalmente livre na área, com tempo para dominar e fuzilar. O United ainda poderia fazer o terceiro, não fossem os erros excessivos de Cole. Fato é que os garotos de Ferguson estavam vivos, num campeonato ainda longo pela frente.
Episódio 4: A noite de Schmeichel e Cantona
A derrota para o Manchester United era amarga, mas não derrubou o Newcastle. Pelo contrário, a resposta da equipe seria contundente. Foram cinco triunfos consecutivos depois disso, que consolidavam a primeira colocação. Em meados de janeiro, a vantagem na liderança alcançou os 12 pontos. Isso porque o Manchester United sofreu alguns tropeços na virada do ano, até que realmente engrenasse na Premier League. O crescimento do time parecia fazer as palavras de Ferguson proféticas. Durante o primeiro turno, o técnico falava aos seus jogadores que o melhor momento do time aconteceria a partir do primeiro semestre de 1996, quando o entrosamento entre veteranos e novatos aumentasse. Foi exatamente o que aconteceu, num time que passou a debulhar quem aparecesse pela frente.
Em fevereiro, o Manchester United conquistou cinco vitórias seguidas. E a grande notícia era a forma de Cantona, quase sempre decisivo para os resultados dos Red Devils. Já o Newcastle tinha problemas sérios. Gillespie sofreu uma lesão no abdômen e desfalcaria a equipe por meses. O ponta era a principal fonte de assistências dos Magpies, especialmente por seus cruzamentos açucarados a Les Ferdinand, em fantástica temporada de estreia. Mas, como não faltava dinheiro, Kevin Keegan teve carta branca para gastar. Foram dois negócios excelentes. Primeiro, ao tirar David Batty do Blackburn. O volante era nome constante na seleção inglesa e contribuiu para o título inglês do Leeds em 1991/92, antes de levar o troféu também com os Rovers, mas com poucos jogos após fraturar o pé. Já o ataque ganhava uma opção com Faustino Asprilla. O colombiano era uma estrela da sua seleção e também vinha bem aclimatado à Europa, num Parma que havia contado com seus gols para conquistar a Recopa Europeia e a Copa da Uefa.
A entrada de Asprilla na equipe, porém, mudava a dinâmica do Newcastle. Beardsley foi deslocado para o meio e o colombiano não deslanchou de imediato. Havia de novo um desgaste na capacidade competitiva dos Magpies. E a pressão do Manchester United aumentava. Os alvinegros perderam para o West Ham no fim de fevereiro e depois empataram com o Manchester City, em compromissos fora de casa. Com isso, o embalado United conseguiu reduzir a diferença no topo da tabela para quatro pontos no início de março. E o novo mês se abria com o confronto direto em St. James’ Park. O Newcastle era fortíssimo em seus domínios e contaria com uma apaixonada torcida a seu favor. O United deixava o fardo do outro lado e tentava aproveitar os atalhos, com um elenco cheio de elementos acostumados a serem campeões.

Os reforços do Newcastle foram titulares naquela partida em St. James’ Park. Asprilla acompanhava Les Ferdinand no ataque, Batty fechava o meio com Rob Lee, enquanto Ginola e Beardsley abriam nas pontas. Desfalque no duelo do Boxing Day, Albert também estava de volta à zaga. Já o Manchester United tinha problemas, a ponto de ter que improvisar Gary Neville ao lado de Steve Bruce na zaga. Todavia, estava preservada a espinha dorsal com Schmeichel, Irwin, Keane e Giggs, além da perigosa dupla de ataque formada por Cantona e Andy Cole. Foi uma noite inesquecível para os torcedores da casa, mas não pelos motivos que eles queriam. Os Red Devils ganharam por 1 a 0, graças a uma atuação monumental de Schmeichel.
O Newcastle atuou no “modo Entertainers” durante o primeiro tempo. Foi um vareio do time da casa, com muita voracidade no ataque. Schmeichel começou a encadear milagres. O goleiro foi perfeito ao abafar Les Ferdinand no mano a mano e realizou uma defesa ainda mais impressionante num chute à queima-roupa do centroavante. A movimentação de Asprilla e Ferdinand atormentava a desentrosada defesa mancuniana, com facilidade nas infiltrações. Schmeichel ainda tinha a sorte ao seu lado, quando Albert acertou o travessão numa pancada de falta e Ferdinand ainda isolou na sobra. Ginola levou perigo também num tiro cruzado. Enquanto isso, os Red Devils eram inócuos do outro lado. “A única diferença era Schmeichel. Nunca vi um goleiro como ele, de verdade. Ele era provavelmente o melhor goleiro do mundo na época e foi incrível naquele jogo. Sozinho ele nos segurou”, relembrou Rob Lee, ao Independent.
O clima nos vestiários seria bem distinto durante o intervalo. Kevin Keegan pedia aos seus jogadores para que mantivessem a mesma forma. Enquanto isso, Sir Alex Ferguson elogiava Schmeichel, mas cobrava sua linha defensiva. Não estava satisfeito. Seria curto e grosso para tentar chacoalhar o Manchester United. Posteriormente, o comandante avaliaria essa conversa como uma das melhores de sua carreira. O resultado, afinal, indicou como sua psicologia deu certo em St. James’ Park.
Logo de cara, o Manchester United perdeu uma grande chance no início do segundo tempo, com Andy Cole. O centroavante se redimiu, vital na construção do gol aos seis minutos. Cole deu duas fintas na entrada da área e bagunçou a defesa do Newcastle. Phil Neville passou na lateral esquerda e cruzou no capricho. Cantona estava desmarcado no segundo pau e acertou uma chicotada na bola, em tiro cruzado que morreu no fundo das redes. O som nas arquibancadas de St. James’ Park era de espanto. O Newcastle sentiu o golpe. A defesa dos Red Devils parava todos os ataques dos Magpies. Schmeichel não precisava mais trabalhar. Se os mancunianos fossem mais precisos, poderiam inclusive ter ampliado o placar, com boas oportunidades sem direção. E quando Ferdinand voltou a conectar uma cabeçada, Schmeichel foi soberano para segurar. O goleiro também foi excelente numa recuperação diante de Rob Lee dentro da área. Era basicamente a última chance de seu time. Keegan ficava atônito na beira do campo.
Episódio 5: A entrevista
O Manchester United manteve o ritmo, carregado por Cantona. Contando o jogo contra o Newcastle, foram seis rodadas seguidas com gol do atacante. Os Red Devils ganharam quatro dessas partidas por 1 a 0, sempre com um tento do craque. Também tiveram um empate por 1 a 1 diante do QPR (arrancado com um gol do francês aos 52 do segundo tempo) e um 3 a 2 no Dérbi de Manchester. A série invicta dos mancunianos se estendeu ao todo por 12 partidas, sendo 10 vitórias. “Era desmoralizante. Chegávamos todas as semanas e ouvíamos que eles ganharam: 1 a 0, Cantona. Não jogaram tão bem, mas 1 a 0, Cantona. Para mim, Schmeichel e Cantona ganharam o título. Foi implacável”, contaria Rob Lee, ao Independent.
Já o Newcastle até venceu o West Ham na partida seguinte, mas perdeu para o Arsenal em Highbury e sofreu uma penosa derrota para o Liverpool em Anfield. O triunfo dos Reds por 4 a 3 é considerado como um dos maiores resultados da história da Premier League. O Liverpool abriu a conta, o Newcastle virou e, depois que os Reds empataram no início do segundo tempo, os Magpies logo retomaram a vantagem. O time da casa, entretanto, achou o empate com Stan Collymore aos 23 minutos. E a vitória foi confirmada no último lance, com mais um tento fatal de Collymore. Curiosamente, o centroavante era o alvo preferido de Ferguson antes da compra de Andy Cole, mas o Nottingham Forest não quis negociá-lo na época.
Foi aquele jogo em Anfield que permitiu ao Manchester United, por tabela, se firmar na liderança. Os Red Devils até perderam a sequência invicta contra o Southampton, mas nada que custasse tão caro. Afinal, depois de bater o QPR, o Newcastle também perdeu no duelo contra o Blackburn. Na sequência, por mais que os Magpies emendassem uma série de vitórias magras, o United ainda era mais consistente e estava na frente. Teria uma vitória fundamental em seu antepenúltimo compromisso, ao derrotar o Leeds United por 1 a 0, com um gol solitário de Roy Keane. Já na rodada seguinte, o mesmo Leeds pegaria o Newcastle, e Sir Alex Ferguson aproveitou a ocasião para fazer um dos seus jogos mentais mais famosos.
Ferguson deu uma entrevista furiosa depois do jogo. O treinador do Manchester United afirmou que o Leeds havia tirado o pé durante a temporada inteira e resolveu fazer um duelo duro contra os Red Devils, por causa da rivalidade. Descascou a falta de profissionalismo dos adversários e até sugeriu que o técnico Howard Wilkinson repreendesse seus atletas. Kevin Keegan não gostou nada da atitude de seu colega, que, do seu ponto de vista, sugeriu que os oponentes só se esforçavam contra o United. Fergie, à sua maneira, queria pressionar os jogadores do Leeds a jogarem bem exatamente contra o Newcastle durante a rodada seguinte. No fim das contas, os Magpies até ganharam por 1 a 0 dos Whites. Entretanto, Keegan deu uma entrevista célebre em que desqualificou os comentários do escocês e declarou como queria derrotá-lo pelo título. Estava mordido também pela vitória por 5 a 0 dos mancunianos sobre o Nottingham Forest na rodada, que impulsionava mais os líderes.
“Quando você faz isso com jogadores de futebol, como Ferguson disse sobre o Leeds ou sobre um homem como Stuart Pearce… Fiquei muito quieto, mas deixa eu dizer uma coisa: ele caiu no meu conceito quando disse isso. Não recorremos a isso. Mas eu te direi, você pode falar agora para ele, se ele estiver assistindo: ainda estamos lutando por esse título e ele tem que ir para Middlesbrough e conseguir algo. Eu te digo honestamente: vou amar superá-los. Vou amar!”, afirmou Keegan, com um ranço visível. Nem todos gostaram da postura do comandante, entre eles seu assistente, Terry McDermott, companheiro do ex-atacante como jogador tanto no Liverpool quanto no Newcastle. Já os jogadores se sentiram representados pela postura.
Anos depois, Keegan reafirmou que não se arrependeu da atitude que tomou. Apenas expressou seus sentimentos e apontou que Ferguson cruzou um limite que ele nunca passaria. Não tinha nada contra Fergie, e até participaram de ações em conjunto (comentaristas na mesma emissora durante a Euro 96, por exemplo), mas também não compartilhava seus métodos. E se o destempero do treinador do Newcastle marcou a derrocada do time, na verdade, a situação já era bem difícil. Os Magpies ainda tinham uma partida a mais por fazer, com três pontos a menos que o Manchester United. Porém, os alvinegros só empataram com o Nottingham Forest dentro do City Ground no penúltimo compromisso. Já no dia final, enquanto o Newcastle sucumbia no 1 a 1 diante do Tottenham em St. James’ Park, o United selava sua campanha com uma vitória segura por 3 a 0 sobre o Middlesbrough. Andy Cole anotou um dos gols. Os Red Devils tiraram 12 pontos de diferença, para terminar quatro à frente. Ainda contavam com um saldo amplamente superior. Como consolo, Les Ferdinand foi eleito o melhor jogador do campeonato, enquanto Rob Lee e Ginola também entraram no 11 ideal da liga.
À FourFourTwo, em 2019, Keegan refletiria sobre a derrocada do Newcastle: “Não adianta fingir que não desmoronamos mentalmente no final da temporada. Jogamos sob uma tensão incrível. As chances surgiam aos jogadores que você esperaria finalizá-las, mas estávamos errando todas. O que eu teria feito diferente? Sinceramente, não posso dizer nada. O que as pessoas queriam que eu dissesse para meu time? ‘Ok, rapazes, estamos 12 pontos à frente, jogamos um futebol fantástico, mas vocês querem saber? Vou mudar a forma como jogamos. Deixarei o Ginola de fora e colocarei outro zagueiro’. Vamos lá! Isso nunca aconteceria. Tínhamos uma maneira de jogar e estávamos presos a ela. Éramos os Entertainers. Talvez a história julgue que entretemos demais e deveríamos ter fechado a casinha, mas não tinha jogadores para isso. As pessoas dizem que perdemos a liga, mas o United ganhou. Olhe a campanha depois do Natal, eles continuaram vencendo”.
A questão mental muitas vezes é citada para explicar o fracasso do Newcastle. Era um elenco sem tantas opções, com uma defesa desnivelada em relação ao ataque e que perdeu o fio da meada na virada do ano. Contavam com alguns jogadores experientes, mas não tão acostumados às taças, como se via no Manchester United. Como concluiria Schmeichel, ao Independent: “Os garotos do United – eu digo os garotos – foram trazidos para esse time tendo passado por toda a base e por todo o aprendizado num ambiente de alto rendimento. Eles nunca foram incomodados por nada realmente. Sempre houve essa crença. Foi assim que terminamos no topo naquela temporada. Sabíamos que éramos nós e toda a experiência que tínhamos, de quatro anos ganhando e desafiando. Agora, para o Newcastle, eles eram um time fantástico, mas não tinham esse detalhe. Eles não tinham experiência”.
Episódio 6: O chapéu
Keegan pensou em deixar o Newcastle ao final da temporada 1995/96, mesmo tendo se apalavrado num contrato de 10 anos – que não tinha sido assinado. A relação com Sir John Hall não era das melhores, especialmente por causa da recusa do técnico em aceitar a contratação de novos defensores na reta final da campanha – em tempos nos quais não existiam janelas de transferências. Presidente e treinador esclareceram as situações e mantiveram a parceria para 1996/97. Os Magpies, afinal, levariam o melhor atacante da Inglaterra para St. James’ Park. De quebra, dando uma rasteira no Manchester United durante as negociações.
Alan Shearer nasceu em Newcastle upon Tyne, mas não chegou a atuar no Newcastle durante a base. O garoto chegou a ser aprovado numa peneira do clube, mas preferiu assinar contrato com o Southampton. Por lá, se provou como um dos atacantes mais letais do futebol inglês. E desde então já atraía o interesse de Sir Alex Ferguson, que tentou levá-lo para o Manchester United. O Blackburn, entretanto, tinha uma fortuna na época. Era bancado pelo magnata Jack Walker e o empresário não mediu esforços na contratação de Shearer em 1992. Foram quatro anos excelentes com os Rovers, com 130 gols em 171 partidas e o título da Premier League em 1994/95. O artilheiro estava em alta durante a Euro 1996 e liderou a ótima campanha da Inglaterra até as semifinais. Muito bem cotado no mercado, virou um nome bastante quente.

Clubes da Europa continental queriam levar Shearer. Real Madrid, Barcelona, Juventus e Milan estavam interessados. No entanto, o centroavante preferia ficar na Inglaterra e tinha se apalavrado com o atual campeão nacional: sim, o Manchester United. Shearer visitou a casa de Sir Alex Ferguson e garantiu que se mudaria a Old Trafford. Contudo, muita gente não gostava dos Red Devils. Entre eles, Jack Walker, o dono do Blackburn. O proprietário achava que vender o atacante para um vizinho regional era reforçar um rival. Assim, depois de alinhar o negócio por £10 milhões, resolveu pedir £15 milhões. Foi quando o Newcastle entrou forte na jogada, graças à fortuna de John Hall.
Era natural imaginar Shearer no Newcastle, por sua ligação com o clube desde a infância. Seu maior ídolo era ninguém menos que Kevin Keegan, sobre quem tinha lembranças nas arquibancadas de St. James’ Park. E por mais que o centroavante tenha prometido sua fidelidade ao Manchester United, o Blackburn não fez o mesmo. O craque não contrariaria Jack Walker, a quem via como uma figura paterna. Os Magpies bancaram a transferência por £15 milhões, recorde mundial naquele momento. Logo o artilheiro declararia seu amor aos alvinegros, o que não deixava o Manchester United nem ficar com raiva. “Quando o Newcastle me contratou em 1996, eles me deram a chance de representar meu clube de infância. De viver os melhores anos da minha carreira. Eu sempre irei agradecer a maneira como eles me tornaram o que sou hoje em dia”, rememorou Shearer, anos depois. Mais de 15 mil pessoas receberam o atacante em sua calorosa apresentação.
Se por um lado o Newcastle concentrou seu investimento em Shearer, sem sofrer perdas significativas em sua base titular, o Manchester United tirou o escorpião do bolso. Foi um verão movimentado em 1996, de transferências internacionais. O centroavante escolhido para ocupar a lacuna de Shearer foi uma aposta vinda do Molde, ninguém menos que Ole Gunnar Solskjaer. Karel Poborsky vinha em alta do Slavia Praga, após grande Eurocopa, enquanto Jordi Cruyff era uma promessa que tentava sair da sombra do pai ao deixar o Barcelona. Claramente o elenco estava fortalecido, com a base campeã preservada. E o primeiro duelo com o Newcastle aconteceu na abertura da temporada. Como o United havia vencido tanto a Copa da Inglaterra quanto a Premier League, o vice-campeão da liga foi convidado para disputar a Community Shield. No caso, os Magpies.
O Newcastle tinha Shearer no comando do ataque ao lado de Les Ferdinand, além de seus outros figurões. Já o United manteve a base campeã para o duelo. A partida era significativa para os Magpies, que não disputavam um compromisso em Wembley desde 1976. Terminou em paulada. Os Red Devils ganharam por implacáveis 4 a 0. Cantona abriu o placar aos 24 minutos, ao contar com a complacência da frágil defesa alvinegra. Seis minutos depois, Beckham executou um fantástico cruzamento e Nicky Butt mergulhou para fazer de cabeça. Quando Les Ferdinand tentou responder, Schmeichel realizou grandes defesas. E, nos minutos finais, o United matou o jogo. Beckham marcou por cobertura num contra-ataque e Roy Keane fechou a conta com um chute de longe. As críticas à performance dos Magpies eram massivas.
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Episódio 7: A revanche avassaladora
A Premier League 1996/97 não começou de maneira positiva para o Newcastle. Os Magpies perderam dois de seus primeiros três jogos. Somente a partir de setembro é que a equipe realmente engrenou. Foram seis vitórias consecutivas, que alçaram a equipe à primeira colocação do campeonato. O Manchester United, contudo, também estava forte na disputa. A equipe sustentava sua invencibilidade após nove rodadas, apesar do excesso de empates. Isso até que 20 de outubro de 1996 marcasse mais um reencontro dos oponentes em St. James’ Park. Não o mais importante daquele período histórico, mas o mais explosivo. Os anfitriões, afinal, transformariam os mancunianos em poeira.
O Newcastle completava àquela altura nove anos sem ganhar do Manchester United pelo Campeonato Inglês, desde o longínquo Boxing Day de 1987. Derrotar os campeões nacionais era a forma de afirmar como a hecatombe da temporada anterior ficara no passado e os Magpies estavam mais fortes para buscar o troféu. A escalação dos alvinegros vinha completa, com Ginola, Beardsley e Rob Lee na aproximação, além de Shearer e Les Ferdinand mais à frente. Enquanto isso, o United tentava se virar sem a presença de Roy Keane na cabeça de área e de Ryan Giggs na ponta. Ainda havia muita qualidade num meio com Beckham e Poborsky abertos pelos lados, além de Cantona e Solskjaer na frente – Andy Cole fraturara a perna, outro desfalque sentido. No entanto, desta vez Schmeichel não seria suficiente para evitar a doutrinação: 5 a 0 para o Newcastle.

O Newcastle conseguiu imprimir um ritmo muito forte desde o início da partida. A defesa do Manchester United tentava se segurar, mas o abafa dos Magpies era enorme. E o primeiro gol saiu aos 12 minutos, a partir de um escanteio. Shearer ganhou no alto e o zagueiro Darren Peacock mandou para dentro. Ainda havia dúvidas se a bola tinha entrado ou não, com a tentativa de Denis Irwin em tirar de cima da linha. Porém, para reclamação dos mancunianos, o tento foi validado. O United não era passivo. Tinha volume pelos lados de campo e assustou numa falta cobrada por Cantona para fora. No entanto, o Newcastle estava em seu dia. Ampliou com um lance sensacional de Ginola, aos 30. O francês dominou no bico da grande área, girou e mandou um chute potente no ângulo. Schmeichel sequer conseguiu saltar.
Se faltara confiança para o Newcastle na derrota anterior em St. James’ Park, desta vez a equipe estava com o objetivo claro em mente. Shearer dava nova qualidade ao ataque e era uma ameaça constante. Quase deixou seu gol no fim do primeiro tempo, numa pancada do meio da rua que estalou a trave de Schmeichel. O Manchester United não conseguia se encontrar e ainda teve uma dose de destempero, quando Batty e Butt se desentenderam no meio do campo. Os Magpies cresciam junto com sua torcida, sedenta por uma revanche pelas duras derrotas anteriores. Era um clima incendiário, digno de uma partida histórica.
O Manchester United voltou para o segundo tempo disposto a mudar o jogo. Poborsky parou numa boa defesa de Pavel Srnicek e, no rebote, o chute de Cantona seria rifado quase em cima da linha. Mas estava claro como o Newcastle tinha mais recursos naquela noite. Les Ferdinand perdeu boa chance para fazer numa cabeçada dentro da área. Quando a oportunidade apareceu de novo ao centroavante, ele não perdoou e anotou o terceiro gol, aos 18. Shearer foi curtir uma de ponta direita e passou por Irwin, antes de cruzar na medida para Les Ferdinand. O atacante saltou no meio de dois e sua cabeçada foi tão precisa que bateu no travessão e depois na trave antes de morrer dentro do gol. Era um banho de água fria nas pretensões dos Red Devils.
O Manchester United não desistiu por completo do resultado e chegava no ataque com mais constância. Srnicek faria mais uma defesa em batida de Beckham. Contudo, os Red Devils davam bem mais espaços e foi então que o Newcastle aproveitou para golear. O quarto gol veio nessa sequência, aos 30, por mais que Schmeichel tenha tentado evitar. O goleiro realizou duas grandes defesas, num chute cruzado de Beardsley e depois contra Les Ferdinand no rebote. A bola seguiu viva na área e Shearer também mostrou seu instinto. Os Magpies passaram a jogar fácil, com ótimas trocas de passes. A equipe parecia flutuar em campo nas tabelinhas. E o quinto gol foi uma obra de arte, para dignificar uma noite tão especial. Aos 38, Philippe Albert apresentou sua categoria. O zagueiro dominou na intermediária e teve muito espaço para avançar. De fora da área, resolveu bater por cobertura e humilhou Schmeichel, pregado no chão. O goleiro não teve a mínima chance de impedir a pintura. Era a chave de ouro para um resultado inesquecível.
Episódio 8: O adeus e a tentativa de traição
O Newcastle abriu três pontos de vantagem na liderança com os 5 a 0. Porém, não demorou para que o time levasse um choque de realidade. Shearer lesionou a coxa e ficaria semanas fora da equipe. Logo os tropeços se tornaram muito frequentes. A derrota para o Leicester na rodada seguinte foi um banho de água fria. Depois, o time até venceu o Middlesbrough em St. James’ Park. Porém, iniciaria uma sequência de sete rodadas sem ganhar, até o Boxing Day. Os alvinegros, que se sustentaram por cinco rodadas na primeira posição, caíram para o sexto lugar na virada do ano. Já o Manchester United sofreu três derrotas seguidas após a pancada em St. James’ Park, mas iniciou uma recuperação depois disso. No fim de dezembro, o time era o vice-líder e indicava bem mais fôlego para sonhar com o bicampeonato.
O Newcastle teve um alívio na virada do ano. Goleou o Tottenham por 7 a 1, antes de enfiar 3 a 0 sobre o Leeds United. Até parecia que os melhores dias dos Entertainers tinham voltado. Porém, aquela foi a deixa para que, em 8 de janeiro de 1997, Kevin Keegan pedisse demissão dos Magpies. Não era uma atitude impulsiva do treinador. Ele já vinha ensaiando o movimento desde antes, inclusive no Boxing Day, quando afirmou que “já tinha levado o time o mais longe que podia”, após a derrota contra o Blackburn. Estava claro como o técnico se via esgotado, com o impacto do título perdido na temporada passada.

“O fantasma da espetacular derrocada da temporada passada ainda assombra Keegan. A simples verdade é que ele não se recuperou mentalmente da chocante decepção de perder o título há sete meses. Depois que o Manchester United fez desabar a vantagem do Newcastle que parecia inacessível, Keegan se tornou cada vez mais taciturno, retraído e confuso”, escreveu na época Brian McNally, nas páginas do Sunday Mirror. O jornalista chegou inclusive a ser chamado para uma reunião no Newcastle, em que o clube garantiu que a posição do treinador estava segura. Mas não era isso que Keegan sentia, por mais que rechaçasse o teor do artigo.
Três dias depois de um empate com o Charlton pela Copa da Inglaterra, Keegan apresentou seu pedido de demissão, desta vez sem voltar atrás: “Foi minha decisão sozinho. Sinto que levei o clube o mais longe que poderia e que seria do interesse de todos os envolvidos que eu me demitisse agora”. Existia um clima de consternação e enterro no Newcastle, com os torcedores abatidos pelo rompimento. Mesmo com a derrocada recente, eles ainda acreditavam que Keegan poderia ser o homem certo para conduzir os Magpies de volta ao topo, especialmente depois da chegada de Shearer. A parceria entre o velho craque e o novo artilheiro não passou de seis meses. E não seria um vazio fácil de ser suplantado, considerando a estatura de Keegan no St. James’ Park.
Terry McDermott assumiu o comando de forma interina. O nome visto como ideal para o posto de técnico era o de Sir Bobby Robson. Treinador da Inglaterra em duas Copas do Mundo e de um trabalho fantástico à frente do Ipswich Town na virada dos anos 1970 para os 1980, o treinador era sabidamente torcedor do Newcastle. Apesar disso, Robson seguia com muito moral em trabalhos consecutivos na Europa continental e naquela época dirigia o Barcelona, sem disposição para romper seu contrato. Diante da impossibilidade, Sir John Hall tentou então um movimento mais ousado, de um técnico consolidado na Premier League e multicampeão. Se não era possível vencer Sir Alex Ferguson, então os Magpies tentaram se juntar a ele.

“A saída de Kevin foi um golpe duro, mas Alex Ferguson teria se saído bem. Ele era o melhor no ramo. Precisávamos de alguém para manter o ritmo quando Kevin saiu e os rapazes sentiram que tinham uma chance de tirar Alex do Manchester United, onde ele já havia transformado o clube para ganhar muitos troféus. Nosso ex-presidente Freddy Shepherd me revelou o que aconteceu após nosso fracassado golpe com Ferguson. Ele me contou que o presidente do United obviamente soube do que acontecia. Logo ligou e perguntou se Freddy tinha algo a dizer. ‘Como assim Ferguson? Estava num barco e quase caí!’. Teria sido ótimo se tivéssemos conseguido”, relembrou Martin Edwards, ex-presidente dos Magpies, ao Express.
O escolhido para seguir o trabalho foi Kenny Dalglish, um treinador multicampeão no Campeonato Inglês à frente do Liverpool e também do Blackburn, que poderia reeditar a parceria com Shearer em St. James’ Park. O Newcastle melhorou seus resultados depois da mudança, com apenas duas derrotas nos 16 compromissos pela Premier League 1996/97 sob as ordens de King Kenny. As ambições de título, de qualquer forma, já tinham ficado pelo caminho. Os alvinegros transitaram a maior parte do segundo turno na quarta colocação e só na rodada final, graças a uma goleada por 5 a 0 sobre o Nottingham Forest, é que tomaram de assalto a segunda posição. Terminaram a campanha sete pontos atrás do novamente campeão Manchester United. Os Red Devils assumiram a dianteira no final de janeiro e não saíram mais, administrando bem a vantagem, sem muitos tropeços. Quando o duelo com o Newcastle aconteceu no segundo turno, na penúltima rodada, os mancunianos já eram campeões. O empate por 0 a 0 em Old Trafford serviu à volta olímpica.
Episodio 9: A final da FA Cup
A temporada de 1997/98 marcou um desmanche do Newcastle. Nomes importantes como David Ginola, Les Ferdinand e Peter Beardsley deixaram o clube em julho, enquanto Faustino Asprilla saiu em janeiro. Artilheiro da Premier League anterior e também eleito o melhor jogador, Alan Shearer passou um longo tempo no estaleiro. Até mesmo Sir John Hall deixou sua posição na presidência, repassando ao filho Douglas Hall, mas uma série de declarações deploráveis do substituto fizeram o magnata voltar ao posto. Já era uma equipe bastante modificada que buscava novas referências. A lista de reforços incluía velhos conhecidos de Kenny Dalglish, como John Barnes e Ian Rush, além de figuras como Gary Speed, Shay Given e Stuart Pearce. Já no Manchester United, o elenco continuava bastante parecido. Mas não era o mesmo porque Eric Cantona decidiu se aposentar. Era um momento em que a Classe de 92 precisava ascender ainda mais com um papel de liderança. Já o ataque ganhava a alternativa de Teddy Sheringham, vindo do Tottenham, para manter o nível competitivo.
O Newcastle até começou a campanha com bons resultados, mas passou a acumular tropeços a partir de outubro e atravessou longas secas na Premier League. O duelo com o Manchester United aconteceu em 21 de dezembro, quando os Magpies ocupavam um modesto nono lugar e os Red Devils lideravam. Os favoritos venceram em St. James’ Park, com mais uma atuação excepcional de Schmeichel. O goleiro realizou duas defesas espantosas em bolas à queima-roupa e o triunfo por 1 a 0 dos mancunianos foi selado por Andy Cole, com uma cabeçada no contrapé de Shaka Hislop, aos 21 do segundo tempo. Já estava claro como a rixa entre Newcastle e Manchester United não se sustentava mais como nos outros anos.
O Newcastle fez sua pior campanha na Premier League desde o acesso, com o 13° lugar que passou longe de qualquer chance de título. O alento naquela temporada ficou para a campanha na Copa da Inglaterra, em que os Magpies aproveitaram um caminho relativamente acessível para alcançar a final. Perderam para o Arsenal, por 2 a 0, gols de Marc Overmars e Nicolas Anelka em Wembley. E o time de Arsène Wenger se provou como algoz do Manchester United, ao faturar a Premier League 1997/98. Os Red Devils lideravam até meados de abril, mas a derrota no confronto direto com os Gunners em Old Trafford teve um preço alto. Apesar de uma breve retomada na sequência da liga, os mancunianos viam os londrinos na cola e perderam a liderança com dois empates consecutivos, contra Liverpool e Newcastle.
O Manchester United 1×1 Newcastle foi cheio de alternativas. Andreas Andersson anotou o primeiro dos Magpies aos 11 minutos e Beckham empatou de peixinho para o United aos 38. Durante o segundo tempo, Shay Given acumulou grandes defesas para frustrar o United. E o Newcastle também perdeu chances claríssimas, com bola na trave e um lance limpo que Gary Speed isolou na área. Depois disso, o United até ganhou seus últimos três jogos. Mesmo assim, terminou em segundo, um ponto atrás do Arsenal.
Para a temporada 1998/99, o Newcastle não era mais que uma sombra dos velhos Entertainers. O meio-campista Rob Lee e o lateral Warren Barton eram os únicos remanescentes do time de 1995/96 entre os titulares mais frequentes. Enquanto isso, outras adições importantes chegavam, a exemplo de Dietmar Hamann e Nolberto Solano. Já no comando técnico, Kenny Dalglish saiu logo em agosto e Ruud Gullit chegou numa nascente carreira de treinador, referendado por um bom trabalho à frente do Chelsea, com o qual havia conquistado a FA Cup. O problema é que o craque holandês entrou em atrito com importantes lideranças dos vestiários alvinegros, mais notadamente o capitão Rob Lee, figura central em todas aquelas empreitadas dos anos 1990. O Manchester United, por sua vez, experimentava um clima totalmente diferente. O clube até se despediu dos veteranos Gary Pallister e Brian McClair, mas os reforços de Jaap Stam e Dwight Yorke eram até melhores. A Classe de 92 atingia o pico de seu amadurecimento, com um time bastante consciente de suas forças. Os Red Devils estavam prontos a fazer mais história.
Desta vez, o Newcastle sequer empolgou na largada da Premier League, com quatro rodadas em jejum até a primeira vitória. O time ocupava o 13° lugar quando aconteceu o duelo com o Manchester United, vice-líder, em Old Trafford. Os Red Devils também não haviam começado tão bem, mas vinham de triunfos recentes e não foi o 0 a 0 no placar que tirou os mancunianos do páreo. Como em outros anos, o United realmente embalou a partir da virada do ano, com uma sequência invicta de 19 partidas entre o Boxing Day e o término da campanha. O reencontro com o Newcastle, em 13 de março, aconteceu exatamente durante o período mais inspirado. Não houve St. James’ Park que intimidasse, no triunfo dos Red Devils por 2 a 1. Solano abriu o placar para o Newcastle numa lindíssima cobrança de falta, no ângulo de Schmeichel. A reação dos mancunianos teve dois gols de Andy Cole, o primeiro antes do intervalo, num lance de oportunismo, e o segundo se antecipando a Given para concluir um cruzamento no segundo tempo.
O Manchester United ainda teve a perseguição de Arsenal e Chelsea, mas o excelente momento garantiu o título na Premier League com um ponto de vantagem sobre os Gunners. O Newcastle fechou o campeonato de 1998/99 num fraco 13° lugar. Mas não que os duelos entre os times tivessem acabado. Em 22 de maio, aconteceu um reencontro em Wembley, na final da FA Cup. Os Magpies repetiram a decisão, numa campanha bem mais encardida. Chegaram a eliminar o Blackburn no replay das oitavas, o Everton nas quartas com goleada por 4 a 1 e despacharam o Tottenham na prorrogação da semifinal – com dois gols de Shearer. Já o Manchester United encarou um caminho ainda mais difícil. Superou Middlesbrough, Liverpool e Fulham, antes de duelos com o Chelsea e o Arsenal nos quais foram necessários replays. O segundo encontro com os Gunners pelas semifinais, aliás, é célebre. O United ficou com dez homens após a expulsão de Roy Keane e ainda viu Schmeichel salvar um pênalti contra Dennis Bergkamp nos acréscimos do segundo tempo, antes de Ryan Giggs determinar a vitória por 2 a 1 com um golaço na prorrogação.
O Manchester United atravessava uma maratona de jogos. Além dos replays na FA Cup e da reta final da Premier League, a equipe também havia garantido entre março e abril sua classificação para a final da Champions League, a primeira em 31 anos. Era uma ocasião especial que ocorreria apenas quatro dias depois do compromisso com o Newcastle em Wembley. Até por causa disso, o United optou por rodar o time na final da Copa da Inglaterra. Paul Scholes e Roy Keane, suspensos para a decisão continental, compuseram o 11 inicial. Em compensação, Dwight York e Jaap Stam ficaram só no banco. A espinha dorsal entre os titulares tinha Schmeichel, Beckham e Giggs, além do ataque composto por Andy Cole e Solskjaer. O Newcastle, enquanto isso, preocupava por uma sequência final de sete partidas sem vencer na Premier League. Não era o melhor time dos Magpies naqueles anos, mas tinha boas peças. O meio reunia um bom quarteto com Rob Lee, Hamann, Gary Speed e Solano. Já na frente, Shearer usava a braçadeira e tinha a companhia do georgiano Temur Ketsbaia.
O Manchester United provou seu favoritismo em Wembley, com a vitória por 2 a 0. A decisão começou pegada, com uma lesão de Roy Keane logo aos nove minutos, substituído por Teddy Sheringham. E a mudança ousada de Ferguson se provou providencial, com o gol do próprio Sheringham para abrir o placar, dois minutos depois. O atacante limpou dois marcadores no meio, tabelou com Scholes e se infiltrou na área para finalizar por baixo das pernas do goleiro Steve Harper. O Manchester United seguiu mais perigoso no primeiro tempo, embora Schmeichel tenha realizado uma boa defesa. Já na segunda etapa, o gol que fechou o placar saiu aos oito minutos. Numa roubada de Solskjaer no ataque, Sheringham fez o pivô e Scholes chegou na entrada da área para soltar a sapatada no fundo das redes. O United salvou uma bola em cima da linha pouco depois, mas desperdiçou bem mais chances de fazer o terceiro. Teve inclusive uma linda batida de Sheringham por cobertura que esbarrou no travessão e impediu a consagração do substituto. Quando os Magpies tentaram uma resposta no fim, pararam em Schmeichel. A força dos mancunianos estava expressa com a taça. Havia um abismo entre os times.
Aquele final de temporada seria mágico ao Manchester United. No Camp Nou, os Red Devils conquistaram a Champions e celebraram a tríplice coroa com a inesquecível virada por 2 a 1 contra o Bayern de Munique, numa das maiores finais da história do futebol. E a sequência de conquistas continuaria por um bom tempo com Ferguson, resultando ainda num tricampeonato da Premier League em 1999/00 e 2000/01. Já o Newcastle, depois de cinco vices nacionais em quatro temporadas (duas ligas, duas copas e uma supercopa), deixou de frequentar as cabeças. O time ainda faria boas campanhas no início do século depois que Sir Bobby Robson assumiu o comando, com Alan Shearer empilhando gols no ataque. Mas já não era aquele rival ferrenho do United, por mais que os grandes embates se repetissem de tempos em tempos.
A temporada 1999/00 teve um 5 a 1 dos Red Devils em Old Trafford, com quatro gols de Andy Cole, antes dos 3 a 0 dos Magpies em St. James’ Park, com dois de Shearer e uma assistência. O Newcastle também ganhou um elétrico 4 a 3 no início da temporada 2001/02, quando até despontou na liderança da Premier League, mas caiu de rendimento. Já em 2002/03, os Red Devils tiveram um 5 a 3 e um 6 a 2, este na casa dos alvinegros, com tripleta de Scholes. Foi mais uma temporada de título para Sir Alex.
O Newcastle chegou a ficar 10 anos sem vencer o Manchester United, até que o jejum se quebrasse em 2012. As vitórias foram um pouco mais frequentes na última década, mesmo que a dominância dos Red Devils no confronto seja clara. Por mais que o United não seja mais o bicho-papão de outrora na Premier League, o interesse do Newcastle vinha sendo evitar o rebaixamento, o que nem sempre conseguia. Estavam num patamar distinto. Um sinal maior de competitividade veio apenas mais recentemente, com dois empates nos dois últimos encontros pela Premier League. Aqueles ares de rivalidade, de qualquer forma, só serão mesmo reavivados nesta final da Copa da Liga. Quem sabe, para o Newcastle finalmente dar o troco por tantas frustrações sofridas há mais de duas décadas.



