Inglaterra

Partey foi uma boa contratação, mas será que pode vir a ser um mau negócio?

Por Alcysio Canette*

No último dia da janela de transferências europeia, o Arsenal quebrou o porquinho, foi até os escritórios de La Liga e depositou os € 50 milhões necessários para pagar a cláusula de rescisão contratual de Thomas Partey, do Atlético de Madrid.

Sem dúvida, o ganês de 27 anos é um ótimo jogador, com números defensivos sólidos, boa qualidade na saída de jogo, capacidade de ganhar bolas pelo alto e resistência à pressão alta do adversário. O único meio-campo que joga pelo Arsenal que tem números comparáveis aos dele é Dani Ceballos, que está no clube somente por empréstimo.

Sendo assim, os Gunners gastaram alto para preencher uma lacuna muito clara em seu elenco, o que faz a contratação ser automaticamente um bom negócio, correto? Vamos ver.

Para selar o negócio com Partey, quem o Arsenal namora desde 2014, quando o olheiro Francis Cagigao gostou do que viu em um empréstimo do atleta ao Almería, os Gunners precisaram desembolsar um valor associado a meio-campistas do mais alto nível neste momento – antes da pandemia, com números muito inflacionados, nem era tão alto assim.

Mas, além disso, ofereceu um astronômico salário de € 275 mil semanais, que o coloca em um patamar de quase igualdade com Aubameyang, o jogador mais bem pago do clube que realmente joga pelo clube. Ou seja, tirando Özil.

Partey está custando o equivalente a jogadores de primeiro nível e há dúvidas se ele, aos 27 anos, e portanto com pouco espaço para melhorar significativamente, está nesse patamar. Ele recebe o mesmo que Sergio Busquets, do Barcelona, por exemplo. Comparando as últimas temporadas dos dois, com base nos números do excelente site Squawka, Busquets tem números melhores em quase todos os departamentos com a bola e perde nos defensivos.

Vale ponderar que ambos atuaram em equipes de características muito diferentes. Busquets, principalmente depois da chegada de Quique Sétien, teve muito mais responsabilidade na construção de jogo e em frear contra-ataques do que Partey, peça importante de um time que não fica tanto com a bola, defende antes de atacar e pede mais chegada à área de seus volantes do que criatividade no passe.

Vamos comparar com outros jogadores importantes da posição. Partey ganha de N’Golo Kanté, do Chelsea, em todos os principais índices defensivos, e fica um pouco abaixo com a bola nos pés. Em relação à temporada 2018/19 do francês que foi menos prejudicada por lesões do que a última.

A comparação com Fabinho lhe é até mais elogiosa. Ele também vence nas questões defensivas – apenas 0,2 abaixo em desarmes a cada 90 minutos – e tem uma precisão de passe um pouco menor, embora crie praticamente o mesmo número de chances.

Partey está distante de Fernandinho – em relação à temporada 2018/19 porque, na seguinte, o brasileiro atuou majoritariamente como zagueiro. Muito abaixo na quantidade de passes e na precisão, embora melhor na criação de chances. Defensivamente, perde em quase todos os quesitos, menos desarme – em parte porque o Manchester City fica mais tempo com a bola em seus pés do que o Atlético de Madrid – e interceptações.

O volante de Gana se assemelha bastante a Casemiro. Ele perde na maioria dos quesitos, mas nas casas decimais. A maior diferença está na quantidade de tentativa de passes, muito influenciada pela características dos times. Está aproximadamente 0,5 ponto abaixo nos índices defensivos, em média.

Uma última comparação interessante é com Wilfred Ndidi, um dos melhores volantes da Premier League, embora atue por um time que não faz parte do grupo de elite. O Leicester sofre quando não tem o nigeriano e os números deixam muito claro o motivo. Com a bola no pé, ele produz praticamente o mesmo que Partey, mas leva muita vantagem nos índices defensivos, especialmente em desarmes: 4,4 x 2,5. Mas, como também demonstramos, ele ganha de quase todos os outros grandes volantes nesses quesitos também.

Os números indicam, portanto, que Partey não está longe dos principais volantes do mundo. Praticamente na mesma conversa: ganha em alguns quesitos, perde em outros, dependendo da comparação. Para chegar lá na prática, com a bola rolando, depende de outras questões ainda imensuráveis, como adaptação a uma nova liga, a evolução do time, o que lhe será pedido, etc, etc. Acontece, porém, que o seu salário é superior ao de todos eles, com exceção de Busquets, e esse é o principal risco do negócio feito pelo Arsenal.

O investimento combinado (transferência mais salários) de mais de € 120 milhões em Partey coloca o Arsenal em posição parecida à de dois anos atrás, quando recheou o elenco de jogadores em fim de pico de desempenho, ou no meio dele, apostando em uma qualificação para a próxima Champions League. Da última vez, a tentativa foi um fracasso retumbante, como é sabido.

A construção de elenco do Arsenal não avançou de forma tremendamente positiva nessa janela do verão europeu. O problema de ter um monte de jogadores jovens, poucos entre 23-27 anos e uma quantidade significativa de se aproximando mais dos 30 foi aprofundado com as contratações de Cedric Soares e Willian; e Partey, por idade, não está distante de entrar nesse segundo grupo.

O problema em ter muitos jogadores nessa faixa etária é a falta de valor de revenda. São atletas que estão no auge dos ganhos financeiros de um jogador profissional e com potencial elevado de apresentar uma queda de desempenho a cada ano. Se não alcançarem os objetivos propostos em curto prazo, fica muito difícil passá-los adiante quando começa o declínio. É por isso que o clube está preso com Özil, Sokratis e Mustafi, por exemplo.

O Arsenal resolveu correr um risco alto: apostar que a Premier League e o time de Mikel Arteta serão perfeitos para as habilidades de Partey ao ponto de um jogador muito bom se tornar um jogador de elite instantaneamente, correspondente ao salário que recebe, mas também que essa melhora contribuirá significativamente para catapultar o clube ao top 4 e que ele jogará em alto nível por ao menos três anos.

É uma aposta um tanto ousada para um clube que desde que começou a ousar, como no verão em que se recusou a vender Alexis Sanchez para o City, só se deu mal.

*Alcysio Canette é advogado, membro da torcida Arsenal Brasil e apresentador dos podcasts Lado b do Rio, Lado b noticias e Piores Crimes do Mundo, pela Central 3.

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