InglaterraPremier League

Por 21 anos, Lampard honrou o futebol, e se despede depois de ter oferecido tanto

Frank Lampard pode ter feito partidas melhores. Pode ter marcado gols mais bonitos. Ainda assim, nenhum outro jogo e nenhum outro tento marcam tanto o seu caráter quanto o que aconteceu em 30 de abril de 2008. Prova de fogo ao seu espírito, em momento de imenso vazio ao camisa 8. O meio-campista já tinha todo o reconhecimento por seu talento e toda a idolatria da torcida do Chelsea. Entrou em campo, apesar da dor. Dias antes, ele havia perdido sua mãe, Pat, mas não largou o fardo pesado que carregava. Precisava se entregar aos Blues no jogo de volta contra o Liverpool, pelas semifinais da Liga dos Campeões.

VEJA TAMBÉM: Lampard despede-se do Chelsea com um legado de honras e muitos gols

Naquela noite, em Stamford Bridge, Lampard teve uma atuação implacável. Concentrou-se totalmente em seu serviço, liderando a equipe. Parecia que não tinha passado tudo o que passou. Mas tinha, e desabou justo depois de assumir a principal responsabilidade. Aos oito minutos do primeiro tempo da prorrogação, pênalti para o Chelsea. O craque pegou a bola e cobrou, com toda a sua firmeza. Estufou as redes e se entregou na comemoração. Apontou os céus, beijou a braçadeira negra que usava, se ajoelhou no gramado, não escondeu o choro. Marcou o gol que desempatou o jogo e colocou os londrinos em sua primeira final de Champions da história.

A partir daquele momento, Lampard dissipou quaisquer dúvidas sobre o seu futebol. Escancarou os seus valores, a sua garra, o seu profissionalismo. Deu a prova definitiva de como era um gigante. E, mesmo derrotado na final em Moscou, outra vez foi enorme. Marcou o gol do Chelsea, acertou a trave na prorrogação, converteu sua cobrança na disputa por pênaltis. Merecia a taça mais do que qualquer outro, por tudo o que vinha enfrentando e fazendo. Mas precisou aguardar por quatro anos. Não é o brilho prateado do troféu, porém, que torna a carreira do inglês mais notável. O seu valor foi provado a cada partida, a cada músculo contraído, a cada suor derramado. Aos 38 anos, o meio-campista anuncia o fim de sua carreira nesta quinta. O reconhecimento é o mínimo, diante dos princípios que ofereceu durante 21 anos como profissional.

O futebol sempre correu nas veias do júnior. Seu pai, também chamado Frank Lampard, foi um dos grandes símbolos do West Ham entre as décadas de 1960 e 1980, com mais de 500 partidas como profissional. Do outro lado da família, também havia o sangue boleiro de seu tio, Harry Redknapp, irmão de sua mãe. Chutar uma bola virou vocação natural ao garoto nascido em Londres. Ainda assim, a família incentivou os estudos. O jovem era um estudante exemplar e confessa que sofreu quando precisou escolher entre os livros e as chuteiras.

VEJA TAMBÉM: Os 203 gols que eternizam Lampard como mito do Chelsea

Assim, Lampard começou sua carreira nas categorias de base de um grande clube relativamente tarde. Aos 16 anos, em 1994, seguiu o caminho óbvio: assinou com o West Ham como aprendiz, pouco antes de receber seu primeiro contrato profissional. E, em janeiro de 1996, retornando de um breve empréstimo ao Swansea, já estava estreando na equipe principal dos Hammers, saindo do banco em um duelo contra o Coventry City. Em Upton Park, muitos tinham consciência de que ali se encontrava uma pérola. Que passou a ganhar espaço aos poucos, se firmando entre os titulares a partir de 1997/98.

A qualidade de Lampard era evidente. Logo em suas primeiras temporadas, causou impacto em uma equipe que ocupava a parte de cima da tabela da Premier League. Mais do que com consistência no meio de campo, o novato também contribuía com gols. Mesmo assim, havia quem pedisse mais. O fato de ser filho de um antigo ídolo aumentava a cobrança. Além disso, alguns acusavam o nepotismo, em um time treinado por seu tio e cujo assistente era seu pai. Diante das cobranças e do tratamento dado pelo clube ao seu pai, o meio-campista preferiu sair. Seguir os seus próprios passos, escrever a sua própria história.

lampard

O Leeds United, potência na época, esteve próximo de assinar com Lampard. O jogador de 23 anos, contudo, preferiu permanecer em Londres e se transferir ao Chelsea. Os Blues pagaram £13,6 milhões, segundo maior negócio já feito pelo clube até então, em tempos nos quais a fortuna de Roman Abramovich estava distante de jorrar nas torneiras de Stamford Bridge. Em agosto de 2001, estreou com a nova camisa. Iniciou a trajetória daquele que, para muitos, é o maior jogador da história do Chelsea.

VEJA TAMBÉM: 40 belos gols de Lampard para lembrar a história que escreveu pelo Chelsea

Sob as ordens de Claudio Ranieri, Lampard logo se tornou protagonista do time, que não era exatamente um papa-títulos, mas frequentava o Top Four da Premier League. Sua primeira temporada indiscutível em Stamford Bridge aconteceu em 2003/04, último ano do italiano no banco de reservas e o primeiro de Abramovich na presidência. O meio-campista anotou 10 gols na liga, levando os Blues ao vice-campeonato, melhor campanha desde a década de 1950. Já na Liga dos Campeões, também liderou a campanha até as semifinais, marcando um dos gols que eliminou os Invincibles do Arsenal na competição continental. E, firmando-se na seleção inglesa, foi titular na Euro 2004, terminando na seleção do torneio, apesar da eliminação para Portugal nas quartas de final.

Por mais que o Chelsea gastasse fortunas em novas contratações, Lampard permaneceu como uma das espinhas dorsais do time. Desfrutava de plena confiança com José Mourinho e se tornou ainda mais importante no timaço montado pelo português. Em 2004/05, viveu sua melhor temporada. O craque comandou os Blues ao título da Premier League, anotando 13 gols, incluindo os dois que confirmaram a conquista diante do Bolton. Acabou premiado como um dos melhores da competição. Já na Liga dos Campeões, ajudou os londrinos a deixarem pelo caminho Barcelona e Bayern de Munique, com gols bonitos e fundamentais.

lampard

Lampard continuou debulhando em 2005/06, quando faturou o bicampeonato inglês. Seu primeiro turno na Premier League, especialmente, foi irrepreensível, com atuações fantásticas. E ainda demonstrando uma resistência imensa, emendando 164 partidas consecutivas na liga, recorde do torneio. Ao final de 2005, terminou em segundo na Bola de Ouro e no prêmio de melhor do mundo da Fifa, atrás apenas de um extraterrestre chamado Ronaldinho. Já pela seleção inglesa, foi artilheiro das Eliminatórias rumo à Copa de 2006. Entretanto, não exibiu o seu melhor no Mundial da Alemanha. Passou em branco no torneio e ainda perdeu seu pênalti contra Portugal, nas quartas de final. Vivia, ali, uma das maiores decepções de sua carreira.

No Chelsea, ao menos, não havia mais o que se questionar sobre Lampard. Em 2006/07, mesmo sem o tri na Premier League, ele foi decisivo nas conquistas da Copa da Liga e da Copa da Inglaterra. Depois, no ano seguinte, viveu o turbilhão de emoções com a morte de sua mãe e a final perdida da Champions. Apesar das especulações sobre sua saída, reiterou o seu compromisso em agosto de 2008, renovando contrato e se tornando o jogador mais bem pago do futebol inglês. Em retribuição, deu mais uma FA Cup aos londrinos. Até que, em 2009/10, o camisa 8 desse um passo além. Depois de quatro anos, os Blues reconquistaram a Premier League. Anotou 22 gols no campeonato, marca incrível para um meio-campista e a maior de sua carreira. Dava mais motivos para a sua idolatria nas arquibancadas de Stamford Bridge.

Em sua segunda Copa do Mundo, Lampard viu o sonho outra vez ruir. E, desta vez, como se tivesse sido arrancado. Nas oitavas de final, contra a Alemanha, ele marcou um gol que empataria a partida. O único detalhe é que o juiz não viu a bola entrar, em lance que derrubou os ingleses, engolidos nos instantes seguintes. Na volta a Londres, o meio-campista também viveu sua temporada mais difícil nos Blues. Jogou pouco por causa das lesões e, em anos gloriosos, viveu uma temporada atípica sem títulos. Mas a tempestade foi precedida pela maior bonança da história do Chelsea, em 2011/12.

lampard

Em tempos nos quais os senadores do Chelsea começavam a ter seu poder questionado, Lampard ainda sustentava o seu respeito. Mas contou com o retorno triunfal das outras lendas para conquistar o tão sonhado título da Liga dos Campeões. Os Blues cresceram principalmente nos mata-matas, com o camisa 8 sendo vital neste processo, sobretudo na agônica classificação sobre o Napoli nas oitavas de final. Após a derrota por 3 a 1 no San Paolo, os londrinos precisavam dar o troco em casa. Pois o craque deu uma assistência e marcou o gol que forçou a prorrogação. Depois, desequilibrou novamente diante do Barcelona. A vitória em Stamford Bridge nasceu em uma roubada de bola sua, enquanto deu mais uma assistência no Camp Nou. Por fim, capitão na decisão contra o Bayern de Munique, converteu o seu pênalti, em noite estrelada por Didier Drogba e Petr Cech.

Se quisesse se aposentar naquele momento, Lampard já seria uma sumidade em Stamford Bridge. Mas ele permaneceu nos Blues por mais duas temporadas. Para mais um título, da Liga Europa. Sobretudo, para se transformar no maior artilheiro da história do Chelsea. Em maio de 2013, no mesmo jogo contra o Aston Villa, marcou dois gols, para igualar e superar o recorde que pertencia a Bobby Tambling. Na temporada seguinte, ainda chegou à marca de 211 tentos, apesar do baixo rendimento. Isso, de qualquer forma, não impediu a despedida marcante quando o meio-campista anunciou que não seguiria mais nos Blues, após 13 anos de serviços prestados e 13 títulos. Seus chutes ferozes e seus grandes lançamentos são eternos.

Também em 2014, Lampard fez sua despedida da seleção inglesa, coadjuvante na Copa do Mundo. Completou 106 jogos pela equipe nacional. Vendido ao New York City, chegou de maneira surpreendente ao Manchester City, em uma temporada antes de se mudar aos Estados Unidos. Quis o destino que ele marcasse seu primeiro gol justamente contra o Chelsea, com poucos minutos em campo, encerrando uma sequência de vitórias do time que tanto o idolatrou. Sequer comemorou. Depois da passagem pelo Estádio Etihad, ficaria ainda mais dois anos em Nova York, importante ao City, mas sem triunfar na MLS. Até que pendurasse suas chuteiras nesta quinta.

Em sua carta de despedida, Lampard agradeceu à família, aos amigos e aos clubes por onde passou. Sobretudo, ao Chelsea. “A maior parte do meu coração pertence ao Chelsea, um clube que me deu tantas boas lembranças. Nunca me esquecerei da oportunidade que me ofereceram e o sucesso que alcançamos juntos. É impossível agradecer individualmente a todos que me ajudaram e me apoiaram em 13 anos jogando lá. Tudo o que eu posso dizer é que, do dia em que cheguei ao último, e ainda no futuro, eu serei eternamente grato por tudo e todos. Os torcedores do Chelsea me fizeram ser quem sou e meus companheiros garantiram um apoio incrível. A paixão e a fome deles me levaram ao melhor, ano após ano. Eu não poderia ter conseguido sem eles”. Grande adeus de um grande jogador.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo